-->
 Seleções. Uma ideia que ganhou o mundo.

 

2010-2012

Edição de janeiro de 2010
 
Caro doutor Google
A Internet dá acesso inédito a informações sobre saúde. Saiba usá-las com sabedoria...
 
Há 20 anos, é provável que tivéssemos apenas uma grande fonte de informações clínicas: o médico. Quem voltasse
do consultório com o diagnóstico de uma doença pouco conhecida revirando na cabeça e ficasse curioso talvez fosse procurar o exemplar empoeirado de algum dicionário médico da família para pesquisar sobre o assunto. Além de ir a uma biblioteca em busca de revistas científicas, não havia mesmo outra maneira de saber o que estava acontecendo.
 
Como tudo mudou! Hoje, a simples sugestão de dor já basta para mandar muita gente para a Internet. Segundo o Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (Cetic), órgão responsável pela produção de indicadores e estatísticas sobre a disponibilidade e o uso da Internet no Brasil, 33% dos usuários buscam informações relacionadas à saúde na rede. Podemos digitar sintomas, descobrir pesquisas, procurar terapias complementares e obter apoio psicológico em grupos de pacientes – tudo pela web.
 
Podemos, também, encontrar histórias inspiradoras, comprar remédios e até publicar nossas opiniões. A terminologia médica perdeu o mistério e toda a literatura específica, além de milhões de páginas de informações para os consumidores, está apenas a um clique de distância. É de graça, é prático e dá uma sensação de estar conectado ao mundo. E, se você gosta de saber mais sobre saúde, pode até ser divertido. Mas por onde começar? Experimente digitar as palavras “gripe suína”, por exemplo, e surgem mais de 13 milhões de páginas, só em português. Digite “dor de cabeça” e, além da página da Wikipédia, de alguns clipes do YouTube e de reportagens sobre crises financeiras, há ainda informações sobre remédios, tratamentos, diagnósticos e, principalmente, sintomas com as mais variadas causas, de estresse a má alimentação, de vista cansada a tumor no cérebro.
 
“As informações sobre saúde disponíveis na Internet estão criando uma geração de hipocondríacos cibernéticos. Há pessoas que, após navegar na web, temem os piores diagnósticos para seus sintomas. Uma dor de cabeça pode se transformar em sintoma de tumor. Os especialistas recomendam que aqueles que se preocupam com sua saúde procurem um médico em vez de tentarem fazer diagnósticos pela Internet”, afirma Gerson Zafalon Martins, do Conselho Federal de Medicina (CFM).
 
O fato de as ferramentas de busca, como o Google, por exemplo, priorizarem os sites de acordo com uma fórmula complicada, que inclui quantas visitas uma página já teve e quais são as palavras-chave incluídas ali pelos autores, não aju--da muito. Isso significa que a probabilidade de tropeçar em informações sobre complicações raras e fatais é a mesma de encontrar a doença que realmente temos. O fato é que a Internet contém muitas informações exatas. Mas muitíssimas inexatas também.
 
Em sua tese de doutorado na Universidade de Brasília, a pesquisadora e farmacêutica Emília Vitória da Silva, do Conselho Federal de Farmácia (CFF), verificou que informações sobre o tratamento farmacológico da obesidade em endereços virtuais brasileiros são, em sua maioria, imprecisas e sem comprovação científica. Das 134 páginas pesquisadas, apenas 39% identificavam o autor dos textos e só 14% delas mostravam asreferências usadas na elaboração do artigo. “Por meio de sites, o paciente, ou qualquer pessoa que faz esse tipo de busca, pode encontrar informação técnica altamente qualificada, mas também pode deparar com um conteúdo fraudulento, um impreciso, um tendencioso e/ou com forte apelo comercial. Não há triagem, ou classificação, do que é útil ou nocivo. E o leigo, que muitas vezes não tem conhecimento técnico suficiente para separar o joio do trigo, fica em situação de risco”, alerta a pesquisadora.
 
O segredo é saber como se concentrar nas páginas que são realmente úteis. Nesse aspecto, a recepcionista Luciana Ferreira, de 33 anos, de São Paulo (SP), não quer saber de correr riscos desnecessários. Na hora de pesquisar sobre temas médicos na Internet, ela opta por sites seguros e confiáveis como os de centros de pesquisa, entidades profissionais e órgãos do governo. “Acesso a Internet desde 2004, quando os médicos descobriram que tenho prolapso da válvula mitral. Os médicos sempre conversaram pouco comigo sobre o assunto e eu queria saber mais. Com a ajuda da Internet descobri que posso melhorar minha qualidade de vida se reduzir o consumo de álcool e cafeína”, observa Luciana.
 
Assim como Luciana, o engenheiro eletrônico Vladimir Sacramento, de 65 anos, do Rio de Janeiro (RJ), também passou a se interessar mais pela rede quando sua mulher começou a ter crises de enxaqueca. Antes de ir ao consultório, Vladimir pesquisa tudo sobre o assunto na Internet. “Na hora da consulta, faço muitas perguntas ao médico. Sinto que alguns gostam. Outros, não. É como se eu estivesse invadindo um território sagrado”, acredita ele.
 
É claro que nem todos nós queremos sa-ber tantos detalhes. Os médicos têm a formação necessária para saber o que é adequado para nossa doença e quem pesquisa muito além do que eles dizem pode se apavorar.
 
Ainda assim, segundo a dissertação de mestrado da pesquisadora Wilma Madeira da Silva, na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), “Navegar é preciso: avaliação de impactos do uso da Internet na relação médico-paciente”, 85% dos 116 in--ternautas entrevistados disseram procurar informações sobre saú--de na Internet e 83% afirmaram que vol--tam a fazer pesquisas on-line depois da consulta médica.
 
 Diretor de Saúde Pública da Associação Médica Brasileira, o Dr. Florentino Cardo-so pede cautela quan-to ao uso exage-rado da Internet pa--ra pesquisar temas médicos. E dá um exemplo: “Hoje, diagnóstico de câncer é uma coisa extremamente comum. Só que câncer não é uma doença única – um câncer não é igual a outro. Da mesma forma como existem vários tipos de câncer, existem vários tipos de tratamento e de prognóstico. A possibilidade de cura é diretamente proporcional ao estágio da doença e do tratamento adequado. Como eventualmente o paciente sabe que tem a doença, mas não sabe o estágio em que ela está, pode pensar sempre no pior. E isso é prejudicial ao tratamento e ao resultado final”, adverte o médico.
 
Um estudo feito pela Microsoft Research em 2008 verificou que quem tenta se autodiagnosticar com base em pesquisas na Internet costuma concluir sempre o pior sobre a doença que tem. Segundo a pesquisa, uma de cada 50 buscas está relacionada a saúde, e cerca de um terço desses usuários acaba pesquisando doenças graves, embora a possibilidade de sofrerem delas seja mínima.
 
É um fenômeno que os alunos de Medicina conhecem bem. Depois de aprender tudo sobre várias doenças, é comum acreditarem que têm os mesmos sintomas. Mas, agora, a “cibercondria” – palavra cunhada em 2000 para descrever quem já sai tirando as piores conclusões depois de ler informações médicas na Internet – vem predominando. Ainda de acordo com a tese de mestrado da Dra. Wilma, 56% dos internautas brasileiros disseram ter detectado uma reação negativa do médico consultado ao saber que eles pesquisaram em sites sobre a doença em questão. “Uma das hipóteses apontadas na pesquisa é que o que tem levado as pessoas a procurar mais informações na Internet é a fragilidade da relação médico-paciente e a curta quantidade de tempo de uma consulta. Os resultados demonstram também que parte significativa desses pacientes e/ou usuários busca construir maior autonomia nesta relação. De forma geral, costumo dizer que todo processo que possibilita ao paciente maior autonomia é sempre positivo”, avalia a Dra. Wilma.
 
O cirurgião oncológico José Ricardo Guimarães, do Hospital das Clínicas de Porto Alegre, um dos primeiros no Brasil a trocar os prontuários de papel pelos eletrônicos, concorda: “Quanto mais informado o paciente estiver sobre o seu problema, melhor será a relação dele com seu médico. E melhores serão também os resultados do tratamento.” Para Florentino Cardoso, porém, a busca por informações sobre saúde na web oferece ainda outros riscos. “Ao consultar informações imprecisas, o paciente corre o risco, também, de amenizar uma situação que pode ser grave. E que só o médico tem condições de avaliar”, adverte. O Dr. Florentino teme que os pacientes que só pesquisam na Internet não tratem seu problema de forma adequada. “A Internet é uma ferramenta de consulta, desde que em sites confiáveis. Mas a confirmação do médico de sua confiança é fundamental”, orienta.
 
“Hoje, robôs controlados por urologistas realizam cirurgias de próstata muito mais precisas, e sistemas de inteligência computacional já ajudam médicos a tomar decisões mais seguras. Mas o computador substituir o médico, creio que não. A relação e o vínculo afetivos desenvolvidos ao longo de um encontro clínico não me parecem algo factível por uma máquina”, analisa Eduardo Pereira Marques, coordenador da Comissão Técnica de Informática do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj).
 
Os médicos têm muitas ferramentas ao seu dispor: escutam as preocupações do paciente, observam-nos, fazem perguntas específicas, e, se necessário, solicitam exames.
 
A jornalista Carolina Feital, do Rio de Janeiro (RJ), por exemplo, quase caiu para trás quando um exame de ultrassonografia diagnosticou ovário micropolicístico há cerca de dois anos. Mais do que depressa, ela correu para o computador a fim de descobrir o que significava aquilo. Depois de muito pesquisar, outro susto: leu que, em alguns casos, ovários micropolicísticos podem causar infertilidade. Com casamento marcado, a última coisa em que Carolina queria pensar era na possibilidade de não ter filhos. “Foi aí que entrei em desespero e fiquei na dúvida sobre o que pensar. Quando fui à consulta, a médica explicou que não era nada daquilo e me pediu que não pesquisasse sobre saúde na Internet”, suspira Carolina, aliviada.
 
Como procurar corretamente
Os links do Ministério da Saúde são exemplos de sites confiáveis – objetivos, atualizados e dignos de crédito, como os do Instituto Nacional do Câncer (Inca), da Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás), e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O professor de Bioética da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Uni-Rio), Paulo Roberto Vasconcellos-Silva, diz que é nesse tipo de site que devemos pesquisar. “Costumo categorizar os sites médicos em três grandes grupos: os de sinal verde, os de amarelo e os de vermelho. Os de sinal verde são, principalmente, os institucionais. Eles apresentam informações seguras geradas por especialistas e escritas por jornalistas. Já os de sinal amarelo estão ligados, em geral, a instituições comerciais, como clínicas, laboratórios e indústrias farmacêuticas. Embora a informação disponível nesses sites seja relevante, pode haver conflito de interesses na exposição daquelas informações”, salienta.
 
Paulo Roberto recomenda algumas verificações básicas. Por exemplo, o site em questão tenta vender algum remédio? Tenta promover algum tipo de tratamento? Exagera na importância de um problema para valorizar determinado produto? “Os sites de sinal vermelho são aqueles que qualquer pessoa com um grau de discernimento razoável percebe que não são confiáveis. Alguns são explicitamente enganosos, querem apenas vender panaceias mágicas ou unguentos milagrosos”, alerta ele. Enquanto isso, estão sendo tomadas providências para tornar mais fáceis e exatas as buscas na Internet. Nos Estados Unidos, a Microsoft comprou recentemente a empresa Medstory, cujo produto foi pensado para permitir buscas mais inteligentes. Há 12 anos, a Fundação Health on Net, acreditada pelo Conselho Social e Econômico das Nações Unidas, certifica sites com informações éticas na área da saúde.
 
Sites com selo da Hon são confiáveis. Infelizmente, eles ainda são poucos quando comparados com outros milhares que usam informações erradas para utilização de leigos”, lamenta Eduardo Pereira Marques, do Cremerj. Os médicos estão tomando consciência do valor da Internet. Alguns já recomendam aos pacientes que visitem sites seguros para pesquisar melhor a doença diagnosticada. “Uma situação que considero ideal é a do paciente que já foi diagnosticado pelo médico de confiança e, depois da consulta, troca informações, verifica exames e apura diagnósticos por meio de um site para, só então, discutir as dúvidas com o especialista. Primeiro, a consulta presencial. Depois, a virtual”, aconselha o professor Paulo.
 
Edição de maio de 2011

A Sabedoria da Felicidade
 
Conheça Ketut Liyer, o curandeiro de Comer, rezar, amar

Você vai viver muito tempo...
Você vai perder todo o seu dinheiro...
Não se preocupe, você vai recuperá-lo...
Você voltará a  Bali e, então,
eu vou lhe ensinar tudo que sei.

(Profecia de Ketut à Elizabeth Gilbert em Comer, rezar, amar)

São três da tarde e estou sentada ao lado de um velhinho de olhos alegres, pele dourada e a boca quase sem dentes. É assim que a escritora Elizabeth Gilbert descreve Ketut Liyer, curandeiro indonésio de nona geração. Esta é a minha primeira visita a Ketut, e ele lê a minha mão. E me diz que encontrarei trabalho criativo pelo qual me apaixonarei. Também diz com certeza absoluta que acharei a minha alma gêmea. Logo, logo.

Elizabeth Gilbert está certa ao dizer que Ketut se parece com Yoda, personagem da série Guerra nas estrelas. Raramente o xamã encarquilhado sai do seu lar humilde em Ubud, na Ilha de Bali. Mas é provável que seu nome seja mais famoso agora, com o sucesso mundial da versão cinematográfica do livro de memórias de Elizabeth Gilbert, o best-seller Comer, rezar, amar, estrelada por Julia Roberts.

De acordo com a autora, Ketut é responsável pela previsão que mudou a sua vida. Foi a profecia dele que a levou a formular o conceito de Comer, rezar, amar – um ano de vida passado na Itália, na Índia e em Bali – e obter o adiantamento que permitiu tudo isso.

E a descrição encantadora de Ketut fez multidões de forasteiros baterem à porta dele. A vida antiga de obscuridade, a receitar remédios caseiros e rituais para os vizinhos, virou lembrança. Na minha visita mais recente, contei quase 20 pessoas – muitas levando o livro – que aguardavam com paciência que ele lesse as suas mãos. Fato ou ficção?

Fui apresentada ao mundo de Ketut em uma livraria no aeroporto de Hong Kong. Era o início de 2008 e eu ia a Bali pela primeira vez. O livro era exibido com destaque, e imaginei que seria uma leitura inspiradora durante o voo de quatro horas até a “Ilha dos Deuses”.

Dê o nome que quiser: destino, providência, kismet ou apenas a velha, simples e burra sorte, mas, assim que achei minha poltrona e peguei o livro para ler, a senhora sentada ao meu lado puxou a câmera digital e, empolgada, começou a me mostrar fotografias de um balinês idoso de aspecto feliz. Entusiasmada, ela me informou que aquele era Ketut, o famoso curandeiro que ajudara Elizabeth Gilbert a sair da tristeza e encontrar o sucesso.

Curioso, mergulhei nas páginas do livro e decidi fazer uma visita ao adivinho. Será que ele estaria à altura das expectativas sobrenaturais criadas por Elizabeth Gilbert? Eu esperava que sim. Se ele realmente contribuíra com as aspirações dela de escritora, talvez conseguisse dar vida às minhas.

O curandeiro

Pedi ajuda a alguns colegas viajantes para encontrar o endereço de Ketut, e, num piscar de olhos, estamos a caminho de Ubud. Ao passar pelo portão da frente da casa, vimos um homem alegre, parecido com a descrição de Ketut, sentado na varanda exatamente como Elizabeth Gilbert escrevera. Lia a mão de duas australianas.

Ketut nos olha com um sorriso jovial e nos dá um aceno rápido e amistoso. Quando chega a nossa vez de nos sentarmos com ele, aquela sensação predominante de felicidade se mostra contagiosa. Embora fale um inglês muito básico, as palavras simples de Ketut são de entendimento universal e especialmente positivas.

É difícil descobrir detalhes exatos da sua vida. Parece que eles mudam um pouco depois de várias visitas. Sob a influência das reflexões de Elizabeth Gilbert, muita gente lhe pergunta a idade, mas o número continua a ser um mistério. Parece que, sinceramente, ele não se lembra do ano em que nasceu. Isso é muito comum entre os balineses, que acham que, na data do nascimento, o mais importante é o dia da semana.

Ketut começou a trabalhar como artista plástico e entalhador. Mais tarde, o avô lhe passou os conhecimentos e também o ofício de curandeiro, confiando-lhe pergaminhos sagrados com séculos de existência. Esses textos balineses antigos contêm muitas doutrinas diversas, com rituais sagrados e o tratamento de doenças comuns.

Voltei a Bali várias vezes depois daquela primeira visita. Em cada viagem, sempre visito Ketut. A fama de ter influenciado a hoje famosa Elizabeth Gilbert é que lhe dá o seu encanto. Muita gente quer reencenar a viagem da autora em Comer, rezar, amar, do mesmo modo que os mochileiros continuam a buscar na Tailândia A praia da adaptação do livro para o cinema, com Leonardo DiCaprio.

Ketut não é guru ou iogue, no sentido tradicional indiano. Não tenta penetrar nas profundezas da alma com olhos candentes para colaborar com a viagem rumo ao esclarecimento, nem parece aceitar alunos, como fez com Elizabeth Gilbert no livro. No entanto, cada visita é uma oportunidade de se banhar na aura de felicidade descomplicada que ele transmite.

Mais recentemente, acompanhando uma amiga, mencionei a Ketut que vira na Internet o trailer do filme Comer, rezar, amar, e na mesma hora ele me pediu que o passasse para ele. O filho Nyoman foi nos preparar uma xícara do forte café balinês (sempre servido sem filtrar, com o pó grosso enchendo o fundo da caneca) enquanto eu ia até uma lan house próxima carregar o trailer do filme no laptop.

Comer, rezar, amar
Ketut assistiu, com vivo interesse, ao começo do trailer, em que o ator que o representa faz a previsão para Julia Roberts: “Você viverá muito tempo [...] Perderá todo o seu dinheiro [...] Não se preocupe, vai recuperar tudo e retornará a Bali, e então vou lhe ensinar tudo o que sei.” O ator abre um sorriso amplo e quase desdentado bem parecido com o de Ketut.

Este me pede que repasse o trailer algumas vezes e observa: “Foram essas palavras mesmo que falei para a mulher de Nova York.” Ele quer dizer Elizabeth Gilbert, cujo nome nem sempre consegue lembrar, muito embora tenha passado meses com ela, e visitantes tenham lhe dado exemplares do livro em todas as traduções disponíveis.

Então, ele desvia a atenção da tela do computador e, com os olhos brilhantes, pergunta: “Por que não me usaram? Sou muito mais bonito.” Na verdade, a pergunta é séria.

Ketut, o mais longe possível de Hollywood, não entende direito por que não poderia ser ele ali na tela. Tentei explicar que ser ator é muito tedioso, tendo de repetir as mesmas frases várias vezes o dia inteiro; é um serviço muito diferente de ser “Homem Santo”. Também digo que, normalmente, as pessoas não representam a si mesmas no cinema, ressaltando que “a mulher de Nova York” era representada por Julia Roberts. Ketut ainda não está completamente convencido. Para ele, esse é literalmente o papel que nasceu para desempenhar.

A sabedoria da felicidade
O sol já está se pondo e esse homenzinho mágico lê a mão de duas senhoras americanas. Escuto-o descrever um futuro parecido com o que previu para Elizabeth Gilbert: “Agora você vai encontrar alguém para o resto da vida, que ficará muito feliz de estar com você, e não vai se divorciar de novo.” Os olhos delas brilham, do mesmo jeito que os meus devem ter brilhado durante a primeira visita.

O sucesso não traz necessariamente felicidade, mas a felicidade em si cria o sucesso. Acho que esse ditado é verdadeiro no caso de Ketut. A cada encontro, percebo que a maior parte das minhas expectativas originais, vindas das páginas de Comer, rezar, amar, era bastante equivocada. A alegria e o contentamento profundos de Ketut empolgam os visitantes e são como um estímulo para que busquemos concretizar as nossas aspirações, como fez a Elizabeth Gilbert.

A real magia de Ketut tem base em uma propriedade muito mais sutil e aparentemente humana: a sabedoria da felicidade.

Edição de setembro de 2011
 
As vozes do Japão
Os que se manifestam quando palavras não bastam

11 de março, 2011. Do fundo do mar, ao largo do litoral nordeste do Japão, duas placas tectônicas colidem. A Placa do Pacífico passa pela Placa Norte-Americana, resultando num terremoto de grau 9 que atinge o país asiático às 14h46.

Durante o tremor, a Placa do Pacífico se move 40 metros e desliza sobre uma área da Placa Norte-Americana, que mede 300 quilômetros de comprimento e 150 de largura, provocando um tsunami destruidor, com pelo menos 8 metros de altura, que atinge o Japão minutos depois do terremoto, alcançando pelo menos 10 quilômetros terra adentro.

Entre os locais mais atingidos, estão as cidades litorâneas de Sendai, Minamisanriku, Kuji e Rikuzentakata, nas jurisdições de Miyagi e Iwate. Enquanto redigimos este texto, os números oficiais da Agência Nacional de Polícia do Quartel-General de Contramedidas de Emergência em Desastres do Japão noticiam mais de 15 mil mortos e perto de 8.740 desaparecidos.

Centenas de milhares de pessoas foram afetadas, desde as que estavam diretamente na zona do terremoto, no caminho do tsunami e na área de evacuação em torno da usina nuclear de Fukushima até as moradoras de muitas outras regiões do Japão cuja vida se desorganizou com a falta de energia elétrica, as más condições das estradas, as dificuldades de fornecimento de água e comida e muito mais.

Observamos o desenrolar dos fatos com comoventes filmagens aéreas inéditas do tsunami que atingiu Sendai, além de imagens de Fukushima e da usina nuclear danificada depois do desastre. O mundo assistiu à destruição, à perda de vidas e ao temor de uma catástrofe nuclear provocados pelo Grande Terremoto do Leste do Japão. O mundo também assistiu à força, à resistência, à generosidade e à compaixão do povo japonês durante todo o andamento da crise.

Entre muitas outras, contamos seis histórias de bondade e dignidade dos que se manifestam no silêncio em que palavras não bastam.

Depois das 14h46: histórias do terremoto do Japão
Do jornal Mainichi Shimbun
 
Vizinhos
Perdemos todas as nossas tábuas de salvação logo depois do terremoto. Não sabíamos o que tinha acontecido porque não podíamos usar o celular nem ver televisão. Estávamos tão apavorados que nem conseguimos permanecer dentro de casa naquela noite. Preferimos ficar no carro.

Durante a noite toda houve tremores secundários, um após outro, que nos impediram de dormir. Só dali a dois dias a luz finalmente voltou à nossa casa.

O gás veio pouco depois. Não dá para descrever como nos sentimos felizes e sortudos por ter comida quente sob a luz forte. Não tínhamos tomado muito líquido nos dois últimos dias, e o café que fizemos então estava especialmente gostoso. Agora faz dez dias do terremoto e ainda não temos água corrente em casa. No entanto, acho que é muita sorte ainda termos esta casa, principalmente porque aqui em Ibaraki há muita gente de Fukushima que ainda nem conseguiu entrar em contato com a família.

Conseguimos levar a vida sem água corrente. Os vizinhos nos cederam água de um poço que têm no jardim. Também nos deram água potável, macarrão instantâneo e pratos para as refeições. Sinceramente, acho que não conseguiríamos nada sem a ajuda deles. Eu lhes disse que não poderia exprimir com palavras como apreciávamos a sua ajuda. Eles me responderam: “Vocês fariam o mesmo se estivéssemos em dificuldades.” Sou muito grata pelas gentilezas que recebemos, desde os vizinhos, que nos ofereceram água do poço, a estranhos que nos cederam água para encher a banheira.

Essa gentileza me lembrou que é importantíssimo manter relações com os vizinhos e nos ajudarmos. Gostaria de estimular todo mundo a se envolver mais ativamente com a comunidade local na vida cotidiana, porque ninguém sobrevive sem a ajuda dos outros.
Yumiko Takemoto, Hitachinaka, Ibaraki

Sob os escombros
A minha avó está debaixo dos escombros! Por favor, a encontrem!”, foi o apelo de Jin Abe, 16 anos. Jin foi encontrado nos escombros nove dias depois que a sua casa, no devastado distrito de Kadowaki, em Ishinomaki, desmoronou em cima dele.
Os policiais Seino Yoichi, Sato Shuichi, Kasuga Daisaku e Chiba Tomohiro descobriram os dois sobreviventes, cuja casa fora arrastada pela onda gigante. Os quatro procuravam sobreviventes depois do terremoto e do tsunami. Na tarde de 20 de março, Seino escutou uma voz fraca entre os escombros. Jin cavara o seu caminho para sair.

Os policiais tinham passado os nove dias anteriores procurando sobreviventes e, até então, só encontrado corpos. “Não achávamos que haveria sobreviventes”, disse Seino. A equipe inteira não conseguia acreditar no que via. Jin, pálido e trêmulo, recusou a comida e a almofada aquecida que o sargento Seino lhe entregou. Em vez disso, pediu ao policial que salvasse a sua avó, que não podia andar.

Chiba, policial de 20 anos, foi o primeiro a entrar na casa desmoronada para retirar Sumi Abe, 80 anos. Navegou por entre as pilhas profundas de destroços e escombros. Quando achou Sumi, ela caiu em prantos. A cozinha onde Sumi e Jin tinham se refugiado era um espaço estreito e escuro; os dois mal conseguiam ficar deitados. Um guarda-roupa que virara lhes forneceu um futon e cobertores. “No meio, começou a chover e nevar. Mas o futon ajudou”, disse Sumi.

Jin conseguia escutar os policiais e bombeiros trabalhando ali perto. Mas não conseguiam sair nem pedir ajuda. Enquanto estavam presos, Jin manteve a avó animada, dizendo-lhe que seriam encontrados.
“Estou espantado com a flexibilidade e a robustez do nosso povo. É espantoso que tenham conseguido sobreviver”, disse o policial Chiba.Os olhos de Seino se avermelharam com as lágrimas e a exaustão. “Foi uma situação difícil, mas estamos cheios de esperança.”

Assistência
Não sei por onde começar... dez dias se passaram desde o terremoto. A casa dos meus pais fica a 40 quilômetros da usina nuclear de Fukushima. Disseram a eles que tinham de ficar dentro de casa. Embora a casa não tenha sido muito danificada pelo terremoto e pelo tsunami, é preciso enfrentar o problema da radiação.

Talvez isso não represente nada perto do pior, ou seja, perder um familiar ou a casa, mas eles quase não têm informação nenhuma sobre isso. Só conseguem assistir aos noticiários da TV.

Não sabem se estão mesmo em perigo ou se estão a salvo e têm de combater um inimigo invisível dentro de casa. Mesmo que decidam ir embora, não têm gasolina e não sabem até onde chegariam. Os trens também não estão funcionando.

A minha mãe tem 70 anos, recusa-se a ir para um abrigo e insiste em ficar em casa. Diz que terremotos de grau 3 não a incomodam. Na minha cidade natal, ninguém irá embora. Além disso, eles abrigaram os evacuados da cidade vizinha e agora sentem que não podem partir e abandonar essa gente.

Os habitantes da região de Tohoku são generosos, calmos e humildes. Aguentaram as situações sem se queixar. É claro que têm medo e dúvidas, mas hesitam em revelá-los, pois sabem que há outros sofrendo muito mais.

Não esperam que o governo os ajude, mas decidiram ficar e lutar. Os boatos sobre a poluição radioativa continuam a crescer. Sofremos como os outros que estão em áreas afetadas pelo desastre. A diferença é que temos de lidar com um perigo invisível e antinatural. Por favor, não abandonem Fukushima. Por favor, vejam a realidade. Por favor, nos deem informações corretas e oportunas. Por favor, controlem o pesadelo dessa usina o mais cedo possível. E saibam que Fukushima está fazendo todo o possível.
Yuki Watanabe Tóquio (natural de Tamura, Fukushima)

Os 50 de Fukushima
A usina Daiichi, em Fukushima, compõe-se de seis reatores nucleares isolados que geram eletricidade. Na hora do terremoto, um dos reatores estava sem combustível e outros dois estavam parados para manutenção.

A usina era protegida por um dique projetado para suportar um tsunami de 5,7 metros, mas, uma hora depois do tremor, ondas de até 14 metros caíram sobre o complexo. A usina inteira foi inundada, inclusive as conexões fundamentais à rede elétrica e aos geradores de emergência, imprecindíveis para manter o sistema de resfriamento. Toda a energia para o resfriamento se perdeu, e os reatores começaram a superaquecer por causa do decaimento natural dos produtos da fissão nuclear criados antes que o funcionamento se interrompesse.

A temperatura subiu sem parar nos reatores. Para evitar o derretimento, durante dois dias umas 1.800 toneladas de água foram borrifadas nas varas de combustível usado do reator número 4. Mais de 50 operários da usina permaneceram no local para bombear água do mar e resfriar as varas de combustível dos outros reatores.

Na verdade, há mais de 50 operários combatendo as explosões de hidrogênio e os incêndios dentro das instalações. Trabalham em turnos para evitar o perigo. Durante as primeiras semanas, as luzes dos prédios que abrigam os reatores permaneceram apagadas e o nível de radiação era alto.

No fim de março, sete operários tinham se exposto a um nível de radiação mais alto do que o máximo permissível, de 100 milissieverts, e foi necessário encontrar substitutos.

Um operário terceirizado de trinta e poucos anos que não quis dar o nome disse o seguinte: “Não acho que sejamos heróis. Na verdade, fazemos o trabalho em turnos, sob supervisão, de acordo com a lei”, declarou com objetividade. “É claro que nos inquietamos. Trabalhamos numa situação de radiação elevada e não temos certeza do que acontecerá com o local. Pode haver outra explosão e o nível de radiação pode aumentar. Temos a opção de recusar o serviço. A minha família me disse isso. É uma decisão dificílima”, acrescentou.

No momento, a tarefa mais urgente é religar a energia, fundamental para o sistema de resfriamento do reator nuclear, mas, de acordo com a Tepco (Tokyo Electric Power Company – Companhia Elétrica de Tóquio), só há uns 70 operários com conhecimento suficiente para fazer o serviço. Para evitar que se exponham por muito tempo ao nível elevado de radiação, cerca de 20 operários trabalham de cada vez.

No desastre nuclear de Chernobil, em 1986, 28 dos 134 operários e bombeiros gravemente expostos morreram até três meses depois do acidente com síndrome radioativa aguda. Ainda que sejam conflitantes as avaliações do nível de radiação do acidente de Fukushima em comparação com o desastre de Chernobil, os parentes dos operários rezam pela segurança de suas famílias e do Japão.

Os danos ao reator fizeram com que materiais radioativos como o iodo-129 e o césio-137 vazassem para o ambiente, afetando mar, terra e água doce. Embora o impacto ambiental total ainda não seja conhecido, já se encontraram vestígios de radiação na água potável, em hortaliças e frutos do mar.

As novas informações sobre o nível de radioatividade ambiental na zona de 20 a 30 quilômetros fizeram o governo japonês tomar providências para criar novas zonas de evacuação.

A crise permanece e, no início de maio, a Agência Internacional de Energia Atômica disse que a situação no local “continua muito grave”. De acordo com os dados divulgados em 9 de maio pelo governo da jurisdição de Fukushima, mais de 34 mil pessoas foram retiradas da região onde se localiza a usina e outras mais se preparam para a evacuação enquanto esta reportagem é impressa.

A filha de um dos operários está cheia de admiração pela bravura do pai. “Ele planejava se aposentar daqui a seis meses, mas se voluntariou para trabalhar na usina nuclear. Ele me disse que o futuro depende do que fizermos agora. Ele cumpre uma missão.”

Encorajamento
Essa semana foi um pesadelo. Torço para que todos os afetados por esse terrível desastre logo acordem do sonho ruim, mas não tenho palavras de consolo. Sou um velho com uma esposa velha e aguentei muita coisa essa semana. Mas isso não é nada comparado à vida dos que estão nos abrigos.

Para nós, velhos confusos com a escassez de informações, o rádio tem sido a fonte mais confiável de notícias. Escutamos as transmissões tarde da noite, com pilhas que duram um tempo surpreendente. Embora possamos usar as funções normais do celular, mal conseguimos usar as funções de emergência. As baterias se esgotam enquanto mexemos nos aparelhos, e a vasta maioria desistiu. Pouquíssimas pessoas da minha geração acessam a Internet, e, como é preciso eletricidade para ficar online, não temos usado, com os cortes de luz. Mesmo quando nos ligamos à Internet, é difícil encontrar as informações que queremos. Naturalmente, não se pode ver televisão durante os blecautes.

O forte da nossa geração é a experiência. Embora esse desastre não tenha precedentes, experiências parecidas, como o caos do pós-guerra, os choques do petróleo e o terremoto de Miyagi, em 2005, nos deixaram preparados. Muita gente também tem suprimentos de emergência.

Para ser franco, não tem sido confortável para quem tem mais de 80 anos. Ficar horas na fila para obter água ou fazer compras nos deixa gelados da cabeça aos pés e provoca dor nas costas. Mas, ao ver mães jovens com filhos pequenos esperando a sua vez com paciência, e as qualidades impressionantes das moças que usam apenas uma calculadora para somar o total das compras de muitos fregueses, me dá a forte convicção de que este país não vai se abater nessas circunstâncias.

Já faz algum tempo que eu e a minha mulher dividimos atividades e cumprimos os nossos respectivos papéis. Os nossos filhos nos encorajaram e isso levou à reconfirmação dos nossos laços familiares. Também recebemos muito encorajamento de pessoas inesperadas.

Vivi muitos anos. A noite sempre virou dia e a chuva nunca deixou de cair. A situação melhorou muito esta semana e vai melhorar ainda mais na semana que vem. Essa é a manifestação do espírito de luta de quem nasceu na primeira década do período Showa. Temos de nos manter fortes.
Avó Hibiki, Sendai
 
Não desista
Contado a Lye Ching Lam

“Eu estava conferindo os e-mails quando a notícia do terremoto surgiu na tela. Assisti à notícia do tsunami em tempo real, pela Internet, em Cingapura. Fukushima foi arrasada e o que me veio à cabeça foi a segurança da minha família”, conta Hiroyuki Nishiuchi ao descrever como soube do sofrimento da sua cidade natal de Minami Soma, em Fukushima.

Ao saber do desastre, a primeira ideia do triatleta profissional de 35 anos foi voltar para casa. Mas, quatro dias antes do Triatlo Aviva Ironman 70.3 de 2011, em Cingapura, ele decidiu correr e levantar recursos para ajudar a sua cidade.
 
Depois do treinamento na Tailândia, ele voltou a Cingapura para encontrar a mulher, Maki, 36 anos. O casal conseguiu quase 20 mil dólares no evento.

Nishiuchi ainda tenta fazer mais pela sua cidade arrasada, localizada a apenas 23 quilômetros da usina nuclear. Embora alguns moradores tenham deixado a região, “muitos ainda ficaram para trás e há pouquíssimo apoio do governo”, diz Nishiuchi. O corpo de seu primo foi encontrado recentemente, e a avó do primo ainda está desaparecida.

Depois de apelos de Nishiuchi aos conhecidos e amigos triatletas, em e-mails e no seu blog, foram doados alimentos de emergência, como arroz e macarrão instantâneo. “Como não há serviço de entrega por causa do elevado nível de radiação, os funcionários de Minami Soma têm de viajar até a cidade vizinha para buscar os suprimentos”, acrescenta ele.

Através de Nishiuchi, Masahiro Ishezeki soube do sofrimento da cidade de Minami Soma e, imediatamente, fez um apelo para levantar recursos em toda a Ásia. “Apelei para amigos e conhecidos em Cingapura, no Camboja e até nas Filipinas, pedindo e explicando a situação desesperadora de Minami Soma”, diz Ishezeki, que passou um fim de semana criando um site para ajudar a explicar e divulgar informações para o mundo exterior. “Para mim, o mais tocante e encorajador foi ver trabalhadores rurais e até mendigos do Camboja doando e fazendo a sua parte. Vemos muita compaixão entre aqueles que não têm o suficiente para si. Eles são heróis.”

Nishiuchi explica o sofrimento da sua cidade natal depois do desastre: “Não há serviço de correio porque o responsável pela agência foi evacuado, e os donos de supermercados e outros foram embora. Como o governo anunciou que a área é perigosa, os motoristas de caminhão também se recusam a entrar na cidade para entregar mercadorias.” Mas ele não desiste. “Os moradores da minha cidade ainda precisam de ajuda. Meu pai voltou para auxiliar nos os consertos elétricos nas casas avariadas pelo terremoto. E espalhei caixas de doação na jurisdição de Hyogo, onde moro agora”, explica. Até que o auxílio seja suficiente, o trabalho de Nishiuchi para ajudar a cidade onde cresceu continua.

Edição de março de 2012
 
A busca do voo 447

Em 31 de maio de 2009, o avião da Air France que fazia o voo 447 com 216 passageiros a bordo decolou do Rio de Janeiro rumo a Paris. Em algum ponto do Atlântico, despencou do céu, e todas as vidas se perderam. Assim começou uma operação de dois anos de uma unidade de investigação submarina liderada por Olivier Ferrante para encontrar as caixas-pretas do avião e descobrir o que causou um dos acidentes mais desconcertantes da história da aviação.

Num ensolarado feriado de segunda-feira, Olivier Ferrante assava salsichas na grelha e recebia amigos no quintal, ao norte de Paris, quando o telefone tocou. Era um chamado do BEA, órgão francês de investigação de acidentes aéreos, onde trabalhava o mergulhador e ex-jogador de rúgbi de 38 anos. A notícia era horrível. “Um Airbus sumiu no Atlântico; precisamos de você.”

Ferrante se despediu dos convidados, beijou a mulher e as duas filhas pequenas e correu para o escritório no aeroporto Le Bourget. Como investigador de segurança, participara com a equipe, direta ou indiretamente, da recuperação de aviões acidentados no Mar Vermelho, no Mar Negro, no Mar de Java e em todos os oceanos. Mas essa investigação seria a mais difícil de todas: o avião sumira sem mensagem de socorro, sem testemunhas nem vestígios no radar.

Pelo menos oito navios e uma dúzia de aviões militares convergiram sobre a última posição conhecida da aeronave, a meio caminho entre o Brasil e a África, e vasculharam as ondas atrás de destroços ou sinais de vida. Seis dias depois, parte da cauda do avião e 50 corpos foram avistados na superfície, e as primeiras perguntas foram respondidas.

A compressão e a deformação dos destroços e os ferimentos dos passageiros indicaram que o malfadado Airbus estava intacto quando bateu na água. Não explodiu com alguma bomba ou relâmpago nem foi destruído pelo tempo inclemente encontrado nos últimos minutos do voo. Misteriosamente, nenhuma mensagem de socorro fora enviada pelos pilotos.

Paul-Louis Arslanian, diretor do escritório de acidentes aéreos, deu início a uma enorme investigação com o auxílio de americanos, britânicos e pessoas de outras nacionalidades. Alain Bouillard foi nomeado investigador-chefe, e um grupo de recuperação submarina chefiado por Ferrante foi criado, mas tudo dependia de a equipe de Ferrante achar os destroços em algum ponto do fundo do Atlântico.

Ferrante e sua equipe trabalharam furiosamente: examinaram ofertas de ajuda do mundo inteiro, consultaram ministros da Marinha e organizações de pesquisa na França e outras regiões, e fretaram navios adequados com equipamento de alta tecnologia. Ferrante só voltaria para casa em 29 dias.

A primeira iniciativa foi procurar sinais, ou pings, emitidos pelos sinalizadores de localização submarina do avião, já que a bateria duraria até 40 dias.Nove dias depois do acidente, uma das primeiras embarcações a explorar a área onde se encontraram destroços foi o submarino nuclear francês Émeraude. A esperança aumentou quando o sonar percebeu ruídos fracos, mas se frustrou ao constatarem que os sons eram chamados de baleias. Depois, foi a vez de dois rebocadores oceânicos holandeses, com “localizadores de ping” capazes de trabalhar a 6 mil metros de profundidade.

Mas a corrida contra o tempo foi perdida, e a busca acústica se encerrou. Não se ouviram sinais nem mais destroços foram encontrados. Quando o navio de pesquisa Pourquoi Pas? examinou a zona do acidente para fazer um mapa detalhado, até o otimismo luminoso de Ferrante começou a fraquejar.

A área em que o avião poderia estar tinha quase o tamanho do estado de Alagoas, com topografia muito acidentada. Ficava no meio da Dorsal Mesoatlântica, cadeia de picos que se erguem a quase 3 mil metros acima do fundo do mar. Um dos seus penhascos íngremes está entre as montanhas submarinas mais altas do planeta.

Além disso, a imensa pressão da água a 4 mil metros de profundidade era de 416 bars: equivalia ao peso de uma van sobre uma moeda de um real. A temperatura ficava pouco acima de zero grau, e a escuridão era total. “Seria mais fácil trabalhar no espaço sideral”, disse Ferrante. “Sem sinais acústicos”, explicou à equipe, “teremos de usar o método mais difícil”.

Em 2 de abril de 2010, dez meses depois do desaparecimento do avião, Ferrante recebeu uma mensagem do meio do Atlântico. Do convés do Seabed Worker, navio norueguês de apoio, um minissubmarino era baixado no oceano. Finalmente a busca que ele coordenava estava em andamento. O aparelho que fretara para o serviço era um submarino autônomo desenvolvido pelo Instituto Oceanográfico Woods Hole e pela marinha americana para examinar o fundo do mar à procura de objetos como minas e destroços.

Parecido com um torpedo amarelo vivo, com quase quatro metros de comprimento, fazia manobras lentas, recolhendo imagens de sonar dos dois lados. Três deles funcionavam o dia inteiro, cada um vasculhando cerca de 100 km2 por dia. Muitas vezes eram bloqueados por um penhasco submarino ou davam com um abismo, e então tinham de voltar.

Dia após dia, a tela continuava vazia, a não ser por rochedos ou lixo de navios. “Isso vai demorar, rapazes”, disse Mike Purcell, encarregado do controle dos aparelhos.

Oceanógrafos do mundo inteiro foram chamados para mapear a deriva dos destroços encontrados na superfície e, assim, localizar o ponto de impacto do avião. Com isso, Ferrante tinha esperanças de reduzir a área de busca, mas as duas investidas de três semanas não deram em nada.

Para entender melhor as correntes superficiais, um avião da marinha francesa deixou cair nove boias no ponto onde haviam sido encontrados os primeiros destroços. Rastreadas por satélite, nas correntes turbulentas próximas ao equador elas seguiram em todas as direções e demonstraram que a tecnologia mais avançada de hoje não conseguiria calcular as correntes superficiais daquela região do mundo.

Certo dia, estressado com a cobertura da mídia e com as dolorosas reuniões com parentes de vítimas, Ferrante saiu para dar uma corrida e esfriar a cabeça. Então teve uma ideia.

Decidiu examinar mais profundamente o que acontecera com outros nove aviões que caíram quando algo de repente deu errado enquanto voavam em altitude de cruzeiro. Descobriu que nenhum percorrera mais de 30 km antes de cair no mar; a maioria percorrera menos da metade dessa distância. As operações com os submarinos de busca recomeçaram em 25 de março de 2011, mas então se concentravam num círculo de 30 km em torno da última posição conhecida do avião.

No nono dia de busca, Greg Kurras, geólogo submarino baseado no Havaí, examinou os dados da última tentativa. Percebeu marcas claras que pareciam campos de detritos resultantes de uma avalanche, mas a encosta mais próxima ficava a 2 km, o que impossibilitava que as marcas fossem pedras. “Ei, gente”, disse laconicamente, tentando esconder a empolgação. “O que acham disso?”

Mike Purcell, chefe da expedição, programou o submarino para tirar fotos em alta definição do local. Quando a máquina emergiu às 10h30 da manhã seguinte, fazia o pior tempo de toda a busca. Impaciente, a equipe ficou à espera com capas de chuva, enquanto o vento uivava e a chuva os castigava. Quando o tempo melhorou, o submarino foi recuperado e seus dados, descarregados.

A sala de controle dos submarinos ficava num contêiner parafusado no convés do navio. As cortinas foram fechadas para evitar olhos curiosos, e Jean-Claude Vital, do BEA, representando Ferrante, ordenou que a Internet do navio fosse bloqueada. A equipe se amontoou ao redor do monitor.

A primeira coisa que viram foi uma bolsa de mulher, amarronzada, com fecho brilhante. Depois, viram pedaços de alumínio retorcido, peças de avião e um painel com “AF” escrito. Tudo estava bem preservado pela temperatura baixa e pela falta de oxigênio.

Não havia dúvida: era o Airbus desaparecido, 11 km a nordeste da última posição conhecida, mas ninguém se alegrou com a descoberta. “A tela também revelou corpos humanos bem conservados e, para alguns de nós, foi difícil ver aquilo”, diz Purcell.
Mas era apenas o começo. Depois de 22 meses de busca, a equipe de Ferrante localizara os destroços do acidente. Agora tinham de achar as duas caixas-pretas à prova de choque – do tamanho de caixas de sapato –, que continham os registros eletrônicos dos últimos movimentos do avião e das palavras dos pilotos. Só então a verdadeira investigação poderia ter início.

Dali a poucos dias, o lança-cabos Île de Sein flutuava sobre o local do acidente. No convés, havia uma caixa amarela com braços robóticos e câmeras em vez de olhos: o Remora 6000.

Baixado num cabo até pouco acima do leito do mar, o robô avançou lentamente sobre os destroços. Numa sala lotada, autoridades, especialistas e um policial francês estavam de olho nos monitores à procura das chamadas caixas-pretas que, na verdade, são laranja. “Parem, lá está!”, gritou alguém. Mas era apenas a maçaneta de uma porta de carga.

A esperança aumentou quando surgiu a estrutura de uma caixa de cabeça para baixo na areia, mas o tambor acolchoado com os importantíssimos módulos de memória tinha sumido. Uma busca sistemática teve mais sorte. Alain Bouillard, o chefe da investigação, ligou para Ferrante do navio. Naquele domingo ensolarado, ele estava novamente no quintal.

– Olivier, encontramos o gravador de dados. Está sendo recolhido.

No dia seguinte, o gravador de voz da cabine foi recuperado.

As caixas-pretas, encontradas a um custo de 31,6 milhões de euros, foram levadas a Paris por navio, avião e carro da polícia. No laboratório de aviônica do BEA, os aparelhos foram cuidadosamente desmontados, secados e abertos. As unidades de memória estavam em perfeito estado, apesar de terem passado 700 dias submersas. E contaram uma história dramática e espantosa.

Dois anos e dois meses depois do acidente, Jean-Paul Troadec, diretor do BEA, divulgou um relatório parcial e, na entrevista coletiva à imprensa, disse: “Sabemos o que aconteceu com o voo. O próximo passo é descobrir por quê.”
Apesar de perceber os primeiros cabelos brancos, Ferrante ficou satisfeito. “Só descobrindo essas coisas podemos tornar os voos mais seguros no futuro”, disse. 

O relatório final do BEA sobre o acidente deve sair em breve.

 

31
Gostou deste artigo?Vote!

Mais populares em Histórias...

  1. O bom filho
  2. Abdel Sellou, o retrato de um intocável
  3. Amor sem coleira

Mais Leia Aqui

Deixe um comentário

Nome*
Email*
Comentário*