A sós

O australiano Andrew McAuley partiu em uma viagem. A meta: remar até a Nova Zelândia.

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Em 11 de janeiro de 2007, o premiado aventureiro Andrew McAuley se despediu emocionado da mulher, Vicki, e do filho pequeno, partindo para uma viagem épica. A meta: remar 1.600 km pelo Mar da Tasmânia, sozinho num caiaque marítimo, da Austrália até a Nova Zelândia. Usando trechos de textos e do diário em vídeo de Andrew, Vicki revela um homem nascido para forçar os limites e conta a história dos seus 30 dias no mar.
 
A brisa sopra do oeste. Uma lasca da luz do sol é filtrada pelas nuvens. A história acontece diante de nós. Um homem está prestes a atravessar sozinho o Mar da Tasmânia. Vai partir da Tasmânia na direção do Fiorde de Milford, na Nova Zelândia. A distância: uns 1.600 km. A embarcação: um caiaque.
 
Uma vida de aventuras levou a isso, ao supremo desafio para esse homem de 39 anos. Duas câmeras de vídeo em estojos à prova d’água, montadas no convés, registram a viagem. Ele enfia no colete salva-vidas a sacolinha impermeável com o controle remoto das câmeras. Aperta a tecla Record, respira fundo, se vira e acena. “Até a vista, linda.” A voz trai a emoção quando ele lança o último olhar saudoso para a mulher e o filhinho, que acenam da margem em despedida. Enfia o remo na água, num movimento amplo para virar a proa, manobrando com dificuldade a embarcação muito carregada, e sai sob um coro de gritos de alegria da pequena multidão. A cada remada, as lágrimas correm.
 
Anos antes, Andrew McAuley sonhara com um caiaque marítimo em alto-mar e algumas perguntas difíceis: Que distância se pode percorrer em segurança num caiaque? Quanto um homem consegue suportar, em termos físicos, emocionais e psicológicos?
 
Agora era a hora das respostas. Vencido pela emoção, Andrew chora incontrolavelmente. A água se lança do remo a cada impulso trabalhoso. Ele se vira e acena de volta para a margem, chorando mais alto com o som de “Até a vista, papai, amo você!” a sumir na distância.
 
“Meu Deus”, diz Andrew para a câmera, “permita que eu termine inteiro.”
Ele se vira para acenar outra vez.
 
Outra torrente de lágrimas o inunda. A voz fica fraca, quase assustada...
 
“Estou mesmo com medo de nunca mais ver a minha mulher e o meu garotinho. Estou muito assustado... muito assustado. Tenho um filho que precisa de pai... uma mulher que precisa de marido, e fico me perguntando o que estou fazendo aqui.
 
E não sei a resposta.
 
Todos me perguntam por quê, e digo que adoro aventuras. Disso não há dúvida. Mas... não vale a pena se a gente morre... E este é um oceano grande e perigoso... e agora tudo o que quero... é voltar inteiro.Será que eu não devia dar meia-volta e retornar à praia? Será? Talvez seja o mais sensato. Mas acho que não sou famoso por só fazer coisas sensatas. Então, em vez de voltar, vou continuar, vou remar para leste até chegar à Nova Zelândia.”
 
Os remos batiam ritmicamente na água, e esta se chocava em ondas leves contra o casco.
 
“Parte de mim diz que o medo é um pouco ilógico, porque, sabe, é só água. O oceano é só água. O caiaque não vai afundar. Sei que consigo. Sei que consigo. Mas aí a realidade bate.
Na verdade, o oceano é um lugar grande e assustador. E pode ficar zangadíssimo. E vai ficar zangadíssimo... O oceano é quem manda. Disso não há dúvida. Tenho muito respeito por ele.”
 

Lá atrás, a terra firme recua. Nuvens cinzentas de mau agouro cobrem o céu. Só faltam 1.600 km.

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