Geração Ritalina

Especialistas ensinam a identificar transtorno que afeta de 3% a 5% da população infantil no mundo
 

A produtora de cinema Veruschka Bauerle, 45 anos, perdeu a conta das vezes que foi chamada ao colégio do filho, na cidade do Rio de Janeiro. A reclamação dos professores era sempre a mesma: João Lucas, então com 8 anos, não conseguia acompanhar o rendimento da turma. O menino não prestava atenção às aulas nem tirava notas boas nas provas. Preguiçoso? Nem tanto. Desanimado? De modo algum. João é portador de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) – distúrbio neurobiológico que, segundo a Organização Mundial da Saúde, atinge de 3% a 5% da população mundial entre 6 e 12 anos.

“Não aguentava mais ir à escola do João, falar da dificuldade de aprendizagem dele”, conta Veruschka. “Por mais que tentasse, não conseguia ajudá-lo. Não tinha paciência para explicar a lição e acabávamos brigando. Não entendia por que tudo era tão difícil para ele e com ele. Essa situação estava minando nossa relação. É muito frustrante você querer ajudar seu filho e não conseguir”, admite ela.

Crianças que apresentam problemas no convívio social ou, no caso de João Lucas, dificuldade no desempenho escolar podem ser consideradas portadoras de TDAH a partir dos 6 anos. Antes disso, todas as crianças são desatentas e irrequietas por natureza. Coordenador do Projeto de Déficit de Atenção e Hiperatividade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, o psiquiatra Mário Louzã Neto ressalta que, ao contrário do que muitos pensam, hiperatividade não é um diagnóstico e, sim, um dos sintomas de TDAH. Além dela, portadores do distúrbio podem apresentar, entre outros, desatenção e impulsividade.

O pior de dois mundos

Mas não é toda criança agitada, desatenta ou impulsiva que sofre de TDAH. É preciso que tais sintomas se manifestem em dois ou mais ambientes, como casa, escola e lazer, e durante seis meses, no mínimo. E mais: que tragam prejuízos à vida pessoal, escolar e emocional da criança. “Em geral, os pais são os primeiros a identificar os sintomas”, explica o Dr. Louzã. “Mas, em sala de aula, os professores também devem estar atentos. Quando o sintoma que predomina é o déficit de atenção, a criança não consegue acompanhar o ritmo da turma. É do tipo que não presta atenção, demora a fazer a lição ou esquece o que já aprendeu. Quando o que prevalece é a hiperatividade, ela tumultua a sala de aula. É daquelas que não param quietas um minuto, se levantam a todo instante ou conversam sem parar com os colegas.” 

Por definição, o TDAH é um transtorno que começa na infância. No entanto, o diagnóstico correto pode vir apenas na vida adulta. Foi o caso do empresário Ivan Monticelli, 61 anos, morador de São Paulo (SP). “Quando por fim descobri o que tinha, aos 58 anos, senti um alívio imenso”, conta Ivan. “Afinal de contas, eu não era louco, como tantas vezes me disseram. Na infância, sempre fui arteiro, mas não fazia por mal. Na escola, não havia meio-termo: ou me amavam ou me odiavam. Cheguei a frequentar as reuniões dos Neuróticos Anônimos”, relata.

Segundo os médicos, a taxa de predisposição genética do TDAH é de 75%. Fatores ambientais, como o consumo de álcool e de cigarro na gravidez, por exemplo, respondem pelos outros 25%. Com o transtorno diagnosticado há 10 anos, o psicólogo Ronaldo Ramos, 58, só desconfiou que a filha, Gabriela, também podia ter TDAH ao conversar com a professora particular de inglês. Nas aulas, a menina, então com 14 anos, não conseguia se concentrar nos livros: a todo instante se levantava da cadeira para beber água, ir ao banheiro, tomar café. No dia seguinte, Ronaldo levou-a a um psiquiatra, que confirmou sua suspeita. “Felizmente, minha filha não passou por metade dos apuros que passei”, diz Ronaldo. “Na idade dela, vivia me perguntando: por que os outros aprendem matemática e eu não? O que
há de errado comigo? Sofri muito preconceito. Isso mexe com a autoestima de qualquer um”, diz Ronaldo, também morador de São Paulo.

Tratamento combinado

O TDAH pode não ter cura, mas, para alívio dos pais, como Veruschka e Ronaldo, tem tratamento. “Os melhores resultados são obtidos quando se associa o uso de medicação estimulante com psicoterapia”, afirma o neurologista Giuseppe Pastura, coordenador do Ambulatório de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade do Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “A cognitivo-comportamental é a mais indicada. Já o uso de metilfenidato deve ser feito por muitos anos e, em alguns casos, por toda a vida”, avisa o especialista.

Mais conhecido pelos nomes comerciais de Ritalina (Novartis) e Concerta (Jansen-Cilag), o cloridrato de metilfenidato é a única substância para esse fim disponível no Brasil. Em dez anos, seu consumo cresceu 775%. Segundo pesquisa do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, passou de 94 kg, em 2003, para 875 kg, em 2012. Dados mais recentes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária confirmam a tendência de alta. Segundo o órgão, o número de caixas de metilfenidato vendidas no país aumentou de 2,1 milhões em 2010 para 2,6 milhões em 2013.

“O grande aumento no consumo do metilfenidato se deve a uma série de fatores, como a inclusão de novos sintomas no diagnóstico de TDAH, maior divulgação na mídia da existência desse transtorno e, também, ampliação no valor social da atenção”, analisa a psicóloga Denise Barros, autora da pesquisa. “De uns tempos para cá, a atenção passou a ser considerada uma das importantes habilidades para se chegar ao sucesso, tanto na vida pessoal quanto na profissional.”

Apesar de existir há 61 anos – o composto foi patenteado em 1954 –, o metilfenidato ainda gera debate e divide opiniões. De um lado, há quem diga que a “droga da obediência”, como em geral é descrita por seus detratores, não passa de invenção da indústria farmacêutica. “Claramente se vê que o aumento estupendo da venda desse medicamento é uma estratégia de mercado, gerando a banalização do diagnóstico”, afirma o farmacêutico Antônio Barbosa da Silva, presidente do Instituto Brasileiro de Defesa do Usuário de Medicamento.

De outro lado, há quem garanta que o aumento no número de prescrições se deve ao aprimoramento na detecção do TDAH. “Em vez de superdiagnóstico, o que vemos hoje no Brasil é um subdiagnóstico. A maioria dos brasileiros com TDAH não recebe tratamento”, alerta o psiquiatra infantil José Belizário Filho, do Departamento de Comportamento e Desenvolvimento da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Medicalização da infância?

Quem se posiciona contra essa tendência é o Conselho Federal de Psicologia. Em 2012, a entidade lançou a campanha “Não à Medicalização da Vida”, que questionava o uso excessivo de remédios à base de metilfenidato por crianças e adolescentes em idade escolar. “A medicalização tem cumprido o papel de ‘controlar’ aqueles que, muitas vezes, ousam questionar ou não se enquadram nas normas vigentes”, critica a psicóloga Loiva Maria De Boni Santos, mestre em Psicologia Social pelo Programa de Pós-Graduação do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “Nesse aspecto, os sujeitos tidos como portadores de TDAH sofrem violência em nome de evidências científicas.”

Como todo remédio, o metilfenidato também tem efeitos colaterais. Na embalagem, a tarja preta adverte: “Pode Causar Dependência Física ou Psíquica”. Segundo os médicos, a substância pode provocar desde náusea, vômito e cefaleia até perda do sono, redução do apetite e aumento da pressão arterial. “De maneira geral, os efeitos colaterais são leves e só ocorrem no início do tratamento. Depois, o organismo se adapta e tolera bem o medicamento”, avalia Mário Louzã.

Efeitos colaterais e reações adversas à parte, o professor de inglês João Neto, 23 anos, de Porto Alegre (RS), considera que, no seu caso, o metilfenidato foi essencial no combate ao TDAH. Depois de receber o diagnóstico aos 4 anos, passou a ser conhecido no colégio como “o garoto que toma remédio”. Mesmo assim, não escapou de ser rotulado pelos outros de “doente”, “bandido” e “terrorista”. Na adolescência, a hiperatividade cedeu lugar à desatenção. Quando descobriu que o transtorno era incurável, chegou a tentar o suicídio. “E ainda sou obrigado a ouvir alguns médicos dizerem que ‘não acreditam’ no TDAH. Parece piada!”, desabafa.

A situação piorou quando, por questões financeiras, João teve de suspender o tratamento. “Perdi o emprego por causa da desatenção, contraí dívidas por descontrole financeiro, negligenciei minha filha por impaciência e me separei da minha noiva por impulsividade. Se estivesse em tratamento, nada disso teria acontecido”, lamenta.

Considerado um dos maiores especialistas do mundo em TDAH, o psiquiatra Luis Augusto Rohde foi o único brasileiro convidado pela Associação Americana de Psiquiatria a colaborar na elaboração do Manual de Diagnóstico  de Transtornos Mentais (DSM-5), a “Bíblia da psiquiatria”. “Ainda hoje, o diagnóstico é puramente clínico e subjetivo. Como acontece com qualquer transtorno, não há um marcador biológico ou teste de imagem que ajude a detectá-lo. Sem uma avaliação criteriosa, o diagnóstico pode ser equivocado”, explica o Dr. Rohde, coordenador do Programa de Déficit de Atenção/Hiperatividade do Serviço de Psiquiatria da Infância e da Adolescência do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. “Por essa razão, os pais devem procurar um profissional de saúde com experiência no assunto. Na dúvida, podem acessar o site da Associação Brasileira do Déficit de Atenção e entrar em contato com um centro de referência”, recomenda.

Novos horizontes

Todos os nossos entrevistados estão bem agora. João Lucas, hoje com 18 anos, foi aprovado em Comunicação Social na PUC-Rio e está fazendo intercâmbio de inglês na Austrália. Aos 22 anos, Gabriela se formou em Publicidade e Propaganda e já foi contratada por uma agência. João Neto fundou um grupo de ajuda no Facebook (TDAH – Céu Aberto), pretende estudar psicologia e fez as pazes com a ex-noiva, que se tornou sua melhor amiga. Já Monticelli está se dedicando à fotografia como hobbie.

Veruschka, mãe de João Lucas, também tirou da experiência uma lição de vida. “Descobrir que meu filho tinha TDAH só me ajudou a ser melhor como mãe. Por isso não podemos fugir do problema. Seu filho é diferente dos outros não porque ele tem TDAH, mas, sim, porque todos nós, incluindo eu e você, somos diferentes uns dos outros. E, por sermos diferentes uns dos outros, somos todos originais.”

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