A história de Daniela García

Depois de sofrer um acidente terrível, esta jovem de 27 anos decidiu viver. “Esta é uma história feliz”, diz ela.
 

Ela anda com confiança,
mancando de leve, pelos corredores do Instituto de Reabilitação Infantil de Santiago, no Chile. Os pais que ali estão para as consultas médicas e a terapia dos filhos com necessidades especiais sorriem agradecidos para a jovem médica, principalmente ao verem suas mãos. Alguns chegam a apontar e cochichar: “Olhe! É Daniela García!”

Nessa cidade de 6 milhões de habitantes, e também no restante do país, Daniela, 27 anos, é bem conhecida. É a autora do best seller
de não ficção Elegí vivir
(Escolhi viver). Tendo vendido mais de 60 mil exemplares até agora, nenhum livro de não ficção superou essa marca no Chile. Em 2006 e 2007, Daniela foi considerada uma das Mulheres do Ano do Chile, e, em 2005, uma das dez pessoas mais influentes do país.

Celebridade relutante, ela não se sente à vontade com a atenção invasiva dos meios de comunicação. Prefere que os estranhos que a reconhecem não tentem abraçá-la nem beijá-la na rua. Não quer ficar conhecida apenas como “a moça que sofreu aquele acidente terrível”. Nem quer que descrevam como tragédia o que lhe aconteceu. “Esta é uma história feliz”, diz ela.

Quando os jovens pacientes, muitos com deficiências graves ou doenças como distrofia muscular, a fitam com curiosidade, ela não se incomoda. Sabe que a doença deles fará com que também venham a ter de encontrar sua própria versão de coragem e resistência com o desenrolar da vida. E não se incomoda quando lhe perguntam, com a franqueza sincera das crianças: “Por que você manca? Por que tem ganchos em vez de mãos?”

“Gosto disso”, diz Daniela. “Cria um laço entre nós.”

Até 30 de outubro de
2002, Daniela García tinha a vida confortável e quase sem problemas de uma moça da classe alta instruída do Chile. O pai, Cristián García, era radiologista pediátrico e professor da faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Chile. A mãe, Leonor Palomer, era dentista e interrompera a carreira para criar os gêmeos Daniela e Cristián, e mais três filhos menores. Inteligente, atlética e animada, Daniela cresceu no ambiente amoroso da família García.

Excelente aluna, com ótimas notas e amante da Biologia, Daniela entrou na escola de Medicina da PUC, uma das mais antigas e prestigiadas universidades do Chile e, das 16 escolas de Medicina do país, a mais exigente na aceitação de alunos novos. A formação médica geral chilena leva sete anos, e a especialização exige ainda mais três.

Na última semana de outubro de 2002, Daniela, então com 22 anos, estava no último mês do 4º ano, e tinha um namorado firme, Ricardo Strube, rapaz bonito e atlético que cursava Administração em outra universidade. Os dois namoravam havia quatro anos, amavam a vida ao ar livre e passavam o tempo de lazer andando de bicicleta e praticando esportes juntos.

Os dias quentes de verão se aproximavam, e as provas finais estavam prestes a começar. Era também a época dos Jogos Escolares Intermédicos, tradição anual da qual participavam quase todos os estudantes de Medicina do país. Cada faculdade desejava obter mais troféus, e os alunos eram estimulados pelo corpo docente, que queria o prestígio de ter o maior número de vitórias.

A cada ano, cerca de 1.500 estudantes participavam de quatro dias de competições de vôlei, basquete, natação, tênis e futebol. Naquele ano, a sede era Temuco, cidade de 260 mil habitantes, 670 quilômetros ao sul de Santiago.

Daniela não sabia ao certo se queria ir. Estava preocupada com a prova de Dermatologia que se aproximava; uma de suas melhores amigas não ia, e a viagem até Temuco era cara e levava mais de nove horas no trem noturno. Além disso, sentia uma apreensão atípica, estranha e persistente em relação à viagem.

Durante dias os colegas de classe insistiram com ela para que fosse; precisavam de seu talento no futebol. Finalmente Daniela cedeu, sabendo que, para ela, o esporte era uma das melhores maneiras de aliviar a ansiedade e o estresse. Mas, quando chegou à estação ferroviária central naquela noite de quarta-feira, a apreensão só aumentou. Para acomodar as centenas de alunos que seguiam para Temuco, o sistema ferroviário estatal do país pusera trens extras, trazendo vagões antigos de volta à linha. Daniela não gostou do aspecto deles: janelas sujas, tinta descascada e lâmpadas queimadas e quebradas. Relaxe,
disse a si mesma. A viagem ferroviária é segura.

Quando o trem começou a seguir para o Sul, os estudantes pegaram os violões e começaram a cantar e dançar nos vagões. “Dance conosco”, chamaram os amigos. Mas, embora adorasse dançar, naquela noite Daniela não estava com vontade. Sentou-se em seu lugar e tentou apreciar a paisagem pelas janelas sujas na noite que caía. Por volta das 22 horas, pouco mais de uma hora após o início da viagem, dois amigos a chamaram para ir até os outros vagões ver se conheciam mais alguém a bordo.

O trem passava pela cidade industrial de Rancágua. Ao atravessar de um vagão para outro, um dos amigos ficou na frente dela e o outro, atrás. As luzes de cima estavam queimadas e era difícil enxergar. Sem que Daniela soubesse, a placa que costuma cobrir o espaço entre os vagões não tinha sido colocada. O amigo Diego, alto, de pernas compridas, passou facilmente pela abertura, mas, assim que a miúda Daniela o seguiu, no escuro, o trem fez uma grande curva e o buraco se abriu.

Daniela deu um passo e, de repente, se sentiu caindo no ar. Para os amigos, num minuto Daniela estava com eles e, no minuto seguinte, sumira.

Um passageiro que fumava na lateral do vagão gritou: “Ei, aquela moça acabou de cair!”

Daniela sentiu que estava
sendo puxada de um lado para outro. Então, como se acordasse de um sonho desorientador, viu-se deitada no meio dos trilhos, na noite escura.

Não sentia dor, mas havia cabelo e algo quente e grudento em seu rosto – o sangue de um pequeno corte acima do olho esquerdo. Ela ergueu a mão esquerda para tirar o cabelo dos olhos. Nada aconteceu. Tentou de novo e foi como se o braço só abanasse o ar. Perplexa, ergueu a cabeça para olhar. O que viu provocou-lhe um choque de horror: tinha perdido a mão. A partir da metade do antebraço, o resto do braço esquerdo e a mão tinham sumido.

Então ela olhou o outro braço e o horror aumentou: o antebraço e a mão direita também tinham sido cortados. Ela sangrava profusamente pelas feridas abertas dos dois braços amputados. Tentou se mexer, e, pela primeira vez, uma onda de dor percorreu-lhe o corpo.

Daniela não gosta de lembrar o que viu depois. A perna esquerda fora amputada entre o quadril e o joelho; a direita sumira do joelho para baixo. O horror de perceber que perdera quatro membros foi quase insuportável. Como aluna de Medicina, sabia que não podia entrar em pânico. E que a hemorragia devia ser imensa.

Percebeu que outro trem
poderia passar a qualquer minuto. Tinha de sair dos trilhos e arranjar ajuda depressa, senão morreria. Estava caída num ponto em que os trilhos da ferrovia faziam uma curva acentuada. De um lado havia uma sebe alta; do outro, o campo de uma fazenda, com uma casinha. A distância, viu uma luz, que parecia ser um posto de gasolina na autoestrada. Talvez conseguisse se arrastar até lá.

De algum modo, apesar dos ferimentos graves e da dor, ela conseguiu erguer as costas e se arrastar para fora dos trilhos. Ficou deitada no espaço entre a linha que ia para o Sul e a que ia para o Norte. Mas não conseguiu mais se mover. Começou a gritar: “Socorro! Socorro! Me ajudem!”

Por sorte, naquele momento, um trabalhador rural chamado Ricardo Morales fumava um cigarro no ar quente da noite enquanto passeava pelos trilhos, como era seu costume fazer à noite antes de entrar em casa, onde a mulher não o deixava fumar. Ele caminhava ao lado dos trilhos quando o trem lotado de estudantes passou num estrondo. Deu para ouvi-los cantando. Dali a alguns minutos, escutou Daniela pedir socorro. Correu até ela. “Não se mexa, vou buscar ajuda”, disse o espantado Morales, e correu até o telefone público do posto de gasolina.

Ao ver Morales e ouvir sua voz, Daniela sentiu a primeira onda de esperança. Mas, quando ele saiu correndo e ela ficou aguardando a chegada do auxílio, sentiu a esperança se esvair. Não posso perder a fé,
disse a si mesma.

Quando o Serviço de
Emergência de Rancágua recebeu o telefonema, despachou imediatamente uma equipe de quatro integrantes numa ambulância. O paramédico Victor Solis não tinha muita esperança de encontrar Daniela viva. Mas só foram necessários quatro minutos para chegarem ao ponto onde viram Morales agitando os braços, entre o posto de gasolina e os trilhos da ferrovia. Agarrando a maleta, Solis seguiu Morales pelo caminho entre os trilhos, enquanto seu colega, o também paramédico Patricio Herrera, tirava mais equipamento da ambulância.

Uma matilha de cães selvagens uivava ameaçadora perto de Daniela. Solis berrou e balançou os braços para enxotá-los, enquanto corria até ela, que gemia. Apesar da imensa perda de sangue, Daniela ainda estava lúcida. E, para espanto dele, começou a dizer seu nome, o nome dos pais, o número do telefone deles e dos tios, que também eram médicos. Ele nunca tivera um paciente tão lúcido depois de acidente de tamanha gravidade e com tanta perda de sangue. “Pare! Fique quieta. Mantenha a calma”, disse, ao se ajoelhar perto dela. Herrera e os outros vieram correndo pelos trilhos com a maca e os equipamentos.

– Ela está morta? – gritou Herrera ao parceiro.

Estou morta?,
perguntou-se Daniela. Talvez esteja. Mas não, não é possível.

– Não estou morta! – gritou, surpreendendo Herrera com a força da sua voz.

A equipe trabalhou depressa, estancando o fluxo de sangue com torniquetes nos membros, inserindo o soro, colocando em Daniela o protetor de pescoço e deitando-a na maca. Mas, de repente, ouviram um estrondo e sentiram os trilhos vibrarem: vinha outro trem. Viram o farol da locomotiva iluminando os trilhos como raios de prata. Não era seguro ficar ao lado dela, mas não havia tempo de erguê-la e levá-la.

– Está vindo um trem! – disse Solis. – Temos de nos afastar, mas voltamos.

– Não me deixem aqui! – gritou Daniela, quando a equipe da ambulância saiu correndo bem na hora. Ela sentiu o tremor e a lufada de vento do trem quase sobre seu corpo. Para Solis, de pé do outro lado, sem ver Daniela, o comprido trem parecia não acabar nunca. Mas, assim que passou, correram de volta, aliviados ao descobrir que, embora o deslocamento de ar tivesse movido um pouco Daniela, ela sobrevivera.

Onze minutos depois de chegar ao ponto onde a puseram na ambulância e saíram correndo por Rancágua, Daniela continuava a dizer nomes e telefones de parentes e amigos. Em minutos, chegaram ao hospital. A todos os que via, Daniela perguntava: “Vou ficar bem?”

Na sala de emergência, fez a pergunta de novo, mas o olhar espantado das enfermeiras, que se ocupavam em torno dela sem responder, a encheu de medo. Logo foi levada às pressas para ser submetida à cirurgia dos membros. No elevador, um médico de barba e olhos gentis já estava ao lado da maca.

– Vou ficar bem? – perguntou ela mais uma vez, examinando-lhe o rosto.

Ele aceitou o olhar e sorriu para ela, dizendo com voz tranquilizadora:

– Você vai ficar ótima.

Pela primeira vez desde o acidente, Daniela finalmente conseguiu relaxar. Fiz tudo o que podia, agora está nas mãos deles,
pensou. No momento, só queria descansar. E fechou os olhos.

Em pouco tempo, com a ajuda de analgésicos e da anestesia geral, caiu em total inconsciência, e os médicos começaram a limpar e fechar os ferimentos.

O telefonema do Hospital
de Rancágua para a casa da família García foi dado logo depois das 11 da noite. O irmão gêmeo de Daniela atendeu, e a mãe o ouviu chorando ao telefone. O pai estava fora, fazendo o plantão mensal voluntário numa clínica móvel para os sem-teto quando Leonor ligou para ele. O hospital não deu muitos detalhes, mas disse que deviam ir o mais depressa possível, que os ferimentos de Daniela eram graves. Amigos da família levaram o angustiado casal na viagem de uma hora de carro até Rancágua.

Enquanto isso, Ricardo, namorado de Daniela, recebeu um telefonema de amigos que estavam no trem. Contaram-lhe que, quando Daniela desapareceu, alguns tentaram parar o trem, mas a tripulação não acreditou que alguém pudesse ter caído. Um parente o levou até o hospital, onde se uniu à família e passou a noite andando pelos corredores, de um lado para outro.

A amputação feita pelas rodas esmagadoras do trem tornou impossível reimplantar os membros de Daniela. Mas, durante as três horas da operação, os cirurgiões fizeram tudo o que podiam para limpar e estabilizar as feridas, a fim de aumentar a probabilidade de cicatrização. Depois, Daniela ficou em coma induzido durante dois dias, antes de ser transferida para Santiago. Quando acordou na UTI, viu o rosto de Ricardo.

– Você me ajuda a me recuperar?

– Ajudo – disse ele, mas intimamente se perguntava se conseguiria.

Daniela passou seis
semanas no hospital, com Ricardo, a família e os amigos visitando-a diariamente. A parte mais difícil da cura foi lidar com a dor fantasma e as sensações nos membros cortados. Era como se os circuitos do cérebro e do sistema nervoso, tentando entender os quatro membros perdidos, tivessem enlouquecido. Certas vezes, era como se os pés e as mãos inexistentes estivessem em chamas; em outras, era como se ela tivesse enfiado o dedo numa tomada ou fosse espetada por pregos. Os remédios pouco ou nada faziam para aliviar a dor fantasma. Finalmente, com meditação e reiki, uma terapia japonesa que visa a manipular os campos de energia do corpo, Daniela aprendeu a reduzir e controlar as reações nervosas durante a maior parte do tempo, mas, quando fica cansada, a dor fantasma ainda ressurge.

Enquanto isso, o pai procurou o melhor lugar para equipar Daniela com próteses e fazer a longa reabilitação de que precisaria. Decidiu-se pelo famoso Instituto Moss de Reabilitação da Universidade Albert Einstein, perto de Filadélfia, Pensilvânia, nos Estados Unidos. Daniela chegou num sábado de fevereiro para ficar seis semanas. Todo dia, das nove da manhã às quatro da tarde, assistida por uma equipe de médicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e protéticos especializados, trabalhava para aprender a andar, vestir-se, alimentar-se e realizar outras atividades da vida cotidiana com membros artificiais.

Daniela desenvolveu uma ligação especial com o chefe da unidade, o Dr. Alberto Esquenazi. Ele não só falava espanhol como, numa explosão do laboratório da universidade, perdera a mão direita. Em seu lugar, havia um gancho prateado que ele usava sem embaraço. Isso deu esperanças a Daniela. Conhecer Esquenazi e trabalhar com ele fez Daniela ficar mais decidida do que nunca a voltar à escola de Medicina.

Quatro dias após chegar e dois depois de ser medida pela equipe de protéticos, Daniela viu o seu primeiro conjunto de pernas artificiais. Para ela, as formas esculpidas de plástico e metal eram os objetos mais lindos que já vira. Quando uma das pernas foi ajustada e a fisioterapeuta María Lucas a ajudou a ficar na posição ereta, Daniela sentiu uma onda de alegria. Pela primeira vez desde o acidente, conseguiu olhar outra pessoa nos olhos. Daniela derramou lágrimas de felicidade, e a terapeuta e os parentes que presenciavam dividiram com ela as lágrimas e a alegria. María Lucas não conseguiu esquecer a força, o equilíbrio e a determinação daquela moça atlética. Era um bom presságio para a recuperação.

Para Daniela, embora os momentos nos trilhos tenham sido os piores da sua vida, junto de cada marco da recuperação vieram, paradoxalmente, as sensações de felicidade mais fortes que já vivera, o êxtase puro de ficar em pé, de andar, de aprender a usar as próteses de mão para segurar a caneta ou pegar um objeto. Ela comentou com a mãe como era estranho que algo tão ruim pudesse trazer tanta coisa boa, como a partir da tristeza foi possível vivenciar tanta alegria.

Seu progresso foi notável, e rapidamente ela passou a dominar a técnica de usar os músculos das costas, presos a cabos, para abrir e fechar os ganchos das mãos. Logo segurava e movia objetos. Ficou tão hábil que conseguiu aplicar maquiagem nos olhos, tricotar e até catar coisas minúsculas, como um fio de cabelo na perna da calça.

Ainda assim, a equipe do Instituto Moss não conseguia deixar de temer que Daniela desmoronasse. Ela era quase positiva demais. O Dr. Esquenazi costuma cuidar de amputados que, de tão decididos a voltar à vida normal e de tão otimistas com a nova tecnologia de substituição dos membros perdidos, acabam se deprimindo quando encaram a realidade da vida.

Daniela também se sentia assim, achando que conseguiria voltar ao normal imediatamente depois do acidente. No Instituto Moss, ela percebeu que nada voltaria a ser como antes, e às vezes as lágrimas vinham com a aceitação da realidade.

O Dr. Esquenazi lhe disse: “Você sempre sentirá falta das mãos. Nada do que façamos aqui será igual ao que você perdeu. Mas a opção é sua. Você pode se esconder num canto e não sair nunca mais ou enfrentar e aprender a fazer o melhor possível com o que tem.”

Daniela sabia que ele estava certo; assim, apesar dos momentos de tristeza, pôs toda a sua energia na fisioterapia e se agarrou às palavras do Dr. Esquenazi: “A sua vida será o que você fizer dela.”

Depois de seis semanas
no Instituto Moss, Daniela pegou o avião com a família para voltar a Santiago. Ricardo a esperava no aeroporto. A primeira coisa que viu quando a namorada andou em sua direção com as novas próteses foi o sorriso imenso e luminoso, típico de Daniela. Após reencontro tão alegre, a dúvida que sentia quanto à capacidade de ficar ao lado dela praticamente se desfez.

Alguns meses depois, Daniela voltou ao Instituto Moss para reajustar a prótese e reaprender a dirigir. Foi um momento de pura alegria quando dominou o equilíbrio traiçoeiro de andar de bicicleta com os membros artificiais: poderia voltar a praticar com Ricardo essa atividade de que tanto gostava.

Quase um ano depois do acidente, ela voltou à escola de Medicina, decidida a não receber tratamento especial e a formar-se ou desistir por seus próprios méritos. Seria médica de reabilitação, como Esquenazi. Com dedicação e concentração renovadas, teve notas mais altas do que nunca e acabou se tornando a primeira médica do mundo com amputação dos quatro membros.

Em novembro de 2003, em casa, ela, Ricardo e alguns amigos viam pela televisão uma maratona de coleta de fundos para caridade. “Vamos até lá”, disse ela de repente. Então, foram até o Estádio Nacional, no centro de Santiago, onde 100 mil pessoas tinham se reunido para assistir ao espetáculo. Mais uns 3 milhões assistiam pela TV. Faltava uma hora para terminar o evento, e ainda não fora atingida a meta de coleta de recursos prevista.

Daniela e Ricardo foram até os guardas de segurança na entrada do palco. “Sou Daniela García”, ela se apresentou. Os noticiários do ano anterior tinham contado em detalhes o acidente e o processo contra a empresa ferroviária, decidido a favor de Daniela antes de chegar ao tribunal, mas ela nunca fora entrevistada. Os guardas a deixaram entrar no palco.

Em seguida, com Ricardo a lhe segurar o braço, e de bengala na mão, uma Daniela nervosa, mas luzindo de beleza e segurança, cruzou a ampla plataforma para falar ao vivo com o famoso apresentador chileno Don Francisco. A multidão enlouqueceu. Homens e mulheres enxugaram as lágrimas quando Daniela e Ricardo se uniram ao apresentador e ao público para cantar a música-tema do programa. As doações por telefone explodiram.

No dia seguinte, os jornais declararam que o sucesso da arrecadação do programa se devera ao comparecimento de Daniela no último minuto. Os meios de comunicação cercaram-na em casa e na escola e seguiram seu carro, querendo sua história contada na primeira pessoa. Daniela odiou estar na mira dos paparazzi.
Queria, sim, contar sua história, mas do seu jeito. Embora não fosse escritora, decidiu que ela mesma a escreveria.

Aos poucos, redigindo pequenos trechos à noite e no tempo livre, detalhou o acidente e a reabilitação, digitando vagarosamente, no computador. Deixou o original de lado por um bom tempo quando as exigências da escola de Medicina se intensificaram. Mas certa manhã acordou com a compulsão de terminar o livro. Não sabia se conseguiria publicá-lo, mas queria tentar. Ficou espantada quando a famosa editora Random House o aceitou.

O primeiro livro a sair da gráfica, ela o deu a Ricardo. A primeira tiragem de Elegí vivir
se esgotou logo. Daniela não fazia ideia de que tantas pessoas queriam lê-lo. Em 2008, estava na 14ª edição. Ela era um nome nacional e um sucesso literário.

Pessoas de todo o Chile enviavam cartas a Daniela, contando-lhe como sua história as inspirara e lhes dera coragem para enfrentar os desafios, para extrair da vida o máximo apesar de tudo o que acontecesse, para procurar a felicidade. Daniela guarda todas as cartas num baú especial que ela chama de seu “baú da felicidade”.

“Escrevi o livro porque para mim foi terapêutico. Ele me ajudou a melhorar. Não sabia que ajudaria tanta gente, e isso é muito especial para mim.”

Agora, Daniela acha que há pouca coisa que não consiga fazer. Por exemplo, prender o cabelo num rabo de cavalo sozinha é impossível, mas ela deu um jeito de se adaptar a tudo o mais. O volante adaptado especialmente permite que ela dirija sua picape. Ela adora pedalar, sozinha ou com Ricardo, na bicicleta dupla. Também adora cozinhar e inventar as próprias receitas. Consegue até “sentir” com os ganchos, ao tatear um nódulo sob a pele quando examina um paciente.

“É uma sensação diferente. Não é tato de verdade, mas tenho uma percepção, uma consciência. Os seres humanos são capazes de compensar, e o cérebro aprende a interpretar as informações. Não sei explicar, mas realmente sinto com os meus ganchos.”

Sua relação com Ricardo se fortaleceu. Em março de 2007, depois que o casal fez uma viagem à Europa, Ricardo a pediu em casamento. Havia meses que planejava isso.

“Quando o acidente aconteceu eu não sabia até que ponto isso nos afetaria, como ficaria nosso relacionamento. Se ela ficasse sempre chorando o que perdera, eu não sei se aguentaria. Mas Daniela não é assim. Não deixou o acidente limitá-la. E então eu soube que queria passar o resto da vida com ela.”

Em setembro de 2007, diante de 300 parentes e amigos, o casal disse sim e depois dançou a noite toda. Hoje é comum serem vistos passeando na bicicleta dupla nos parques de Santiago ou participando de ralis no campo. Planejam em breve começar uma família.

As metas de Daniela são as mesmas de antes do acidente: ser uma ótima médica de reabilitação, tanto no conhecimento médico quanto na relação com os pacientes, ajudá-los a superar traumas e feridas e readaptar-se a uma vida integral, ser uma esposa amorosa e, um dia, mãe. O mais importante é que quer se concentrar não no que perdeu, mas na vida como um dom maravilhoso, cheio de felicidade, recordando sempre as palavras que o Dr. Esquenazi lhe disse quando se conheceram: “A sua vida será o que você fizer dela.”

A fisioterapeuta María Lucas resume o impacto que Daniela causa nas pessoas que encontra: “Eu já tive muitos pacientes, e tentamos ensiná-los a se reintegrar ao mundo. Mas Daniela nos ensina todo dia a viver.”

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