Como morrer no Facebook

O que fazer nas redes sociais quando alguém que você ama morre? Três modos de enfrentar a morte na era digital
 

Antigamente, a notícia da morte de alguém passava de uma pessoa a outra. O falecimento era lembrado num templo ou numa igreja, chorado no cemitério ou sofrido em silêncio. Hoje, torpedos e e-mails compartilham o acontecido. E as redes sociais oferecem a muito mais gente a oportunidade de homenagear e chorar quem partiu.

“No funeral, há hora e lugar específicos para chorar a morte de alguém”, diz Jed Brubaker, estudioso de mídias sociais do campus da Universidade da Califórnia em Irvine. “No Facebook, qualquer um pode participar desse processo a qualquer momento.”

As experiências a seguir revelam a complexidade do pesar e o poder das redes sociais de mudar a maneira de homenagear os nossos mortos.

"Sinto que ainda posso falar com mamãe"

Eu era a única pessoa da família que era amiga da minha mãe, Rynn, no Facebook quando ela morreu, quatro anos atrás. Na época, meu irmão e minha irmã eram novos demais para ter conta lá. Assim que recebemos a notícia de que ela se suicidara, postei no Facebook “Descanse em paz, mãe...”. Senti imediatamente um tipo de libertação.

Achei que seria um jeito fácil de avisar a todo mundo o que acontecera. Pouco depois de publicar o status, muita gente ofereceu apoio e contou histórias sobre ela, algumas das quais eu nem conhecia. Naquele momento, o círculo de gente com quem eu podia contar cresceu.

Às vezes visito o perfil da minha mãe para contar a ela o que estou fazendo e olhar as fotos dela e as que os outros postam. Canto em um coral jovem do Brooklyn e fizemos um concerto no décimo ano do Onze de Setembro, data também do aniversário da minha mãe. Foi um dia de muita emoção. Postei: “Você se orgulharia de mim: vou cantar amanhã no terreno do World Trade Center. Sei que você estará me olhando aqui embaixo e sorrindo.” Quando lhe escrevo, é como se eu ainda estivesse em contato com ela.

No começo, não soube direito como lidar com sua morte. Mas cresci e sarei. Faz uns sete ou oito meses que não visito a página da minha mãe, mas sentiria falta se ela fosse apagada. O seu perfil é a prova concreta de que ela existiu.

Bolivia Williams, 17, estuda no Bard College. Mora em New York.

Para manter o perfil ativo
Se você não mexer no perfil do Facebook de quem morreu, ele continuará a surgir nas caixas de Pessoas que Você Talvez Conheça e outras. Transformar a página em memorial remove antigas atualizações do status e só permite a amigos ver o perfil ou localizá-lo em buscas. Para transformar uma página em memorial, vá à central de ajuda, digite “pessoa falecida” no campo de busca e siga as instruções.

 

"Apaguei o perfil da minha mulher"

Onze dias depois de dar à luz nossa filha, minha mulher, Lori, morreu de uma infecção que migrou da incisão da cesariana para o coração. Era 9 de março de 2012. Lori passara quase a noite toda acordada com fortes dores no peito. Tínhamos ficado seis dias em casa aprendendo a cuidar da nossa recém-nascida. Às quatro da madrugada, liguei para a emergência e pus Lori na ambulância. Ela faleceu antes que chegassem ao hospital.

Enquanto eu e Lily, no hospital, esperávamos que minha família fosse nos buscar, olhei o celular e notei que os amigos já falavam da morte de Lori na sua página do Facebook: “Não dá para acreditar” e “Já estou com saudades” eram os comentários mais comuns. Foi muito perturbador. Quis apagar a página bem ali, mas esquecera a senha.

Quando chegamos em casa, a primeira coisa que fiz foi entrar no computador dela – ainda logado na conta do Facebook – e apagar a página. Achei que era a atitude certa. Lori adorava o Facebook e outras redes sociais. Senti que, se ela não estava lá, a página também não deveria estar.

Apagar a página de Lori no Facebook foi o primeiro passo do meu processo de luto. O único arrependimento que ficou por ter apagado a página foi que as suas fotos foram excluídas da Internet. Lori amava fotografia. Ainda tenho as fotos no computador, mas às vezes me sinto culpado por não possibilitar que outros as vejam. Mas, se tivesse de reviver aquele momento, eu apagaria a página outra vez.

Williams, 34, é professor. Mora em Jackson, no Mississippi.

Apagar um perfil
Entre na conta da pessoa amada no Facebook usando a senha. Digite “excluir conta” na busca da central de ajuda. Na página de Excluir Conta, clique em Excluir Minha Conta para apagar a página permanentemente, inclusive todas as postagens, fotos e atualizações de status.
     Para baixar o conteúdo da conta antes de excluir o perfil, clique no botão Opções no canto superior direito da página e escolha Configurações da Conta. Clique em Geral, depois em Baixe uma Cópia dos Seus Dados no Facebook e, finalmente, em Abrir meu Arquivo.

 

"Criar um memorial do meu melhor amigo me ajudou a sarar"

Na manhã seguinte à notícia de que o meu melhor amigo, Sean Misner, fora um dos bombeiros mortos no incêndio de uma floresta no Arizona, criei uma página-memorial no Facebook em sua homenagem.

Eu e Sean éramos como irmãos. Tinha 26 anos quando morreu. Fiquei chocado ao saber. No seu memorial, amigos postaram fotos e informações sobre vigílias e criei um link para doarem dinheiro a Amanda, esposa de Sean, e ao filho ainda não nascido, pela conta no Facebook.

Minha irmã é jornalista e sugeriu que criássemos tudo depressa enquanto o incêndio ainda era assunto no país inteiro. Nos dois primeiros dias, o memorial de Sean recebeu 2 mil curtidas. Hoje, são mais de 27 mil; cada uma delas representa alguém que sabia quem era o meu melhor amigo, mais uma pessoa que se orgulhava dele.

Foi muito confortador ver que outras pessoas também se importavam com Sean. Estranhos mandaram mensagens no Facebook oferecendo berços e roupas a Amanda e levantamos cerca de dez mil dólares para a educação do bebê. Uma das mensagens era de um menino de Nevada que, depois de saber de Sean, decidiu que quer ser bombeiro quando crescer. Isso me comoveu. As pessoas postam que Sean era um herói e têm razão. Há muito amor naquela página do Facebook. Para mim, um grande fator de motivação é que, um dia, quando tiver idade suficiente, Sean Jaxon, o filho de Sean, poderá ver como o pai era respeitado.

Quando sinto saudade de Sean, visito a página e ela me faz sorrir. Em ocasiões especiais, leio as mensagens e olho as fotos que outros postaram. É um modo de manter viva a lembrança do meu amigo.Embora ele não esteja aqui, é o meu jeito de manter contato com ele.

Lambert, 26, é assessor financeiro da Morgan Stanley. Mora em Santa Ynez, na Califórnia.

Como criar um memorial
Entre no Facebook e clique em Criar grupo. Escolha um nome para o memorial que você quer criar. Configure a privacidade para Aberto (qualquer pessoa pode ver o grupo, seus membros e todas as mensagens), Fechado (todo mundo pode ver o grupo e os membros, mas só membros veem mensagens) ou Secreto (só membros veem o grupo, os outros membros e as mensagens). Clique em Criar.

 

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