Combate ao câncer de pulmão

O diagnóstico precoce e os novos tratamentos dão esperança para milhares de pessoas
 

Por volta dos 17 anos, quando começou a fumar, Ann Long, de Liverpool, Reino Unido, nunca imaginaria que estava correndo risco. Na época em que o cigarro se tornou popular, a indústria fumageira fez campanhas furiosas para lançar dúvidas sobre o vínculo entre o fumo e o câncer de pulmão.  E conseguiu. Quando as provas se tornaram tão avassaladoras que todas as dúvidas desapareceram, as sementes do câncer já tinham sido plantadas em milhões de pulmões – dormentes durante décadas, às vezes, mas quase sempre fatais.

Em 1976, com seis filhos em idade escolar, Ann perdeu o marido, George, fumante inveterado que teve câncer de pulmão. E, embora ela fumasse muito menos e tivesse largado o cigarro antes de 1993, no fim de 2003 a própria Ann recebeu o apavorante diagnóstico.

Hoje, o pavor persegue muitas mulheres, tanto fumantes quanto ex-fumantes: terei câncer também?

Na Europa, o câncer de pulmão é responsável por cerca de 20% de todas as mortes ligadas ao câncer. No Brasil, ele é o tipo de câncer que mais mata entre o sexo masculino. A taxa de mortalidade para cada grupo de 100 mil homens subiu de 15,01, em 2011, para 15,54, em 2012. Entre as mulheres, no mesmo período aumentou de 11,88 para 12,10.

Embora o tabagismo esteja por trás da maioria expressiva dos tumores pulmonares malignos – 90% em homens, 80% em mulheres –, a exposição a determinadas substâncias, como amianto, radônio e vapores de diesel, também aumenta o risco, assim como mutações genéticas. Em geral a culpa é dos genes quando a doença atinge pessoas mais jovens, explica o Dr. Rafael Rosell, do Instituto Catalão de Oncologia, de Barcelona. E os genes ajudam a determinar o melhor tratamento para cada indivíduo.

O diagnóstico precoce, feito antes que o câncer se espalhe, dá aos indivíduos uma probabilidade maior de sobrevivência a longo prazo. Em muitos países, tem havido pressão nos últimos anos para que as pessoas que correm risco maior façam tomografias computadorizadas de baixa dosagem anuais para procurar os primeiros sinais da doença. Um estudo publicado em 2011 constatou que o diagnóstico precoce com esses exames resultou em redução de 20% das mortes por câncer de pulmão, graças ao tratamento rápido.

Os exames são importantes porque, no início, é comum não haver sintomas. Algumas pessoas podem ter sintomas vagos e facilmente desprezados, como tosse, falta de ar ou emagrecimento. Em geral, só depois que o câncer avançou é que se manifestam os sintomas mais incômodos, como dor no peito, sangue no escarro, chiado no peito e baqueteamento digital (quando a ponta dos dedos aumenta e as unhas ficam arredondadas e protuberantes).

Foi um sintoma vago que ela facilmente ignoraria, quando escovava os dentes, que levou Ann Long ao médico. “Depois de bochechar e cuspir, vi uma manchinha que parecia uma ameba”, recorda Ann. Ela notou que a “manchinha” tinha um pontinho vermelho no centro. Ann estava tossindo um pouco ultimamente, mas, fora isso, se sentia muito bem. Mesmo assim, marcou uma hora com o clínico geral, que lhe pediu radiografias, uma tomografia e uma broncoscopia – um procedimento guiado por ultrassonografia que permite ver lesões no pulmão e nos nódulos linfáticos.

Cerca de uma semana antes do Natal, ela recebeu a má notícia. E pensou imediatamente na devastação que a perda do marido causara na família. “Como eu contaria a meus filhos?” Em 3 de janeiro de 2004, metade do pulmão esquerdo de Ann foi removida, e desde então o câncer não voltou. A cirurgia costuma ser uma boa opção para pacientes como Ann, cujo câncer é diagnosticado em estágio I ou II. E um novo tipo de operação torácica menos invasiva, com auxílio de vídeo, permite que o cirurgião remova o tecido afetado com uma incisão muito menor, o que reduz o trauma e o tempo de recuperação.

No entanto, quando há metástase, ou seja, quando o câncer se espalhou para outras partes do corpo, a cirurgia nem sempre é a melhor opção. Mas hoje há numerosos tratamentos para prolongar a vida, mesmo em pessoas com câncer mais avançado. “Nosso modo de ver o câncer de pulmão mudou muito”, diz a Dra. Mina Gaga, diretora médica do Hospital Torácico de Atenas, na Grécia. “Quando o paciente tem boas condições de saúde, vale a pena tentar todos os tipos de terapia, porque as reações podem ser extraordinárias.”

O tratamento-padrão com quimioterapia e radioterapia pode retardar o crescimento do tumor, encolhê-lo e matar as células cancerosas. Essas terapias costumam ser usadas depois de cirurgias para eliminar qualquer resto de tumor não percebido, além de serem o tratamento de primeira linha no caso de tumores mais avançados em que a cirurgia não é factível. A quimioterapia de precisão ou personalizada é uma opção. Assim como as células normais, para prosperar as cancerosas precisam de “fatores de crescimento”, hormônios, proteínas e outras substâncias que ocorrem naturalmente em nosso corpo. “Fazemos uma análise genética dos tecidos tumorais”, diz o Dr. Eric Haura, cientista médico do Centro de Câncer Moffitt, em Tampa, na Flórida. Se a análise mostrar que o câncer é alimentado por determinados fatores de crescimento, medicamentos específicos podem impedir que a célula cancerosa tenha acesso à fonte de “combustível”. O Dr. Haura ressalta, contudo, que esses medicamentos não curam, porque os cânceres acabam desenvolvendo resistência.

Em alguns casos, novos medicamentos ajustados ao câncer mutante podem substituir os que provocaram a resistência. Eles são projetados para se comportar como uma versão mais intensa das defesas imunológicas do próprio organismo. Os dois mais usados são o bevacizumabe e o cetuximabe. Ambos impedem que as células cancerosas cresçam, negando-lhes o acesso aos fatores de crescimento de que precisam. As atuais terapias imunológicas só beneficiam 20% a 30% dos pacientes com câncer de pulmão. Mas, quando dão certo, o resultado pode ser extraordinário. “Em alguns casos, a maior parte do tumor desaparece”, diz o Dr. Haura. E às vezes o efeito dura anos. Uma das descobertas mais promissoras da história do câncer de pulmão é uma nova vacina chamada CimaVax, desenvolvida em Cuba e que, em breve, será testada em pacientes, primeiro nos EUA e depois na Europa. A CimaVax produz um anticorpo que se liga ao EGF, um fator de crescimento natural. Depois de se ligar a essa molécula, ele a leva para o fígado, onde é eliminada antes que as células cancerosas consigam usá-la.

Sem o EGF, “o câncer passa fome e, em essência, para de crescer”, diz o Dr. Kelvin Lee, diretor de Imunologia do Instituto do Câncer Roswell Park, em Buffalo, no estado de Nova York. Nos testes da CimaVax em pessoas com câncer agressivo em estágio terminal, quando os pacientes reagiram à vacina, a média de sobrevivência foi de um ano e meio, contra os seis meses apenas de quem não a recebeu ou não reagiu.

“Outro aspecto extraordinário”, diz o Dr. Lee, “é que, cinco anos depois de começar a terapia, cerca de 20% dos pacientes que receberam a vacina ainda estão vivos.” A CimaVax praticamente não apresenta toxicidade, diz ele. “É apenas uma injeção no braço uma vez por mês. Achamos que a parte mais empolgante disso é a prevenção do câncer de pulmão. Pelo menos a princípio, a ideia seria vacinar quem ainda não tem câncer mas corre grande risco de ter.”

O Dr. Lee testará a CimaVax em estudos clínicos com pessoas com câncer de pulmão nos Estados Unidos assim que a FDA (agência que regula alimentos e medicamentos nos EUA) autorizar, o que deve acontecer em algum momento de 2016.

É possível aumentar a probabilidade de não ter câncer de pulmão. Se você fuma, pare. Dez anos depois de abandonar o cigarro, o risco de morrer de câncer de pulmão cai à metade. Mas não volta ao nível de quem nunca fumou. O Dr. Haura explica: “Achamos que o câncer é um processo começado muitas décadas antes, no qual as células e seu DNA sofrem danos.” Conforme envelhecemos, o sistema imunológico, que nos protege das consequências desses danos durante tanto tempo, acaba ficando menos robusto. Ainda assim, pessoas com câncer de pulmão que param de fumar vivem cerca de 50% mais do que quem continua.

E claro: quanto mais cedo vierem o diagnóstico e o tratamento, maior a probabilidade de sobrevivência. Ann Long é prova disso. Hoje, mais de duas décadas desde que parou de fumar e mais de uma desde a cirurgia que removeu metade de seu pulmão, ela está com 80 anos, leva uma vida ativa, viaja bastante, faz mais exercícios do que muita gente com a metade de sua idade e mantém uma atitude positiva.

Mas o que a salvou pode ter sido a coragem de enfrentar seu maior temor e ir logo ao médico. “Pessoas com quem já conversei têm tanto medo do câncer que não procuram ajuda.” Quando pensa na perda do marido em 1976 para a mesma doença, Ann recorda que os médicos só puderam lhe oferecer analgésicos. A medicina avançou exponencialmente desde então. “Percebo como sou afortunada de viver na época em que vivo”, diz ela.

Vote it up
401
Gostou deste artigo?OBRIGADO
 

 

 

Na Nossa Loja