Acabe com o ruído na sua cabeça

O zumbido pode enlouquecer. Eis como reduzi-lo.
 

Quando Justus Bennet, hoje com 57 anos, sindicalista de Estocolmo, Suécia, teve paralisia facial, provavelmente em decorrência do estresse, os médicos o mandaram fazer exames no hospital, temendo um tumor no cérebro. Três técnicos fizeram com que sons diferentes chegassem aos seus ouvidos enquanto mediam as reações cerebrais. O exame não encontrou nenhuma anormalidade, mas algo estranho aconteceu.

“Uma frequência soava como um martelo batendo em aço”, recorda Justus. Na mesma hora, o ouvido esquerdo começou a doer. Em seguida, veio um som agudo tão alto que parecia um grito. Mas o som não viera pelos fones. Não havia fonte identificável. O ruído vindo do nada era zumbido, ou tinnitus. Isso foi em 1998. Desde então, o ruído não parou por mais de algumas horas.

Um número surpreendente de pessoas no mundo ouve tinidos, zumbidos, estalos, chilreios e outros ruídos sem nenhuma fonte externa. Segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde, 28 milhões de brasileiros sofrem de zumbido. E, com o avanço da idade, aumenta a probabilidade de ser afetado.

O zumbido pode ser constante ou intermitente, suave ou alto. Quando dificulta o entendimento de uma conversa ou de um programa de TV, pode deixar a pessoa irritada. O Dr. Michael Seidman, diretor de Cirurgia Otológica e Neurotológica do Hospital Henry Ford, em Detroit, Michigan, diz ter alguns pacientes que se divorciaram e “não conseguem trabalhar de tão debilitados”.

O que está por trás dessa zoeira infernal e como baixar o volume?

“O zumbido não é uma doença”, explica Deborah Hall, professora de Ciência da Audição na Universidade de Nottingham, no Reino Unido. “É um sintoma que pode ser causado por vários problemas de saúde.”

As causas conhecidas variam: excesso de ruído; perda de audição; lesões físicas; doença de Ménière; alguns medicamentos; genética; e até excesso de cera no ouvido. Às vezes, não se consegue identificar a causa.

Como não há uma causa única, “provavelmente não há uma intervenção única que funcione para todos”, diz a professora Deborah. Mas isso também significa que, quando o zumbido é causado por uma lesão ou doença específica, pode haver tratamentos mais eficazes do que indica a estatística geral.

Tratamentos atuais

O Dr. Seidman recomenda que os pacientes comecem com a abordagem mais simples e só passem para outras mais complexas se a primeira não der certo. Hoje há vários tratamentos disponíveis.

Tome vitaminas. “Um estudo mostrou que muita gente com zumbido tinha deficiência de vitamina B12, por exemplo, e alguns desses pacientes melhoraram quando receberam suplementos dessa vitamina”, diz o Dr. Seidman. Outros estudos indicam que a deficiência de zinco contribui para o zumbido. Quem tem essa deficiência e recebe suplementação de zinco costuma melhorar. Mas o zinco não ajuda caso o nível sanguíneo já seja normal. O ginkgo biloba, embora muito receitado, não teve resultado melhor do que o placebo em vários estudos.

Silencie o som fantasma. Uma das reduções mais drásticas do zumbido demonstradas em estudos clínicos foi obtida no início da década de 1990 com o alprazolam. O pequeno estudo verificou que a droga reduziu o volume do zumbido em 76% dos pacientes, contra 5% dos que tomaram placebo.

Dois medicamentos semelhantes, o clonazepam e o oxazepam, também ajudaram alguns pacientes com zumbido.

Segundo um estudo de 2006, a gabapentina, em geral receitada para controlar a epilepsia, baixou o volume do zumbido em quem tem lesões do ouvido interno causadas por exposição a excesso de ruído, mas não quando o  zumbido se deve a outras causas.

Para quem recebe o duplo diagnóstico de depressão e zumbido, dois estudos mostraram que, às vezes, os antidepressivos nortriptilina e sertralina conseguem diminuir o incômodo e o volume do zumbido. No entanto, os pesquisadores são contrários a receitar antidepressivos para quem não estiver deprimido.

Aumente o volume do som normal. Como a perda de audição costuma acompanhar o zumbido e vice-versa, um dos primeiros tratamentos é o aparelho auditivo. Ele não elimina o zumbido, mas melhora a audição e, às vezes, torna mais fácil ignorar os chilreios, assovios, zumbidos e tinidos. Mas, como os aparelhos não eliminam o som fantasma, muita gente precisa de uma abordagem mais abrangente.

Acrescente outro som. A terapia de mascaramento envia ao ouvido um som agradável (música ou ruído de água, por exemplo) por um aparelho que pode ou não incluir um amplificador auditivo. Esse som distrai do ruído fantasma a audição do paciente. Segundo um estudo publicado em 2003, obtém-se mais sucesso com o mascaramento quando a frequência do novo som é igual à do zumbido.

Engane o criador de ruído no cérebro. Um artigo publicado em 2013 indica vários aparelhos novos de mascaramento que transmitem frequências específicas ao ouvido afetado pelo zumbido na tentativa de reconfigurar o cérebro para deixar de produzir a barulheira fantasma. Os estudos preliminares realizados pelos fabricantes do aparelho foram promissores.

Tratamentos futuros

Segundo a professora Deborah, uma série de tratamentos potencialmente melhores, capazes de gerar o som do silêncio, está em desenvolvimento.

Novos medicamentos. Muitos especialistas estão empolgados com uma nova droga, o AM-101, hoje em estudos clínicos. Um dos primeiros estudos “mostrou que o volume do zumbido se reduziu significativamente com uma dose alta de AM-101”, diz o Dr. Seidman, que participa das pesquisas. Não funciona para todos, mas, se a segurança e a eficácia forem comprovadas, pode ser a solução para alguns.

Outro medicamento, o AUT00063, está em estudos preliminares. “Estão tentando mudar a forma pela qual o cérebro lida com a informação sonora num estágio acima do ouvido”, diz a professora Deborah. As primeiras experiências tiveram resultado positivo.

Leia o artigo na íntegra na edição de junho da revista Seleções.

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