Entrevista com Neil Gaiman

Famoso pela série de quadrinhos Sandman e por seus romances fantásticos, Neil Gaiman fala da carreira, do novo livro e da vida a dois com uma estrela do rock
 
Os últimos anos foram cheios de mudanças para Neil Gaiman. Em 2011 ele se casou com a artista americana Amanda Palmer, em 2012 recebeu o título de Doutor Honorário em Belas Artes na Universidade das Artes da Filadélfia, Estados Unidos, onde fez um discurso como paraninfo que virou viral no YouTube, no qual encoraja os graduandos a fazerem arte de qualidade (e cometerem erros!), e em 2013 está batendo o próprio recorde de lançamentos editoriais em um só ano com um total de cinco livros, incluindo histórias para crianças, ficção para adultos e o seu discurso de paraninfo transformado em livro. Seleções se encontrou com Neil Gaiman em junho no Forum, em Bath, na Inglaterra, onde ele autografou 1.200 exemplares de seu novo romance O oceano no fim do caminho (lançado simultaneamente no Brasil) para os fãs de carteirinha que compareceram ao evento de pré-lançamento do livro. 
 
P. Como foi a experiência de ser paraninfo e ainda virar Doutor?
R. Eu nunca tinha sido paraninfo, e me convidaram a fazer o discurso para que eu pudesse receber o título de Doutor, e eu nunca havia recebido um título desses. Então simplesmente resolvi pensar no que eu gostaria de saber, se eu fosse um jovem artista em início de carreira. Pensei: “Se vou dar algum conselho, terá de ser algo útil.” E foi o que fiz. Botei tudo no papel, li para Amanda, e, quando ela ficou satisfeita, fui lá e fiz o discurso. E nele há tudo o que aprendi em 30 anos inventando histórias.
 
P. E cometendo erros?
R.Claro! Eu cometo erros ótimos.Muitas das coisas que fiz, eu acertei porque errei primeiro, e é preciso se ter espaço para fazer errado primeiro.
 
P. Mas às vezes é preciso esperar…
R. Às vezes, sim. Por exemplo, no caso de O livro do cemitério, eu sabia o quanto a ideia era boa. Sabia o quanto o livro que eu tinha na cabeça era bom. E sabia também o quanto eu estava longe de ser capaz de escrevê-lo aos 26 anos. Eu não queria estragar tudo. Quando me achei bom o suficiente, sentei e escrevi, e o livro ganhou prêmios literários. Ele não teria sido premiado se eu o tivesse escrito em 1986.
 
P. Recentemente você disse que O oceano no fim do caminho deve ser seu melhor livro. Por quê?
R.Quando eu escrevo, uso muito o intelecto, e com Oceano eu usei o intelecto, mas também tentei usar muito o coração. E quando mandei o livro para alguns amigos lerem antes de enviá-lo para a editora, eles me disseram: “Ele me fez chorar… é tão emocionante, tão bonito, você descreveu minha infância, como conseguiu fazer isso? É mágico. Vou ler
de novo.”
 
P. E essa reação o deixou perplexo.
R. Em geral, escrevo para um público específico. Às vezes o público sou eu. Às vezes sou eu com dez anos, ou às vezes pode ser o Dave McKean, ou quando escrevi Belas maldições, era o Terry Pratchett. Mas, no caso de Oceano meu público era minha mulher. Eu queria escrever um livro do qual Amanda gostasse. E, para mim, o livro ficou pronto quando ela ficou satisfeita com o resultado. Mas eu sabia que era um livro muito pessoal, e muito pequeno, a visão do mundo pelos olhos de um garoto de 7 anos. Então as pessoas começaram a gostar dele. Depois se apaixonaram por ele. Em seguida começaram a tratá-lo de um jeito que nunca haviam tratado nada do que eu havia escrito antes. Todos deram a mesma opinião, dizendo “esse é seu melhor livro”. Mas, para mim, ele ainda é muito pessoal.
 
P. É verdade que quando você o lia na hora de dormir para Amanda, ela caía no sono? Como você se sentia?
R. Ela havia acabado de voltar de Melbourne, na Austrália, onde foi gravar o disco novo. Então foi para Dallas, para mixar o álbum, e todo dia eu digitava um pouco do livro a partir do manuscrito. À noite, quando íamos dormir, eu lia para ela tudo o que havia digitado naquele dia, e ela dormia após algumas páginas. Na manhã seguinte, nós acordávamos e eu perguntava “até onde você se lembra?”. Ela me dizia do que se lembrava de ter ouvido por último, e eu começava um pouco antes daquele pedaço. Como eu me sentia? Muito feliz. Quando alguém pega no sono quando você lê, quer dizer que se sente seguro.
 
P. E como é ser casado com uma cantora de rock?
R. É mais trabalhoso do que achei no começo, em parte porque você passa por momentos difíceis, como os próximos seis meses. Vou viajar divulgando o livro até agosto e Amanda começa uma turnê em setembro, o que significa que ficaremos juntos umas três semanas ao todo nos próximos seis meses, e isso não é nada divertido. Mas a coisa que mais gosto em ser casado com uma cantora é viver com alguém que entende que eu tenho uma relação com os meus fãs e meus leitores, da mesma forma que ela tem uma relação com os fãs dela, que curtem sua música. Eu nunca vou me sentir ameaçado por isso. No passado, ela teve relacionamentos, e eu também, com pessoas que achavam ameaçador o fato de sermos amados por pessoas que nem conhecemos. Amanda não acha. Eu também não. E eu me divirto muito com ela. Amanda me faz muito, muito feliz.
 
P. Como você se sente quando vai a um dos shows dela e é só o marido de Amanda Palmer?
R. Orgulhoso e feliz. Mas às vezes gostaria de ser mais anônimo. Seria bom, num show da Amanda, poder ir até o bar e ficar por lá, e não ser assediado pelos fãs em comum.

 

 
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