Abrace suas preocupações

Novos estudos surpreendentes revelam por que devemos aceitar os benefícios de curtos períodos de estresse.  
 
O segredo para maximizar os benefícios do estresse: doses regulares de estresse agudo e períodos sem estresse.

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LÁ ESTÁ VOCÊ, preso no trânsito. Uma olhada no relógio lhe diz que vai se atrasar para aquela grande reunião. Dá para sentir a pressão subindo e ouvir os batimentos cardíacos tamborilando nos ouvidos. Então você se lembra do que leu sobre os perigos do estresse, que pode enrijecer artérias, matar neurônios, provocar tumores. Pronto: agora você se estressa com o próprio estresse.

 

Se isso lhe parece familiar, você não é o único. De acordo com uma pesquisa de 2013, o nível médio de estresse dos adultos americanos é de 5,1 numa escala de 10, ou seja, um ponto e meio acima do que os entrevistados consideravam saudável. Dois terços disseram que administrar o estresse é importante, e quase a mesma proporção tentou reduzir o estresse nos últimos cinco anos. Mas só pouco mais de um terço dos entrevistados afirmou ter conseguido.

 

No Brasil, segundo um estudo da International Stress Management Association realizado no início desta década, não estamos muito bem nessa área: o Brasil ficou como segundo país mais estressado no mundo. O estresse profissional é o principal responsável por essa posição nada invejável, afetando 69% da população.

 

“O estresse tem péssima fama”, admite Firdaus Dhabhar, professor-assistente de Psiquiatria e Ciência Comportamental da Universidade de Stanford, na Califórnia. “E com boas razões”, acrescenta. Grande parte do que sabemos sobre o efeito físico e mental do estresse crônico vem do fim da década de 1970. Os hormônios liberados na reação de luta ou fuga, que ajudaram nossos ancestrais a não virarem jantar, têm efeito prejudicial quando o estresse é constante e elevado. A exposição crônica ao cortisol, um desses hormônios, provoca mudanças cerebrais que tornam cada vez mais difícil cancelar a resposta ao estresse.

 

Mas anime-se: pesquisas recentes pintam um retrato diferente do estresse, que realmente tem um lado positivo. As situações que costumamos perceber como estressantes –  confrontos com colegas de trabalho, pressão para ter bom desempenho, uma lista grande demais de afazeres – não envolvem o tipo de estresse venenoso ligado aos problemas graves de saúde. Na verdade, surtos breves desse tipo de estresse cotidiano podem fazer bem. Mas a preocupação com o estresse pode exacerbar os efeitos prejudiciais.

 

NO INÍCIO DA DÉCADA DE 1990, quando Dhabhar começava a pós-graduação na Universidade Rockefeller, em Nova York, “o dogma quase absoluto era de que o estresse suprime a imunidade”. Mas, do ponto de vista evolutivo, isso não fazia sentido para ele. Quando um leão nos persegue, raciocinava, o sistema imunológico deveria ser estimulado e se preparar para recompor a carne dilacerada. Ocorreu a Dhabhar que o efeito do estresse agudo, que dura de minutos a horas, pode ser diferente do efeito do crônico, que dura dias ou anos.

 

Dhabhar compara as células do sistema imunológico do organismo a soldados. Como seu nível no sangue despenca no estresse agudo, “todos costumavam alertar: vejam, estresse faz mal, o sistema imunológico fica deprimido”, diz ele. “Mas a maioria das batalhas imunológicas não é travada no sangue.” Ele desconfiava que essas células estavam se transferindo para os “campos de batalha” do organismo, os locais com mais probabilidade de sofrer lesões num ataque, como a pele e o intestino. Em estudos nos quais ratos foram confinados brevemente (um estressor de curto prazo), ele mostrou que, depois do surto inicial na corrente sanguínea, as células do sistema imunológico saíam do sangue e ocupavam as posições que ele tinha previsto.

 

Essa mobilização estratégica pode apressar a cura das feridas, melhorar a eficácia das vacinas e, potencialmente, combater o câncer. Em 2009, a equipe de Dhabhar mostrou que pacientes de cirurgias no joelho que tinham uma redistribuição imunológica robusta depois do estresse da cirurgia se recuperavam bem mais depressa do que quem tinha uma mobilização mais lenta.

 

Em outros estudos, os anticorpos de voluntários que se exercitaram ou fizeram uma prova de matemática (ambos estressores agudos) reagiram melhor do que os voluntários que ficaram sentados em silêncio. E, em 2010, os pesquisadores controlaram o desenvolvimento do câncer de pele em camundongos expostos a raios ultravioleta estressando-os antes das sessões sob a lâmpada.

 

Dhabhar acha que o segredo para maximizar os benefícios do estresse e minimizar seus efeitos negativos é intercalar “surtos regulares” de estresse agudo com períodos de pouco ou nenhum estresse, que ele chama de “zonas verdes”. Isso não significa que você tenha de praticar bungee jump na rotina diária; na verdade, Dhabhar recomenda aproveitar os problemas cotidianos que a vida já nos faz enfrentar. E se exercitar mais. Ele explica que, embora muito divulgado como alívio do estresse, o exercício também é um estressor de curto prazo. “O exercício provoca a mesma reação biológica de ver um predador ou fazer um discurso.”

 

EMBORA O ESTRESSE CRÔNICO encolha o hipocampo (um dos principais centros de memória do cérebro), reduza a função cognitiva e aumente o risco de doença mental, surtos breves de estresse podem melhorar a memória e o aprendizado. Conor Liston, professor-assistente de Neurociência da Universidade Cornell, em Nova York, diz que “quando pensamos no estresse em termos de excitação – estar acordado, alerta e atento a mudanças no ambiente –, ele é bom para o aprendizado”.

 

Sob certas condições, parece que o cortisol aumenta a receptividade do cérebro ao aprendizado, efeito chamado pelos neurocientistas de “plasticidade cerebral”. Quando Liston reduziu experimentalmente a corticosterona (equivalente ao cortisol no camundongo) de um grupo de roedores, a formação de sinapses, um dos marcadores da plasticidade cerebral, parou. Nesse estado, os camundongos ficaram incapazes de aprender novas habilidades. Por sua vez, quando Liston deu uma dose baixa de corticosterona a outro grupo, a taxa de formação de sinapses dobrou.

 

Mas é perigoso deixar o controle no máximo por muito tempo. Quando Liston expôs os camundongos a altas doses de corticosterona, os animais sofreram perda de sinapses. A poda superou o brotamento, o que ajuda a explicar o efeito do estresse crônico.

 

O PONTO EM QUE O ESTRESSE se torna perigoso é quando fica incansável e traumático e quando suas vítimas perdem o controle e o apoio social.

 

“Quando falamos de estresse, tendemos a pensar na experiência cotidiana de falta de tempo, incerteza de papéis, pressão e conflito social”, diz Kelly McGonigal, psicóloga, escritora e professora da Universidade de Stanford. “O tipo de estresse que faz mal tem mais a ver com status, isolamento e rejeição sociais.”

 

Indivíduos de posição elevada podem ter empregos desgastantes, mas também gozam de uma sensação maior de autonomia. Num estudo de 2012, os pesquisadores constataram que um grupo de líderes – oficiais militares e autoridades do governo – tinha nível mais baixo de cortisol e relatava menos ansiedade do que um grupo comparável de não líderes. Isso acontecia apesar de os líderes parecerem mais pressionados: dormiam bem menos horas por noite do que os não líderes.

 

Entre os líderes, os que comandavam mais gente e tinham mais autoridade também apresentavam nível mais baixo de cortisol e menos ansiedade do que aqueles com menos poder, e essa associação estava diretamente ligada à sensação maior de controle.

 

DADA A PREVALÊNCIA da mensagem de que todo estresse é ruim, Kelly McGonigal teme que o medo leve as pessoas a evitar exatamente o tipo de experiência fundamental para a saúde e a longevidade.

 

“Sabemos que ter uma profissão importante para a sociedade protege; sabemos que ligações sociais protegem; sabemos que a perícia ao enfrentar desafios protege.”

 

Em suas aulas e palestras, ela costumava ensinar a reduzir o estresse ou a conviver com ele como se fosse algo a ser evitado e temido. Mas, à luz dessa pesquisa, Kelly mudou de tom, e agora estimula os outros a aproveitar o estresse: “Em vez de tentar desacelerar o coração disparado, por que não considerar que o corpo está lhe dando mais energia?”

 

Afinal de contas, mesmo que pudéssemos viver numa bolha sem estresse, provavelmente para conseguir isso teríamos de excluir tudo o que traz felicidade e significado à nossa existência. “De certo modo”, conclui a professora McGonigal, “o estresse é um envolvimento com a vida.”

 

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