Como todas as pessoas apaixonadas por cães, tive experiências maravilhosas, alternadas com algumas tristes, na convivência com esses seres incríveis. Experimentei amizades sinceras, como a de minha cadela Baby, que morreu de câncer aos 15 anos e deixou um vazio em meu mundo. Porém nada me magoou mais do que o desaparecimento do meu vira-lata Coronel, companheiro amoroso e desajeitado, que sumiu sem explicação, num momento em que eu passava por uma fase muito difícil: acabara de sofrer a quinta derrota nos vestibulares de Medicina e tudo estava bastante confuso e sombrio.
Eu ainda tinha dois cachorros, mas a ausência do meu filhote parecia irreparável. Nesse meio-tempo, um cão ainda bem pequeno e com aquela doce “cara de pau” dos cachorros sem raça definida passou a frequentar minha casa. Era uma bolinha de pelos preta, com singelas manchinhas brancas e amareladas, delicadamente distribuídas em seu corpinho. Pertencia ao meu tio-avô e havia nascido de uma cadelinha muito meiga, que fazia parte da mesma família de meus cães e, tragicamente, havia desaparecido poucos dias após o sumiço de meu cachorro, deixando o pobre filhote sozinho. A hora das refeições passou a ser brindada com aquela presença pequena e cativante, que vinha propositadamente, com olhinhos pidões, fazer uma segunda refeição. Não foi difícil me apaixonar pelo Jack, embora eu soubesse que era um amor arriscado, pois, como não pertencia à minha casa, não poderia prever o fim dele.
Numa noite, enquanto estudava em meu quarto, meus temores se confirmaram. Recebi a ligação de minha mãe, a qual eu ainda não havia encontrado naquele dia, por termos tido compromissos distintos; ela disse que Jack havia sido pego atacando o frango de um vizinho e que, por isso, meu tio o levaria embora na manhã seguinte.
O que experimentei naquele momento foi um misto de sentimentos: indignação, tristeza, frustração e aquele vazio imenso da iminência da perda de mais um amigo. Já era tarde quando saí de pijama, descalça, atravessei o gramado e a estrada de terra que separa minha casa do pequeno sítio do meu tio e bati na porta, sem saber bem o que diria. Era verdade. Jack seria levado bem cedo, não sei para onde, e eu nunca mais o veria. Não pensei nos problemas que um cão que havia aprendido a matar frangos me causaria, morando eu no campo, onde várias pessoas criam livres aquelas aves. Não consultei minha família. Não considerei que já possuía dois cães adultos, que causavam uma considerável despesa. Senti, apenas, que não poderia perder meu amigo, não daquela forma, não outra vez. Enchi o peito, encarei meu tio e disse que me responsabilizaria por Jack.
Fui, então, ao resgate, num cantinho escuro, do outro lado da casa, onde ele havia sido acorrentado e trancafiado e
uivava copiosamente. “Vai ficar tudo bem, Jackinho”, foi a única coisa que pude dizer, em meio às lágrimas, enquanto o libertava.
Hoje, quando me sento à varanda, geralmente para estudar algum livro enorme de meu curso de Medicina, e o vejo caminhar em minha direção, tentando abanar o rabinho “cotó”, pedindo colo e carinho, com aquele indescritível olhar de gratidão, ainda me comovo. Penso, com estranheza, em como algumas pessoas não se deixam encantar por essas criaturinhas tão especiais e, por tantas vezes, as maltratam e abandonam diante da menor dificuldade, sem remorso e sem dor. A amizade que nasceu entre nós foi daquelas que não se acabam, nem se abalam; de um tipo único, que surge da cumplicidade entre seres que se adotam mutuamente, em situações adversas da vida. Eu precisava de uma cura para a enorme ferida que me deixara a perda de meu querido amigo e um alento para os momentos tristes pelos quais passava, sem que houvesse ninguém que realmente me consolasse, e aquele cãozinho, que nunca experimentara, de verdade, o aconchego de uma família, só precisava de amor.
Quando o vejo cercado de carinho por meus pais (origem do meu amor por bichos), meus outros cães, que
o adotaram incondicionalmente, e por todas as pessoas que frequentam nossa casa e que se encantam com sua inteligência e meiguice, lembro do dia em que nos tornamos cúmplices e jamais me arrependi. Não que ele seja um cão modelo: voltou a perseguir frangos, vive com as patas imundas, marcas de suas andanças, não perde uma boa briga, para manter sua reputação de garanhão do bairro e é um folgado de marca maior. Mas suas peculiaridades, como a de se deitar com as perninhas abertas, encostando a barriga no chão, por sentir muito calor, a delicadeza com que come certos alimentos,segurando-os com as duas patinhas, ou a mania engraçada que tem de se sentar em cima de tudo, o tornam único.
Curiosamente, apesar da facilidade de acesso que a pouca distância entre nossas casas proporciona, Jack nunca voltou ao seu antigo lar; e eu, graças a um encontro de olhares e corações, que só quem já experimentou pode entender, jamais voltei a me sentir só.