Infarto

Sete fatos que as mulheres precisam conhecer sobre ele
 

Numa noite de sábado, em agosto de 2010, Sandra Regina Lage começou a sentir um aperto no peito enquanto dava mamadeira à filha de 11 meses. Na mesma hora, a designer gráfica, na época com 41 anos, tirou a menina do colo e, com dificuldade para respirar, correu até a varanda. “Na hora, pensei que fosse qualquer coisa, menos coração”, recorda. Durante três dias, continuou sentindo mal-estar e dores no peito. Quando Sandra desmaiou no quarto das filhas, o marido decidiu levá-la ao Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.

Mãe de gêmeas, Sandra não fazia ideia de que estava sofrendo um infarto. Não tinha sobrepeso, não era diabética, nunca fumara, sua alimentação era saudável. “A princípio, os médicos acharam que tudo não passava de um pico de estresse”, afirma. Por volta das 15 horas, resolveram fazer um eletrocardiograma e o diagnóstico foi claro: ela estava sofrendo um infarto agudo do miocárdio, um ataque do coração provocado pela obstrução de um vaso sanguíneo. “Só percebi que a situação era grave quando colocaram um comprimido sublingual na minha boca”, diz. Duas horas depois, Sandra já estava na sala de cateterismo, onde lhe inseriram um stent para abrir a artéria obstruída e restaurar o fluxo de sangue até o coração. 

Depois, dois cardiologistas examinaram seu músculo cardíaco para ver se havia lesões e se espantaram: o tratamento fora tão rápido que o infarto não deixara sequelas. “Se não tivesse vindo hoje para o hospital, você teria morrido em casa”, constatou naquela mesma noite o Dr. Roque Marcos Savioli, um dos cardiologistas que a socorreram. “O que causou estranheza é que não tenho nenhum fator de risco que explique o infarto”, disse Sandra, agora recuperada. “Felizmente, ganhei uma segunda chance de Deus e hoje me sinto melhor do que antes.” 

Mas outras mulheres podem não ter tanta sorte. Para Rosemary Domingues da Silva, 54 anos, do Rio de Janeiro, o primeiro sinal de alerta, dez meses antes do infarto, foi dor no peito e dormência no braço, porém sem muita intensidade. No meio da madrugada, foi levada para a Policlínica Rodolpho Rocco, em Del Castilho. Depois de passar três horas na emergência, os médicos diagnosticaram estresse, receitaram um relaxante muscular e a mandaram de volta para casa.  

Quando o infarto aconteceu, no dia 04 de novembro de 2013, Rosemary foi levada às pressas para o Hospital Salgado Filho, no Méier, onde permaneceu internada por 11 dias. “Foi horrível. Eu queria respirar e não conseguia. É como se estivesse sendo estrangulada por dentro”, compara.

O ataque foi grave e as sequelas, duradouras. “Fico feliz por estar viva, mas, pelo menos por enquanto, não posso mais trabalhar. Como sou artesã, a médica me proibiu de fazer esforço físico. Tive que perder 13 quilos, não posso mais comer sal, açúcar ou gordura. Não tenho muita energia, fico cansada à toa e preciso descansar com frequência.” 

Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia, só em 2011, 43.317 mil mulheres, o que corresponde a 41,90% dos casos, morreram de doença coronariana no país. Ou seja, uma mulher a cada 12 minutos. Naquele mesmo ano, segundo o Instituto Nacional de Câncer, 13.225 mulheres morreram de câncer de mama no Brasil. Os homens ainda sofrem 16,8 mil mortes por ano a mais por doença coronariana do que as mulheres. Talvez seja por esse motivo que a maioria das mulheres ainda considere a doença cardiovascular como primordialmente masculina. “Elas têm mais fatores de risco do que os homens, mas muitas não sabem disso”, alerta o cardiologista Carlos Costa Magalhães, da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

Eis alguns fatos novos sobre infartos femininos que toda mulher precisa conhecer:

Fato 1 Os primeiros sinais de alerta podem surgir com meses de antecedência.

Estudos feitos na Noruega, no Canadá e nos EUA constataram que a maioria das mulheres se queixa de algum sintoma importante até um ano antes de um infarto. Em geral, esse sintoma é fadiga incomum, transtornos do sono e falta de ar. Outros são ansiedade, indigestão, períodos de dormência nos braços e dor em algum ponto do peito, do maxilar, das costas, dos braços ou das pernas.

A fadiga incomum incomodava Rosemary. “Eu não me sentia bem desde o verão”, recorda ela, que hoje sabe que, provavelmente, a fadiga era um sinal precoce de que o fluxo sanguíneo do coração estava reduzido.

Fato 2 Exames comuns podem não acusar problema

A redução do fluxo sanguíneo no coração, a chamada isquemia, é atribuída há muito tempo à presença de obstruções distintas causadas por placas nos vasos que alimentam o coração, conhecidos como artérias coronárias. A ruptura dessas placas é a causa do infarto na maioria de homens e mulheres. No entanto, descobertas mais recentes mostram que a isquemia pode ter várias causas, como vasos sanguíneos do coração estreitados ou enrijecidos a ponto de restringir o fluxo de sangue, a chamada disfunção microvascular coronariana. Um importante estudo conduzido nos Estados Unidos na década passada, a Avaliação da Síndrome Isquêmica em Mulheres, verificou que até 50% das mulheres com dor no peito, falta de ar e mau resultado na prova de esforço não apresentam obstruções em angiografias comuns (imagens das grandes artérias). “Em geral, mulheres apresentam mais frequentemente testes ergométricos chamados de falso positivo. Não se sabe exatamente por que isso acontece. O fato é que, apesar do teste ergométrico dar um resultado alterado, não se encontra nenhuma doença cardíaca ao fim da investigação. Por esse motivo, devemos ter cautela e tranquilidade na hora de interpretar esses testes em mulheres”, explica o Dr. Eduardo Pesaro, doutor em Cardiologia pela Universidade de São Paulo, cardiologista e pesquisador do Hospital Israelita Albert Einstein. Em seu livro A woman’s heart attack (O ataque cardíaco de uma mulher, ainda inédito no Brasil), publicado em 2013, a médica norueguesa Dori Naerbo descreve os três infartos que sofreu em três meses, aos 47 anos, sem que nenhuma obstrução fosse encontrada em suas angiografias. Os exames enzimáticos, porém, mostraram que havia lesões do músculo cardíaco devido à falta de fluxo sanguíneo.

Essas descobertas que vêm surgindo podem ajudar a explicar por que os exames mais comuns para diagnóstico talvez não acusem o infarto sofrido por algumas mulheres.

Fato 3 Os infartos estão aumentando em mulheres de meia-idade

Por causa do efeito protetor do estrogênio, a maioria das mulheres sofre infartos sete a dez anos depois dos homens, em média, em geral após a menopausa, com o pico de incidência depois dos 70 anos. Mas os estudos mostram que, nas últimas duas décadas, o número de infartos em mulheres de meia-idade (entre 40 e 65 anos) vem aumentando, enquanto o número de infartos em homens da mesma idade vem diminuindo. Essa mudança pode estar ligada ao aumento da incidência dos principais fatores de risco cardiovasculares: tabagismo, diabetes, pressão alta, obesidade e vida sedentária. “A piora do estilo de vida das mulheres se traduz em mais infartos do miocárdio em idade mais precoce”, avisa a Dra. Aurora Issa, do Instituto Nacional de Cardiologia.

Leia esse artigo na íntegra na edição de julho da revista Seleções.

 

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