A arte de oferecer amor e consolo

Depois de sobreviver a um trauma inimaginável, uma família dá conselhos duramente aprendidos para ajudar quem sofre
 

As vítimas de trauma, como escreve Catherine em extraordinária postagem no blog da revista Sojourners, passam por dias em que “parecemos uma casca trêmula e covarde de nós mesmos quando o desespero boceja como um abismo terrível, quando o medo paralisa toda oportunidade de prazer”. Sua mãe, Mary, fala do pesar orgânico e profundo dos pais que perdem um filho e veem outro gravemente ferido, uma dor sentida nos ossos e nas fibras. Mas o sofrimento é bom professor. De suas experiências, os Woodiwiss tiraram lições sobre como nós, fora da zona de trauma, podemos nos comunicar melhor com quem está ali dentro. Não existe uma resposta sempre certa, mas sua sabedoria coletiva, parte dela contida no texto de Catherine, é bastante útil:

Esteja lá.
Há quem ache que pessoas que passam por traumas precisam de espaço. Suponha o contrário. A maioria necessita de presença. Os Woodiwiss dizem que, depois de cada tragédia, se espantaram com o número de pessoas, muitas delas simples conhecidos, que apareceram para oferecer amor, vindas de todas as partes do país e de todos os continentes. Eles também ficaram desorientados com amigos íntimos que simplesmente não apareceram, com medo ou ocupados demais. Ashley, pai de Anna e Catherine, diz que não conseguiu perceber um padrão que ajudasse a prever quem faria o sacerdócio da presença e quem ficaria cheio de dedos.

Nunca compare.
Não diga “entendo como é perder um filho. Meu cachorro morreu e também foi muito difícil”. Mesmo que a comparação pareça pertinente, não a faça. Cada trauma deve ser respeitado em sua singularidade. Catherine escreve que “por dentro” as comparações “ferem por serem despropositadas, descuidadas ou simplesmente falsas”.

Leve sopa.
Expressões não verbais de amor são tão curativas quanto a eloquência. Quando Mary foi morar com Catherine durante sua recuperação, um amigo percebeu que ela não tinha um tapete de banheiro. Então, foi à loja Target e comprou um. Mary diz que nunca esquecerá isso.
Não diga “Você vai superar”.
“Superar não existe”, escreve Catherine. “Um grande rompimento deixa em sua esteira apenas um novo normal. Não há como voltar ao antigo eu.”

Seja um empreiteiro.
Os Woodiwisses distinguem bombeiros de empreiteiros. Os bombeiros largam tudo e chegam no momento da crise. Já os empreiteiros ficam lá por anos e anos, caminhando junto das vítimas pelo mundo durante a vida. Pouquíssimas pessoas são capazes de desempenhar os dois papéis.

Não diga “foi melhor assim”.
Catherine e seus pais falam com gentileza impressionante e consideração silenciosa, mas fica bastante óbvio que essas tragédias eliminaram sua tolerância por fingimentos e otimismo vazio.
Ashley também previne contra os que querem interpretar tudo e tentam explicar o inexplicável. Nem os profundamente religiosos – os Woodiwiss são cristãos devotos – deveriam levar a teologia além de seus limites. A teologia fundamenta a suprema esperança e não é uma fórmula para explicar cada fato individual.
Eu diria que essas experiências pedem um tipo de ativismo passivo. Vivendo em uma cultura voltada para realizações, temos a tendência de querer resolver os problemas e recuperar o que se rompeu. Mas o que parece necessário é a arte da presença: cumprir tarefas sem tentar controlar nem alterar a situação básica. Deixe que a natureza siga seu curso. Conceda a quem sofre a dignidade de seu próprio processo. Basta estar ali, ao lado, nos momentos de dor e escuridão. Busque agir de forma prática, rotineira, simples e direta.
Ashley e Mary foram ao Afeganistão alguns meses depois da morte de Anna. Eles se lembram da ocasião como um tempo deslocado do tempo. Choraram com aldeões afegãos e se sentiram tocados pela graça divina.
“Aquele período me mudou e abriu minha imaginação”, recorda Ashley. “O amor e essa coisa chamada presença estão mais disponíveis do que pensei. É mais fácil compartilhar isso com o próximo do que eu imaginava.”

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