EXCESSO DE ENERGIA

 

Não há espaço
para pastas na gaveta da minha escrivaninha. Nem para livros, na estante: ela está cheia de pastas que não cabem na gaveta de pastas. Pastas cheias de extratos bancários, contas de telefone e notas de “despesas da empresa” – aquelas notinhas de cerveja e peças de motocicleta que guardo na esperança de que alguma brecha ainda não descoberta na legislação me permita descontá-las na declaração do imposto de renda.

Então, o que há na gaveta de pastas? Fios, é claro! Os fios estão presos a adaptadores de corrente e carregadores de pilhas. Há adaptadores para tocador de CD portátil (4,5 volts), telefone sem fio (6 V), laptop (12 V), secretária eletrônica (9 V), impressora (18 V), celular (4,3 V), câmera fotográfica digital (4,5 V) e HD externo (12 V e 5 V simultaneamente, só para se exibir).

O motivo para todos esses adaptadores e carregadores estarem enfiados na gaveta das pastas, em vez de ficarem zumbindo nas tomadas, é que os aparelhos em que eles foram usados escangalharam ou estão obsoletos.

O telefone sem fio foi vítima de um pico de energia durante uma tempestade. O disco rígido do laptop morreu. O HD externo passou a sofrer algum tipo eletrônico de doença de Alzheimer. A secretária eletrônica parecia transmitir os recados com uma mordaça na boca. O celular se jogou num rio. (Era raso e talvez fosse só para chamar a atenção, mas ainda assim o aparelho morreu.) A impressora? Ora, com certeza era mais barato trocá-la do que comprar um cartucho novo. Quanto ao tocador de CD, foi superado pelo MP3.

Os aparelhos morrem, mas seus adaptadores continuam vivos. Parece fora de propósito jogar fora uma fonte de energia em perfeito estado; além disso, talvez encontre um uso para ela.

Mas é claro que não encontro. Quando preciso de um adaptador de corrente, nenhum dos que estão na minha coleção museológica tem a voltagem certa nem o conector certo nem a amperagem suficiente. Posso recarregar a câmera digital com o adaptador do CD? Não. Quando o adaptador do laptop novo desistiu da vida, o antigo serviu? Não.

Deve haver uma conspiração de incompatibilidade entre os fabricantes dessas caixas pretas, que lotam as tomadas do mundo todo. De acordo com a Energy Star, que determina os padrões internacionais de eficiência energética, só nos Estados Unidos há 1,5 bilhão de adaptadores de corrente. Também não tenho certeza se “em uso” inclui “descansando na gaveta”; o número pode ser até maior.

Mas, se você decidir descartar as caixinhas no lixo comum, fique atento porque elas podem causar danos ambientais. Quando um equipamento eletrônico não tem mais utilidade, ele passa a ser lixo eletrônico, também conhecido como e-lixo. De acordo com a organização não governamental Greenpeace, a cada ano o mundo produz 50 milhões de toneladas desse tipo de resíduo, e adaptadores e carregadores não escapam da lista.

O problema é que a maioria deles desperdiça muita eletricidade, e é por isso que esquentam. Mas precisamos deles, porque muitos eletrodomésticos essenciais – massageadores de pés, chafarizes de chocolate, cortadores de pelos do nariz – funcionam com baixa voltagem. É claro que podemos ligar o aparelho de DVD diretamente na tomada, mas só porque ele tem adaptador de corrente embutido.

Então por que nossa casa não tem tomadas de baixa voltagem em vez de tomadas comuns?

Se a gente pensar bem, os sistemas e aparelhos do carro funcionam todos a 12 volts, sem problema; embora a gente tenha de admitir que no carro não existam torradeiras, minibanheiras de hidromassagem nem forninhos de infravermelho...

Assim, poderíamos instalar em casa tomadas de 12 V, como no carro, e os fabricantes forneceriam uma tomada (mais barata) de 12 V em vez do adaptador de corrente que vem com os aparelhos. Como vantagem a mais, o circuito de 12 V poderia ser alimentado diretamente por painéis solares, que produzem corrente contínua de baixa voltagem.

Não consigo acreditar que ninguém tenha pensado nisso. Só posso deduzir que exista um lobby do setor de adaptadores de corrente para esmagar ideias brilhantes como essa. Na verdade, temo que um matador de aluguel me atinja a cabeça a qualquer momento com o adaptador de um Xbox falecido. (Já teve oportunidade de ver um? São enormes.)

Mas seja qual for o risco pessoal, estou lançando a campanha para acabar com o negócio de adaptadores. Queremos voltagem padronizada, tomadas padronizadas! Mas só depois de eu vender num site de leilões o conteúdo da minha gaveta.

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