Era noite de um frio de geladeira, quando eu caminhava de volta para casa e vi aquele lindo bichinho dourado fuçando pelos barrancos da calçada. Não parecia estar fazendo nada de mais, mas quando detectava algum sinal de movimento próximo, corria. E muito. Jamais teria conseguido pegá-lo se não fosse pela ajuda de minha cadelinha já idosa, Polaca.
Passei a vê-lo seguidamente. Sempre correndo. Seguindo pessoas em ritmo de trote, como se fantasiasse ter um dono. Fiquei com muita pena e temi por sua vidinha, então decidi ajudá-lo. Mas isso levou mais de uma semana. Corri atrás dele, o perdi de vista, persegui-o com um prato de comida, e nada. Até o dia em que, já sem esperanças, saí de manhã com a Polaca, para passear e ele estava próximo ao local em que o vi pela primeira vez. A Polaca foi até ele, que se deixou cheirar, e eu me aproximei. Ele ficou sentado e encolhido.
Preciso confessar que já estava apaixonada por ele! Peguei-o no colo e levei para casa. Mas não sabia bem o que fazer, pois a Polaca ficou louca de ciúme quando percebeu que voltávamos acompanhadas para casa. Então, liguei para meu futuro marido e disse “Estou indo pra aí, para tentarmos achar um dono para um cachorrinho.”.
Eu estava sem dinheiro, então só nos restava pegar um ônibus (onde animais são proibidos). Para a minha sorte, o primeiro que passou no ponto era o de um cobrador conhecido, que me deixou seguir viagem com meu novo amiguinho.
O cachorrinho tinha cheiro de galinha e várias cicatrizes, além de estar com os olhinhos infeccionados. Dei um banho nele, alimentei-o e fui para o parque, levando-o em mochila, só com as patas e a cabeça para fora, para ver se alguém gostaria de ficar com ele.
Todos os que passavam o achavam lindo, mas ninguém o queria. E eu percebi que só o entregaria a uma pessoa legal, em quem eu conseguisse confiar. Às vezes, as pessoas têm um encanto momentâneo, mas quando chegam a casa, ou até mesmo no meio do caminho, já estão sinceramente arrependidas. E eu não queria este infortúnio para aquele pequeno príncipe.
Sentamos na grama e ele estirou-se de lado, no solzinho. Esta passou a ser umas das coisas que mais gosto de vê-lo fazer. Voltamos para casa. Ele ficou conosco três dias até que encontrássemos um provável dono, mas se íamos ao banheiro, ele gritava na porta, reclamando a injúria deste mínimo afastamento.
Não deu outra. Meia hora depois que o entregamos ao novo dono, ele ligou de volta dizendo, que ele estava fazendo uma gritaria e que até os vizinhos já reclamavam. Nós fomos buscá-lo! Aquele filhote agora era nosso! E o batizamos de Cookie por ele ser realmente um docinho!
Eu estava grávida, mas o Cookie dormia pertinho da minha barriga, no lugar do travesseiro que muitas mulheres usam de apoio, quando deitadas de lado. Tornarmos-nos inseparáveis!
Descobrimos que ele era um Pinscher legítimo, o que não evitou seu abandono. Hoje o Cookie tem uma companheira, a Pepita que também foi abandonada e aguardava adoção. Eles se amam verdadeiramente e não há um só dia em que não me façam muitíssimo feliz.