70 anos de muitas emoções
Seleções. Uma ideia que ganhou o mundo.

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Década de 1950
Edição de outibro de 1953
Belo Horizonte é assim
Por: Carlos Drummond de Andrade
As cidades nascem de circunstâncias humanas e econômicas, ajustadas em lugares propícios; mas Belo Horizonte nasceu simplesmente do papel, num ato político. Por isso talvez carregasse nos primeiros tempos a fama de cidade de funcionários, e eles eram muitos no seio de uma população reduzida. Hoje, está ali o maior centro industrial de Minas, e os burocratas se diluíram na multidão de estudantes, trabalhadores de todos os ofícios e profissões, gente que vive em termos de milhões de cruzeiros, constrói residências espetaculares, nada no Iate e no Country, dança em boates, cria, produz. Em 50 anos, suas 500 casas passaram a milhares, os dez mil habitantes viraram 352.724 (censo de 1950), com emocionante vantagem de homens sobre mulheres, que são apenas 87.288 e nessas condições, se não casaram todas, é porque não quiseram.
Essa bonita e amena cidade, de bons ares e rosas trescalantes em torno do palácio do governo, que continua sendo uma edificação muito importante e respeitada, vive uma aventura curiosa. Nem bem nasceu, e tornou a nascer com outro apetite. Os que viveram nela por volta de 1920 e agora não a reconhecerão. Como a estranharia quem morasse no arraial de 1890, até então chamado Curral del-Rei, e esbarrasse de súbito nos palacetes estilo floreal, nas ruas largas e ensombradas, nos cineminhas festivos, no rebanho de casinhas tipo a e b, que era a capital em 1920. O agrupamento humano trocou de pele duas vezes. Que resta da fisionomia primitiva? É triste dizê-lo, mas os homens acabaram com a matriz setecentista da Boa Viagem e só deixaram de pé o casarão da Fazenda Velha, hoje museu. Tudo mais é novo, quando não é novíssimo, como essas girafas que alçam o colo de cimento sobre os jardins e os parques, esses arranha-céus que deixam os mineiros profundamente orgulhosos e vagamente tristes.
Como cresceu Belo Horizonte! E como perde suas graças provincianas! Onde estão as lânguidas namoradas da Praça da Liberdade, que deslizavam em ritmo sereno, ao som das musiquinhas da banda militar? São campeãs de natação, volibol e basquete, cursam a Faculdade de Filosofia, agitam-se nos escritórios. E a cidade é a moça mais bela de todas, a de músculos mais ágeis e de rosto mais alegre.
Edição de setembro de 1954
O que há de positivo na controvérsia sobre o cigarro
Até que ponto o fumo concorre para o aumento alarmante dos casos de câncer do pulmão?
Por: Lois Mattox Miller e James Monahan
Em fins de 1953 os anunciantes de cigarros norte-americanos apregoavam ruidosamente cigarros mais suaves, menos nocivos e mais puros de ingredientes irritantes do que os das marcas concorrentes. A confusão cresceu ainda mais quando surgiram novas marcas de cigarros com pontas de filtro, às quais se atribuía a vantagem de eliminarem efeitos prejudiciais do sarro e da nicotina. De repente, o tiro saiu-lhes estrondosamente pela culatra.
Cientistas, em número considerável, chegaram à conclusão de que havia realmente no cigarro algo de nocivo que deveria preocupar todos os fumantes. O fator não identificado, diziam eles, relacionava-se de certo modo com o aumento alarmante das mortes ocasionadas pelo câncer do pulmão. Os pesquisadores do Centro Memorial do Câncer e Doenças Correlatas, de Nova York, e os da Faculdade de Medicina da Universidade Washington, em São Luís, anunciaram haverem positivamente provocado câncer epidermoide em ratos simplesmente pintando o dorso dos animais com alcatrão originado da fumaça de cigarros.
Esse foi, realmente, o começo da atual controvérsia sobre o cigarro. A partir daí a questão tem sido obscurecida por contra-ataques e recriminações. O aumento do câncer do pulmão foi declarado mais aparente do que real – mero resultado de melhores processos de diagnóstico e informações sobre a doença. Foram contestados os estudos estatísticos que apontam o fumo como uma das principais causas do mal. Menosprezaram-se as experiências com o câncer dos ratos, por terem pouca relação com o câncer no pulmão humano.
Quais são os fatos?
Antes da Primeira Guerra Mundial, o câncer do pulmão era coisa rara. Depois de 1920, porém, os médicos americanos começaram a encontrá-lo com uma frequência cada vez maior e verificou-se nos Estados Unidos uma brusca ascensão no índice de mortalidade: 3.400 em 1933, 8.800 em 1942, 22.000 em 1952. No ano passado, o Dr. E. Cuyler Hammond, chefe das pesquisas estatísticas da Sociedade Americana de Cancerologia, declarou: "O mais alarmante é que o indica a continuação dessa tendência."
Será o anunciado aumento simples resultado de melhores processos de diagnóstico?
Poucas são as pessoas autorizadas que assim pensam. A Sociedade Americana de Cancerologia declara: "O que parece mais provável não é que parte de aumento nos casos de mortes atribuídas ao câncer do pulmão deva-se talvez apenas a melhores processos de diagnóstico, e sim é opinião generalizada agora de que a maior parte desse aumento seja real."
O câncer do pulmão é predominantemente epidermoide, o qual, ao contrário dos de outros tipos, parece ser influenciado por um carcinógeno (agente produtor do câncer) externo. Assim, quando os cientistas começaram a pesquisar o carcinógeno do pulmão, procuraram algum fator que estivesse sendo introduzido em proporção cada vez maior no nosso ambiente, durante os últimos 50 anos – de preferência alguma coisa inalada para os pulmões humanos.
É evidente que o próprio ar que respiramos se tem tornado dia a dia mais poluído pela fumaça, pela fuligem, pelos produtos químicos e pelos vapores de gasolina e dos óleos combustíveis. Alguns desses elementos contêm carcinógenos reconhecidos. E por isso a poluição do ar está sendo cuidadosamente estudada e é possível que se verifique representar algum papel no câncer do pulmão.
Mas a teoria da poluição do ar esbarra com um fato do qual não há por onde fugir – homens e mulheres respiram o mesmo ar poluído, mais ou menos igualmente; entretanto, o câncer do pulmão tem uma incidência pelo menos oito vezes maior entre os homens do que entre as mulheres. Assim, se a sua causa principal for alguma coisa inalada, deve ser coisa que figure diversamente nos hábitos de homens e mulheres.
A suspeita do fumo era inevitável. E quando os pesquisadores compararam as estatísticas de venda de cigarros e as estatísticas de câncer do pulmão, notaram um paralelo impressionante. Nos gráficos, a curva ascendente do câncer do pulmão apresenta notável semelhança com a curva indicativa das vendas de cigarros.
O câncer do pulmão ocorre geralmente em homens de mais de 45 anos, e há boas razões para acreditar que o seu desenvolvimento se processa num período de cerca de 20 anos. Daí deduziram os médicos uma ligação entre o aumento do consumo de cigarros de 1920 a 1930 e o aumento das mortes por câncer de pulmão entre 1940 e 1950. Se existir de fato essa relação, a expansão das vendas de cigarros entre 1940 e 1950 indica uma ascensão do índice de mortalidade entre 1960 e 1970.
E as mulheres? Estas começaram a fumar, pouco a pouco, depois de 1920, e o hábito se generalizou de 1930 em diante. Ainda hoje, há menos mulheres do que homens fumantes, e são também em menor número as mulheres que fumam excessivamente. Entretanto, o índice de mortalidade por câncer de pulmão subiu entre as mulheres na proporção do seu consumo de cigarros e continua a subir.
É verdade que isso poderia ser apenas coincidência. Mas os pesquisadores não se detiveram aí.
Na Universidade Washington, estudos publicados pela primeira vez em 1950 revelaram que, de 650 homens com câncer do pulmão, mais de 95% vinham fumando há 20 anos ou mais. Os médicos observaram: "É rara a ocorrência de carcinoma no pulmão dum homem que não fuma." E concluíram: "O uso excessivo e prolongado do fumo, principalmente de cigarros, parece ser um fator importante na provocação do carcinoma broncogênico (câncer do pulmão.)"
O relatório causou sensação nos meios médicos. Alguns profissionais se negaram sumariamente a aceitar o fumo como responsável.
Havia, porém, novas provas em elaboração. De 1948 a 1952, os Drs. Richard Doll e A. Bradford Hill entrevistaram quase 5.000 pacientes nos hospitais britânicos. Entre 1.357 homens com câncer do pulmão, todos, com exceção de sete, eram fumantes. Os Drs. Doll e Hill concluíram: "O fumo é um fator – e um fator importante – na produção do câncer do pulmão."
Foram realizados até agora 13 estudos independentes, em cinco países diversos, sobre a relação fumo-câncer. Embora varie o grau dos resultados, todos esses investigadores chegam às mesmas conclusões: o câncer do pulmão ocorre mais frequentemente entre os fumantes do que entre os não fumantes.
Apesar das opiniões dissidentes de alguns médicos (nenhum dos quais se empenhou pessoalmente em estudos sobre o problema) essa relação é reconhecida hoje pela maioria das autoridades no assunto. A Sociedade Americana de Cancerologia assume agora a posição oficial de que "as provas obtidas até ao momento justificam a suspeita de que o fumo aumenta realmente, até um grau ainda não determinado, a probabilidade de se contrair câncer do pulmão". O Ministério da Saúde da Inglaterra e o Simpósio Internacional de Câncer do Pulmão (patrocinado pela Organização Mundial de Saúde) fizeram declarações similares.
Mas se o cigarro pode provocar o câncer do pulmão, por que não contraem a doença todos os fumantes ou a sua maioria?
Foi apresentada a teoria de que todos herdam uma suscetibilidade ou uma imunidade constitucional para os agentes causadores do câncer. Diz o Dr. Charles Oberling, autoridade francesa em câncer: "É provável que muitos fumantes estejam protegidos contra o câncer das vias respiratórias por sua constituição hereditária. Isso porém não consola muito, pois quem vai saber se está ou não incluído entre esses protegidos da sorte?"
Qual será o agente específico da fumaça do cigarro que provoca o câncer do pulmão? É possível que não demore a resposta a essa importantíssima pergunta.
Os Drs. Wynder e Graham e a Dr.ª Adele Croninger provaram recentemente, de maneira incontestável, que há no sarro do fumo alguma coisa que pode causar câncer nos ratos. Para produzir esse sarro em condições tão semelhantes às do fumo absorvido pelo homem quanto possível, os cientistas elaboraram um aparelho que puxava a fumaça de 60 cigarros de uma vez. A fumaça era aspirada para condensadores de vidro. Uma vez extraído o sarro, com ele se pincelava o dorso dos ratos, depois de raspado, três vezes por semana. Ao cabo de uma média de 71 semanas, período que corresponde a cerca de metade do tempo de vida de um rato, 44% dos ratos pincelados se apresentaram com câncer – e câncer do tipo epidermoide que ocorre nos pulmões humanos.
As pessoas que argumentam que a pele do dorso de um rato é diferente do tecido do pulmão humano estão fugindo à questão. A experiência fixa o rato como animal de laboratório adequado para a pesquisa do câncer do fumo. Wynder e Graham usaram-no para provar que há realmente um carcinógeno no sarro do tabaco. A medida seguinte é utilizar os ratos para determinar que fração do sarro do fumo é o carcinógeno.
Esse trabalho está agora em andamento no Instituto de Medicina Industrial da Faculdade de Medicina Pós-Universitária da Universidade de Nova York. Aí o sarro do fumo passa por um infindável processo de fracionamento. Depois, as muitas frações devem ser provadas separadamente em ratos.
Mas por sua vez, cada fração de sarro contém um número enorme de compostos químicos. Pesquisa feita com sarro de carvão provou que alguns desses compostos – particularmente os hidrocarbonetos que se formam quando alguma substância orgânica arde a temperatura elevada – podem causar o câncer.
Formam-se hidrocarbonetos carcinogênicos num cigarro aceso? Essa é uma das grandes perguntas a que estão tentando responder na Universidade de Nova York.
No ano passado, um cientista alemão, o Dr. H. Druckrey, fez uma demonstração surpreendente, que depois foi repetida no Instituto de Pesquisas do Cancer Memorial Center, em Nova York. Baseia-se no fato de que certos compostos químicos, inclusive os hidrocarbonetos, apresentam uma fluorescência quando expostos aos raios ultravioletas.
Druckrey mandou que seus alunos acendessem um cigarro e soprassem a fumaça – sem tragá-la – num frasco de benzina retificada. O frasco foi depois exposto aos raios ultravioletas e a intensidade do brilho medida com um espectrógrafo. Por meio de análise química, Druckrey identificou mais de 50% do material fluorescente como "hidrocarbonetos altamente aromáticos".
A fase mais sensacional veio depois. Druckrey mandou então os experimentadores fumarem outro cigarro, tragando a fumaça antes de a soprarem no frasco. As medições revelaram que virtualmente todo o material fluorescente – inclusive os hidrocarbonetos suspeitos – eram retidos nos pulmões.
E concluiu que "a inalação retinha mais de 90% dos materiais fluorescentes, de modo que no curso de uma existência a árvore brônquica ficaria sistematicamente recoberta de sarro. Assim, o perigo do câncer, em consequência da fumaça do tabaco, decorre particularmente do fato de ser ela tragada".
Será possível filtrar da fumaça o sarro potencialmente perigoso? Druckrey examinou vários filtros de cigarros e confirmou, de um modo geral, as conclusões da investigação realizada o ano passado pela Associação Médica Americana. As mais eficientes ponteiras ou piteiras absorviam apenas 50% dos sarros; algumas pontas de filtros impediam a passagem de menos de 10%.
Mas que dizer das frações dos sarros possivelmente perigosas? "Os filtros examinados", anunciou Druckrey, "não oferecem proteção contra os hidrocarbonetos aromáticos." Assim, para que a filtragem venha a constituir a proteção do futuro, será preciso que as fábricas de artigos de fumantes produzam um filtro mais eficiente do que qualquer dos atuais.
Duas instituições norte-americanas estão realizando atualmente uma vasta experiência humanitária. O Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos está investigando os hábitos de fumante de mais de 80.000 veteranos da Primeira Guerra Mundial, ora incluídos na margem de idade em que é mais provável o aparecimento do câncer do pulmão. A Sociedade Americana de Cancerologia fez um levantamento do hábito de fumar entre 204.000 homens de 50 a 69 anos. Esses homens são objeto de investigações anuais. Quando morre um, verifica-se a causa da morte e, se é câncer, estuda-se, cuidadosamente, a ficha médica.
Muitos médicos predizem que esses estudos confirmarão as descobertas de pesquisas anteriores. O Dr. Hammond, da Sociedade Americana de Cancerologia, cita outros perigos possíveis: "Pode acontecer que o cigarro aumente não só a probabilidade de câncer do pulmão mas também a mortalidade por outras causas."
Tal o ponto a que chegamos. A solução definitiva deverá partir de estudos químicos, biológicos e clínicos ora em andamento.
Por enquanto, os fumantes de cigarros devem considerar os dados existentes e decidir se os prazeres psicológicos do hábito valem os possíveis perigos que ele acarreta.
Essa é uma pergunta a que cada fumante deverá responder por si.
Edição de abril de 1956
Nuvens sobre a África do Sul
Famoso repórter analisa as forças explosivas num dos países mais desventurados da atualidade
Por: John Gunther, autor de “O Drama da América Latina”, “O Drama da Europa” e outros livros
Quando, em fins de 1954, um político relativamente pouca conhecido, chamado Johannes Gerhardus Strijdom, sucedeu ao Dr. Daniel François Malan como Primeiro Ministro da União Sul-Africana, muitas pessoas perguntaram se isso não poderia significar uma mudança para melhor. Não iria o Sr. Strijdom adotar uma orientação mais moderada em matéria de política racial, de corte dos vínculos com a Inglaterra e outras questões? A resposta é a seguinte: Strijdom é ainda mais fanático do que Malan. É mais frio, mais audacioso, mais moço e mais inflexível. A diferença entre os dois é quase a que havia entre Hindenburg e Hitler.
Os sul-africanos não são nazistas, mas o governo de Strijdom se baseia, em parte ao menos, em três das mais desagradáveis características humanas: medo, fanatismo e intolerância. Fundamenta-se essencialmente no princípio da absoluta superioridade branca (isto é, na supressão de quatro quintos da população do país) e é sob alguns aspectos o mais horroroso governo que já encontrei no mundo livre.
Brancos, Pretos e Pardos: A União Sul-Africana é um Estado plenamente soberano, independente e autônomo, que faz parte da Comunidade Britânica. Mas os laços entre Londres e Pretória são em grande parte uma questão de forma e simbolismo. Existe entre muitos africânderes uma viva disposição e suprimir por completo a ligação.
Há na União 13.500.000 habitantes, dos quais cerca de 9.000.000 são africanos pretos e uns 3.000.000 são europeus brancos. Há também um pouco mais de um milhão de coloreds ou “pessoas de cor” (nome dado a um tipo especial de mulatos concentrados principalmente na Província do Cabo), 400.000 indianos e 65.000 malaios do Cabo. Em outras palavras, o homem branco está em inferioridade numérica numa proporção de menos de um para três. Os estatísticos dizem que a população européia poderá duplicar nos próximos 30 anos, mas que a população africana poderá triplicar. A biologia está do lado dos escuros.
Outra complicação: a comunidade européia está profundamente dividida entre si. Há, em números redondos, cerca de 1.800.000 africânderes, de origem bôer-holandesa, e cerca de 1.200.000 britânicos. Os dois grupos se separam não apenas pela origem e pela língua, mas também por divergências ferozmente intensas de sentimento, economia e política.
A situação atual da África do Sul é uma das mais trágicas, difíceis e perigosas do mundo. Perto de dez milhões de pessoas pretas e pardas têm os seus direitos e privilégios mais elementares negados por uma cindida minoria branca. Reduzido aos seus termos mais simples, o problema é triangular: (A) a minoria branca não pode massacrar a maioria preta, ainda que o queira. (B) a maioria preta não pode impelir a minoria branca para o mar. (C) A apartheid, que é a fórmula dos africânderes para a solução pela segregação, não pode ser executada sob pena de envenenar toda a nação. Resultado: a África do Sul é não só um país dominado por uma crise, mas também flagelado pela mais paralisante espécie de medo.
Por exemplo, em Johannesburgo, a maior cidade da África depois do Cairo e Alexandria, uma mulher não pode ir sozinha no seu carro a um jantar nos arredores, porque o perigo de assalto é muito grande. Os meninos europeus brincam em parques e playgrounds reservados para eles e raramente andam de patins nas ruas, mesmo nos melhores bairros. Os namorados não têm coragem de sentar-se nos bancos dos parques depois do escurecer. Poucas pessoas pensariam em dar um passeio a pé sozinhas. Muitos donos de casa dormem com uma arma ao lado da cama e alguns têm cães ferozes – ridgebacks da Rodésia – para guardar a casa.
O terror que empolga Johannesburgo gera o desrespeito à lei. O gerente de um banco me disse que na noite anterior “pensava” ter visto no escuro um nativo entrar no seu jardim. Que fizera ele?
– Dei-lhe um tiro, é claro. Não sei se acertei no patife ou não.
O Primeiro Ministro: Johannes Strijdom (pronuncia-se Strêidam) é um homem de estatura mediana, magro, de cabelos pretos e rosto duro e quadrado, lábios finos e olhos azuis frios e penetrantes. Sorri jovialmente quase com tanta frequência como uma ostra abre a concha. É o que se tem apontado como o tipo mais perigoso de fanático – um homem de espírito ardente e coração frio.
Tive uma longa entrevista com o Sr. Strijdom. Mostrou-se perfeitamente cortês em suas maneiras e moderado em suas palavras. Gesticulava com frequência enquanto falava e transmitia uma paixão estranhamente sombria feita de força e de confiança. Falava inglês comigo e afrikaans com seus secretários que entravam e saíam a cada instante.
Como Malan, Strijdom foi durante a Segunda Guerra Mundial partidário entusiástico do Eixo e tem um passado antissemita. Em discursos pronunciados em outros tempos referiu-se à natureza “detestável” dos “interesses anglo-judaicos” e ao “regime democrático liberal”.
Hoje, Strijdom tem, como era de esperar, duas tendências fundamentais. Em primeiro lugar, é partidário não apenas da apartheid, mas de coisa mais positiva e definitiva – a baasskap ou domínio completo dos brancos. Acredita francamente num sistema de senhores e escravos. Disse-me a seguinte frase e nunca mais me esquecerei de como a proferiu: “A associação equivale a morte lenta!” Em segundo lugar, deseja uma república, mas não acredita que isso seja provável dentro de três anos pelo menos.
Perguntei-lhe se podia explicar por que o republicanismo era um ponto tão importante do seu programa. Respondeu-me secamente que, sendo eu americano, poderia sem dúvida compreender que os Estados Unidos da América eram mais felizes como país independente do que seriam como domínio inglês. Do mesmo modo que todos os ministros nacionalistas, ele julga que o sistema da Comunidade obriga os sul-africanos a uma “lealdade dividida”, que os bons africânderes não podem aceitar.
O Sr. Strijdom e os seus homens são prisioneiros de uma ideologia que para a maior parte dos estranhos pode parecer insensata. Seria, porém, grave erro pensar em incompetência. Esta não existe. Trata-se de um governo decidido e capaz. Pensa e age como uma equipe bem treinada e pretende ficar para sempre no poder.
Esses homens são comparáveis na maior parte das qualidades individuais aos homens de qualquer governo do mundo, pois são inteligentes, enérgicos, ativos e competentes. Muito do que fazem é revoltante e, em assuntos raciais, a União é hoje uma espécie de mescla infeliz da Alemanha de 1933 com as atrasadas comunidades do Sul dos Estados Unidos há 75 anos. Mas isso não é motivo para desprezar a força que esses homens representam.
Apartheid: Os padrões sul-africanos de apartheid social, política, econômica e sentimental datam dos primeiros tempos. Mas a apartheid nunca foi posta em prática, nem mesmo nos primeiros tempos, quando os africanos eram escassos. Hoje constitui a pedra angular da política nacional.
Os padrões sociais de hoje são até certo ponto semelhantes aos do velho Sul dos Estados Unidos. (E quantas vezes brancos nacionalistas me dizem: “Qual seria a situação em sua terra se a proporção da população fosse ao contrário e houvesse 142 milhões de negros contra 16 milhões de brancos?”) Um branco sul-africano que tenha preconceitos raciais não apertará a mão de um africano ou de um indiano, nem o tratará de “senhor”. (Nas cartas é empregado um cumprimento como “Saudações”.) Os africanos em geral não podem tomar os elevadores de passageiros nos edifícios públicos. Os teatros e cinemas do centro em Johannesburgo são vedados aos pretos, do mesmo modo que a biblioteca pública. As únicas bibliotecas em que não há segregação em todo o país são a da Agência de Informações dos Estados Unidos em Johannesburgo e as das universidades da Cidade do Cabo e Witwatersrand.
Há táxis e ônibus brancos para brancos, táxis e ônibus pretos para pretos. Os indianos e os mulatos podem sentar-se no segundo andar ou nos bancos de trás dos ônibus para brancos. Os brancos que esperam o ônibus nas zonas residenciais podem abrigar-se numa espécie de quiosque. Os pretos na mesma parada ficam debaixo da chuva. Nos trens noturnos, os africanos têm os seus compartimentos próprios, não podem usar o carro-restaurante e recebem cobertores de cor especial, marcados “N.E.”, isto é, “Não Europeu”.
Os africanos são excluídos praticamente de todas as profissões especializadas, sendo crime previsto por lei o fato de um mineiro indígena deixar o emprego, faltar ou fazer greve. Com algumas exceções, os africanos não podem ter casa própria nas cidades. Muitos observadores julgam que permitir-lhes a posse de imóveis seria o melhor meio de evitar uma agitação revolucionária, porque isso lhes daria um interesse genuíno e permanente na comunidade. Mas um dos princípios mais importantes da doutrina da apartheid é impedir os africanos de firmarem o pé seja onde for.
Os únicos africanos que têm direito a voto na União são um punhado – talvez 4.000 – na Província do Cabo. E só podem votar em representantes brancos (três na Assembleia), que são encarregados de defender-lhes os interesses. Oito senadores brancos (quatro eleitos e quatro nomeados pelo governo) também representam os 9.000.000 de africanos – num parlamento de 207 membros. Entretanto, esses parlamentares brancos que representam os africanos, por mais dignos que sejam, têm pouca possibilidade de fazer qualquer coisa de concreto pelos seus eleitores. É claro que não há parlamentares africanos, indianos ou mulatos.
A instrução é uma história confusa e trágica. Devemos ter presente que a África do Sul tem escolas de missões há cerca de 200 anos. É um dos poucos países do continente que tem indígenas de segunda e terceira gerações com instrução. Cerca de 40% das crianças africanas frequentam atualmente a escola primária, percentagem bastante satisfatória para a África. Mas no setor da instrução mais elevada, foram criados recentemente obstáculos quase insuperáveis.
Os nacionalistas acham que o estudo universitário é privilégio que deve ser limitado à população branca. Em dezembro de 1953 o Dr. Malan anunciou sua intenção de excluir os africanos das universidades da Cidade do Cabo e de Witwatersrand, duas das quatro que os aceitavam. Em maio de 1955, Fort Hare, um estabelecimento de ensino superior exclusivamente para africanos, filiado à Universidade da África do Sul, foi fechado “temporariamente” quando os estudantes protestaram contra as restrições raciais. De modo que a instrução superior para africanos parece ameaçada de extinção.
No que diz respeito aos africanos comuns, as restrições mais acabrunhadoras em todo o ignominioso campo da segregação é terem de conduzir uma caderneta tipo passaporte que dá num relance a história do portador e sem o qual nenhum africano pode viver nem trabalhar numa cidade. E as leis que dispõem sobre a liberdade de movimento dos africanos são extraordinariamente complexas.
Uma das mais conhecidas e esclarecidas autoridades da União em direito nativo teve ocasião de salientar que os africanos, ainda que queiram observar escrupulosamente as leis, descobrirão que esse objetivo é literalmente impossível. Escreveu ele: “A situação legal dos africanos é tal que a polícia pode efetuar a prisão de qualquer deles e a um promotor competente não será difícil encontrar alguma transgressão de que ele possa ser acusado.”
Num destes últimos anos houve 968.593 prisões por violação da lei de salvo-conduto e 861.269 condenações. É fácil imaginar o preço de tão espantosa lei criminal para a comunidade. Mas as cadernetas de identidade são uma necessidade para a apartheid, porque são o meio principal de se exercer constante vigilância sobre os africanos.
As autoridades do governo que defendem a segregação apresentam meia dúzia de argumentos principais, que são: (1) Há pouca ou nenhuma discriminação contra os africanos nas lojas. Em outras palavras, se um preto tem dinheiro para gastar, tem inteira liberdade de fazê-lo. (2) Os salários, bem como o padrão de vida, são altos para a África. Do contrário, segundo dizem os defensores do governo, as centenas de milhares de indígenas que emigraram do Norte para a União não teriam vontade de ficar. (3) O governo faz muito pela instrução primária. Uma criança africana tem maiores probabilidades de conseguir alguns anos de escola na União do que em muitos dos países ao sul do Saara. (4) Existe de certo modo uma imprensa negra. (5) Os negros podem ingressar na polícia. (Esses polícias negros não têm, porém, permissão de carregar armas de fogo e não podem prender europeus.) (6) As condições nos territórios reservados são “boas”.
O governo gostaria que os indígenas ficassem nesses territórios como classe subserviente e isolada. Mas também quer o braço preto barato para a indústria e para as minas. Os africânderes não podem ter dois proveitos num só saco. Com o correr do tempo, será cada vez maior o número de africanos que conseguirão empregos progressivamente melhores, salvo se a indústria preferir suicidar-se. Isso significa que mais africanos terão inevitavelmente mais poder aquisitivo, o que por sua vez significará que eles exigirão mais instrução e maiores vantagens políticas.
Em outras palavras, o pleno desenvolvimento industrial só se poderá efetivar à custa de um risco incessante e crescente de conflito racial, o que quer dizer que o governo terá necessariamente de tornar-se mais e não menos repressivo e totalitário. Nenhum país de 13.500.000 habitantes tem muitas probabilidades de funcionar bem quando não se consente que 10.000.000 deles participem do seu funcionamento.
A Situação dos Ingleses: Os ingleses esperam manter-se a todo custo. Tendo nas mãos 90% do capital investido da África do Sul, dominam o comércio, os grandes negócios e as minas. Perguntei a um venerável natalense de origem inglesa se os africânderes não acabariam “absorvendo” a sua comunidade e ele me respondeu com desdém:
– Alguma vez ouviu falar dum buldogue absorvido por um mísero gato?
– Seja como for, os ingleses da África do Sul estão sendo firmemente eliminados do alto funcionalismo e se encontram em tremenda desvantagem política. Se alguém de origem inglesa ainda tem, digamos, um posto de responsabilidade nas estradas de ferro ou em algum departamento semelhante, os seus dias estão contados. Ouvi o mais destacado de todos os diretores de minas dizer melancolicamente: “De agora em diante, não haverá governo aqui que não seja ‘holandês’.”
De certo modo, a culpa é dos próprios ingleses. Estavam tão empenhados em ganhar dinheiro que deixaram cair a política nas mãos dos africânderes quase por desinteresse e agora estão pagando por isso.
A África do Sul é da maior importância para o Reino Unido nos mais altos níveis. É um bom freguês das exportações britânicas de todas as espécies e representa a sua maior fonte de ouro. O investimento inglês na União depois da Segunda Guerra Mundial é enorme, equivalendo a quase um bilhão de dólares. A União tem mais de um milhão de sul-africanos ingleses. A rota marítima em torno do Cabo dá à África do Sul considerável importância estratégica e a base naval de Simonstown é um ponto valioso do que se costumava chamar de defesa “imperial”. De quase todos os pontos de vista – econômico, político, sentimental – convém aos ingleses manter boas relações com a África do Sul.
Há vários obstáculos, entretanto, para a harmonia das relações entre o Reino Unido e a África do Sul, além do desagrado inglês pelo excesso de apartheid e do seu espanto diante do rumo totalitário que se está seguindo. O mais sério e urgente é o republicanismo. Todos os líderes nacionalistas da África do Sul desejam ardentemente a república. É essa a sua política determinada e oficial. Os ingleses naturalmente lamentariam a secessão. Não querem que o “clube” da Comunidade seja desfeito com o afastamento de qualquer país e muito menos de um tão importante quanto a África do Sul.
Existe alguma probabilidade de que se possa chegar a uma fórmula segundo a qual a União, como a Índia, se tornará uma república sem se afastar da Commonwealth. Malan e Strijdom detestam o Sr. Nehru, mas talvez tenham de agradecer-lhe por haver estabelecido um precedente que pode resolver um aspecto do problema deles.
O Futuro: Que estará reservado a esse desventurado país? Vou citar dois homens, ambos sensatos e bem informados. Um deles, médico africano, disse-me ponderadamente:
– Os nacionalistas ficarão no poder no mínimo ainda uma geração. Não creio que eu ainda alcance ver a liberdade dos africanos.
O outro, um jornalista inglês a quem eu disse que, em contraste com o africano que acabei de citar, muitas pessoas me haviam dito que o homem branco poderia considerar-se feliz se ainda ficasse 50 anos na União.
– Cinquenta anos? Quem for capaz de dizer uma coisa dessas é um incorrigível otimista – replicou ele.
Em Dacar, alguns meses depois de haver visitado a União, conheci um experimentado e severo oficial francês que não se distinguia por qualquer amor especial aos africanos. Perguntei-lhe o que pensava dos dirigentes brancos da União. Resposta:
– São o maior perigo para o homem branco que já se viu neste continente. Tornarão os africanos de toda a parte hostis aos brancos.
Não creio que a África do Sul vá explodir numa guerra civil e penso que o regime atual pode durar muito tempo – ainda que não seja senão em consequência do fato brutal de serem privadas as massas africanas sistematicamente de qualquer possibilidade de organização e progresso. Não obstante, é contrário a toda lógica pensar que uma pequena minoria de brancos poderá conservar para sempre totalmente submersa uma grande maioria de pretos.
Repetidamente ouvi africânderes e ingleses dizerem: “Temos um futuro ou somos um povo perdido? Que irá acontecer aos nossos filhos?” Na verdade, de um ponto de vista amplo, não há “problema indígena” na África do Sul. O problema é a sobrevivência dos brancos.
*Condensado de “O Drama da África”.
Edição de janeiro de 1957
Que está acontecendo ao tempo?
Por: Herbert Brean
Muito cidadão, considerando vagamente os boletins meteorológicos dos últimos anos e sua própria experiência pouco agradável, chega à conclusão de que o tempo enlouqueceu. Que foi feito dos invernos nevosos de antigamente? E que dizer dos ciclones que vêm fustigando lugares inesperados? E os furacões, as inundações descomunais as sêcas? Quanto às primaveras, como estão frias! Que estará acontecendo?
Os céticos em matéria de tempo dizem que na realidade nada está acontecendo. Os invernos são os mesmos: a única diferença é que nós impressionávamos mais com o frio e a neve quando tínhamos oito anos de idade; a neve parecia estar então mais alta. Sempre houve furações, mas durante muitas décadas as pessoas que habitavam zonas temperadas – onde o tempo é inclemente – os relegavam à categoria de tempestades violentas.
Quem está com a razão?
Por estranho que pareça, o cidadão que julga que o tempo mudou está certo. O tempo não é mais o mesmo.
A temperatura média anual do, mundo subiu cêrca de meio grau nos últimos 75 anos. Em muitas regiões, os verões se tornaram mais quentes e os invernos mais temperados. Na Islândia, na Groenlândia e em Spitzbergen, a temperatura média anual.
Uma mudança de temperatura de um grau não parece grande coisa. Na realidade, equivale a quase 160 quilômetros de latitude. Uma queda de oito graus na temperatura média anual faria regredir as zonas temperadas do mundo à Idade do Gêlo.
Uma hipótese que explica a gradual ascensão da temperatura baseia-se no aumento do bióxido de carbono introduzido na atmosfera, desde a Revolução Industrial do século XIX, em conseqüência da queima de carvão e petróleo. Juntamente com o vapor da água, o CO2 forma uma espécie de véu sôbre a Terra. A radiação de calor do Sol, que vem em ondas curtas, tem capacidade para romper êsse véu. Mas a Terra emite calor sob a forma de ondas longas, que são parcialmente bloqueadas pelo véu e assim retidas na atmosfera da Terra. Quanto mais CO2 há no ar, menor é a quantidade de calor que pode escapar.
Durante o Ano Geofísico Internacional de 1957-58, quando quase tôdas as nações farão observações meteorológicas e oceanográficas, as condições do CO2 serão cuidadosamente estudadas, uma vez que novos aumentos das temperaturas terrestres poderiam ter efeitos profundos sôbre as calotas gláciais e sôbre os níveis do mar. Êsses estudos de grande envergadura são apenas o comêço da tentativa do homem para compreender o tempo. A prova ou contestação de qualquer teoria depende do intercâmbio internacional de informações, pois o tempo não pode ser estudado separadamente.
Em certas partes do mundo, o tempo tornou-se imprevisível e violento. O número de furacões e ciclones aumentou marcadamente nos últimos 25 anos. As tempestades caprichosamente fora de época tornam-se mais numerosas. As tempestades de neve na primavera e as chuvas torrenciais que acompanham as tempestades tropicais ocasionaram em certas regiões inundações sem precedentes.
Apesar das tempestades fora de época, o tempo, na maior parte da zona temperada, está ficando mais litorâneo, ou seja, mais quente, mais suave. Essas modificações afetam a vida do homem de maneira inesperada. Os invernos com pouca neve são calamitosos para as estações de esqui. Estão circulando para o norte correntes mais quentes e mais salgadas. O gêlo do Ártico está ficando mais fino, e os portos setentrionais da Rússia ficam agora abertos durante mais tempo nos meses de inverno.
A vegetação e as matas estão subindo pelas encostas das montanhas. Pássaros de climas quentes estão aparecendo em lugares estranhos.
O leigo imagina que êsses fenômenos possam ser provocados pelas bombas atômicas, ou talvez pelo “rastro dos aviões a jacto”. Não é nada disso. O tempo já estava mudando muito antes de 1945, quando foram postas em ação as primeiras armas nucleares. As pessoas que resmungam sôbre tempestades provocadas pelas bombas atômicas, como as que atribuíam a culpa de chuvas ao canhãozinho de Napoleão, não têm idéia das tremendas fôrças que são responsáveis pelo tempo. Uma chuva com trovoada despende a fôrça de uma bomba atômica de três em três minutos. Um furacão despende a energia de duas bombas atômicas em cada segundo de sua existência.
O rastro do jacto também não tem qualquer reação com as mudanças de tempo. Esse “rio de ar de 500 km/h” que “circula em volta do mundo” é na realidade um vento esporádico, de grande altitude, que raramente viaja com velocidade. e que cessa inteiramente durante dias a fio.
Os meteorologistas dizem que as mudanças de tempo nos Estados Unidos são o produto final de movimentos atmosféricos de âmbito mundial, de pólo a pólo. Muitos movimentos atmosféricos decorrem de regiões oceânicas de alta pressão relativamente estáveis, conhecidas como anticiclones, porque os seus ventos giram no sentido dos ponteiros do relógio. (Os ciclones no hemisfério norte giram em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio.) O anticiclone do Atlântico se estende mais ou menos do leste da Flórida até à extremidade noroeste da África. O anticiclone do Pacífico tem o seu núcleo cerca de 1.500 quilômetros ao largo da Carolina do Norte.
Nos últimos anos, o anticiclone do Atlântico aumentou de fôrça e caminhou para o norte, o que explica ‘0 motivo por que os furacões têm alcançado os Estados Unidos litoral acima.
No Pacífico, girando também no sentido dos ponteiros do relógio, ele força os ventos a soprarem para a costa ocidental dos Estados Unidos, partindo do noroeste e do norte, o que causa maior circulação do ar dos pólos e conseqüentemente temperaturas anuais mais baixas.
Deve-se em grande parte à meteorologia moderna ter sido possível descobrir-se tanta coisa sôbre as fôrças que controlam o tempo. Ciência: com apenas 100 anos de existência, precisou fundamentar-se partindo de da?os precários e muitas vêzes falíveis.
Mesmo hoje, os meteorologistas precisam ponderar suas verificações para determinar se estão apurando verdadeiras tendências do tempo, ou apenas dados estatísticos. Graças aos seus esforços, temos uma idéia bastante razoável do sentido em que se vai orientando o tempo, embora não se saiba ainda a razão.
Uma das teorias é que as alterações climatéricas são causadas principalmente pelas erupções vulcânicas. Essa concepção se baseia em que as grandes erupções vulcânicas atiram para muito alto milhões de toneladas de finas partículas, que ficam suspensas na atmosfera de um a três anos, criando um pálio entre a Terra e o Sol. Assim escudada, reza a teoria, a Terra vai esfriando. Quando as partículas finalmente assentam, a Terra se aquece de novo.
A comparação entre as datas das grandes erupções e o que de mais antigo se conhece em matéria de registro do tempo, revela um alto grau de correlação entre as perturbações vulcânicas e os períodos frios. É particularmente interessante a relação entre as erupções e certos anos tradicionalmente frios, como o período de 1783-85, e principalmente 1816, o famoso “ano sem verão”. Em 1873, o Asama, no Japão, destruiu 50 aldeias, em uma das mais terríveis erupções vulcânicas da história e 1815 foi a data da erupção do vulcão Tambora, na Indonésia, que matou 56.000 pessoas e espalhou cinzas e escuridão sôbre uma área de 500 quilômetros, durante três dias.
As últimas erupções de importância no hemisfério setentrional ocorreram em Katmai, no Alasca, em 1912. A teoria vulcânica recebeu assim uma certa confirmação nos últimos tempos já que seria de supor que a cessação de atividades vulcânica fôsse seguida de temperaturas mais elevadas. O consenso das opiniões científicas é que a explicação baseada nos vulcões justifica em parte as modificações do tempo, mas apenas em parte.
Segundo o Dr. Hurd C. Willett, do Instituto Tecnológico de Massachusetts, as alterações climatéricas, principalmente as mudanças de temperatura, são causadas pelas manchas solares. Willett tem confrontado as atividades das manchas solares com as variações do tempo e sustenta que as duas coisas parecem seguir um ciclo de 80 a 90 anos.
Durante um período de 40 a 50 anos, grandes atividades da superfície do Sol (explosões e tempestades de fogo que varrem a face do Sol) são de certo modo associadas com tempo mais quente na Terra. Isso é seguido de 40 a 45 anos de atividades solares moderadas e tempo correspondentemente mais frio sôbre a Terra.
Willett acredita que acabamos de encerrar um ciclo e que estamos agora a caminho de um período de 50 anos de invernos muito rigorosos e com muita neve. Mas, enquanto a maioria de seus colegas concorda que as tempestades solares devem afetar de certo modo o nosso clima, poucos acreditam que sejam elas a principal fôrça climatérica, ou que possamos esperar meio século de tempo mais frio.
Enquanto isso, a maioria dos técnicos acredita que o calor irá aumentando, embora não haja probabilidades imediatas de a Sibéria transformarse em estação de veraneio. Dentro de 100 anos, ou talvez 500, é possível que se fixe um ciclo indiscutível, ou que novos dados estabeleçam novas interpretações. O homem poderá então saber o que controla a tênue e delicada película vitalizadora de ar que envolve o seu planeta.
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