Tenho gosto pela vida

Aos 83 anos, o otimismo do jornalista e escritor Zuenir Ventura é contagiante
 

Março trouxe muitas novidades para Zuenir Ventura. Neste mês, o jornalista e escritor toma posse na Academia Brasileira de Letras e, ao lado de Ziraldo e Luís Fernando Veríssimo, estreia como dramaturgo do musical Barbaridade. Aos 83 anos, Zuenir tem muita disposição para novos projetos. Colunista do jornal O Globo e autor de vários livros, entre eles 1968: o ano que não terminou, no fim de 2014 o escritor foi eleito à cadeira 32 da Academia, que pertenceu a Ariano Suassuna. Casado com Mary Ventura há 51 anos, tem dois filhos e uma neta, Alice, de 5 anos. Em sua casa, em Ipanema, no Rio de Janeiro, o jornalista falou a Seleções sobre envelhecimento e memórias e até mostrou os cadernos em que escreve, à mão, os seus textos antes de passá-los para o computador.

Pergunta: Uma pesquisa recente de Seleções em diversos países (veja aqui) mostrou que mais de 80% dos entrevistados acham que a velhice é mais fácil do que esperavam. Você concorda?

Zuenir Ventura: Eu acho isso também. Quando fiz 80 anos, disse “se eu soubesse que era tão bom, tinha feito antes”.

(Risos) Por quê?

Mitifica-se muito a adolescência e a juventude. Mas eu era muito infeliz na adolescência. Era feio, magro, não arranjava namorada, me achava o fim. Não que me ache mais bonito agora, mas me tornei mais tolerante, mais compreensivo. Acho que nunca fui tão feliz como sou agora. A idade média do brasileiro hoje é 74, 75. Tenho 83, já estou no lucro.

E as mudanças que vêm com o envelhecimento?

O grande problema não é a velhice em si, mas a doença, o sofrimento. Eu não tenho, por exemplo, medo da morte, tenho medo do sofrimento. Não acho que esta seja “a melhor idade”, como dizem. Há problemas. Não posso fazer as mesmas coisas que fazia quando jovem, como jogar basquete, mas, se não houver doença nem sofrimento, tudo bem. Você se acostuma com as limitações.

Conte-nos um pouco do musical que você escreveu ao lado de Ziraldo e Luís Fernando Veríssimo e que estreia este mês.

O musical fala justamente sobre o envelhecimento. O título, Barbaridade, foi sugerido pela produtora Aniela Jordan. A dubiedade é uma brincadeira. Barbaridade, no Brasil, tem pelo menos dois sentidos, de uma coisa horrorosa ou muito boa. E o espetáculo pretende transmitir esse humor – até porque nele estão dois dos maiores humoristas do Brasil, o Luiz Fernando e o Ziraldo.

E essa visão do musical é a sua visão?

Sim, de nós três. Somos amigos, temos mais ou menos a mesma visão, ou seja, gostamos da vida, achamos graça da velhice. Brincamos que não sabemos o que é isso. É claro que temos problemas, mas a velhice para nós não é “uma m...”, como dizia o querido Oscar Niemeyer, embora ele tenha levado 105 anos para deixar “essa m...” Enfim, no musical, são três velhos falando da velhice, numa visão bem-humorada. Não tem nada de tragédia em ficar velho.

O que você diria às pessoas que têm dificuldade de lidar com a velhice?

Não dou conselho porque quem dá conselho é velho, mas a dica é olhar a vida com mais tolerância e otimismo. A vida sempre poderia ser melhor, mas também poderia ser pior. Se você olha com pessimismo achando que vai dar errado, acaba dando mesmo. É preciso olhar a vida com menos exigência; sem querer que ela lhe dê alegria todo dia. Há 20 anos superei um câncer na bexiga. A partir de então, comecei a dar valor às coisas boas.

O que você faz para se manter saudável?

Eu acordo todo dia e vou andar. Não é para o físico, não. É porque, andando, meu corpo produz endorfina. A endorfina dá, segundo dizem, otimismo. Enfim, pode ser isso. O fato é que eu adoro andar.

Num momento da vida em que a maioria das pessoas está se aposentando, você conquistou algo que, talvez, todo escritor almeja, entrar para a Academia Brasileira de Letras, e ainda tem disposição de aceitar novos projetos. É isso mesmo?

Sim, é isso. Tenho o maior prazer. Comecei minha vida de “dramaturgo” e “acadêmico” agora, então acho que tenho futuro. (Risos) Só não posso começar a acreditar que essa coisa de imortal é para valer.

Falando um pouco sobre seus livros, todos eles, de certa forma, tratam da questão da memória. Por que esse tema é tão presente nas suas obras?

Porque não tenho memória.

Imagina, você se lembra de tantos episódios...

Meus amigos também dizem isso e me perguntam como, então, fico escrevendo livro de memórias. Respondo que escrevo com a memória dos outros. O Brasil tem uma amnésia crônica. O cronista Ivan Lessa, já falecido, dizia: “No Brasil, a cada 15 anos se esquece dos últimos 15 anos.’’ Isso é terrível porque, sem rever o passado, como se pode ver o presente e o futuro? Não chego ao ponto de achar que a memória vai acabar, mas é preciso tomar cuidado, exercitar a memória individual e, sobretudo, a memória histórica, a memória do país. Então acho que escrevo livros de memória para preservá-la.

Você usa o computador para escrever? Como é sua relação com a tecnologia?

Uso, mas não me dou bem com ele. Primeiro escrevo tudo no caderno. Tenho caderno que não acaba mais, daqueles infantis. Uma vez um amigo me fotografou cercado de cadernos infantis, um mico só. Eu gosto de escrever à mão, não lido bem com a tecnologia. Minha neta Alice, de 5 anos, tenta me ensinar e fica impaciente: “Vô, aperta aqui, olha”, “Vô, eu já disse pra você”. Alice não entende como eu – que para ela sei tanta coisa – não consigo aprender com ela.

 

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