Infosfera
Um dia no complexo ambiente informacional em que vivemos.
Por Fabrício Carpinejar
Sou fanático por notícias. Acordo de madrugada para ouvir boletins na Rádio Gaúcha e selecionar curiosidades para o meu programa de entrevistas na TV Gazeta.
Às 6 da manhã estou na voltagem de 220V. Minhas drogas são café e chimarrão, devidamente
alternados para prevenir overdose. A esposa estranha o apetite acelerado logo cedo. Ela é calma para despertar, um teatro nô de gestos e leques, sem nenhuma palavra.
Eu, pelo contrário, trituro vocábulos e palavras com os dentes, rimo um Lusíadas com as navegações cibernéticas. Não paro de falar bobagens e criar histórias. Pratico rituais e manias, sou absurdamente metódico.
Valorizo reverências antigas ao sol. Uma delas é buscar o jornal debaixo da porta. Meu pai era
assinante. Meu avô era assinante. Eu me senti adulto não quando tirei carteira de motorista, não quando expedi o título de eleitor, não quando morei sozinho, mas na hora em que assinei o jornal próprio. Orgulho bairrista, que significava emancipação no mágico dicionário familiar.
Leio Zero Hora no papel e parto para colher notícias nos principais portais da Internet, como o UOL e o globo.com. A cena é desesperadora: um laptop na frente, televisão ligada, rádio no ouvido e um iPad. O escritório parece uma ilha de edição bagunçada e cheia de cores piscando. Demando três horas nas expedições pelas editorias. Corro para ler os principais jornais do país nos sites da Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, Correio Braziliense e O Estado de Minas. Leio nos jornais meus cronistas prediletos: Humberto Werneck, Antonio Prata, Affonso Romano de Sant’Anna, Marcelo Rubens Paiva, Xico Sá, Tostão, Juca Kfouri, Martha Medeiros, Paulo Sant’Ana. Reservo o caderno de esportes para o fim – futebol é fofoca de macho.
Não tenho admiração pelas manchetes, dedico paixão às pequenas notas, anúncios, enredos insólitos, o que mostra o sublime e o patético da nossa condição – aquele registro que não mereceu grande destaque, porém não foi desprezado. O saudoso Moacyr Scliar transformava matérias secundárias em contos dramáticos e eu terminei fisgado pela força do trivial. Faz sentido. O mínimo é o épico, o pouco é o essencial. Carrego a vocação ao detalhe, a observar se o interruptor de luz é limpo ou esquecido. O que não tem importância social para os outros pode ser decisivo em romances e poemas.
Além da minha turnê noticiosa, alimento dois blogs: o carpinejar.blogspot.com, de crônicas, e o rolocompressor.zip.net, de futebol, com Mário Corso. Nos intervalos dos textos e das colaborações aos jornais e revistas, solto frases líricas e aforismos no Twitter. Costumo fazer cinco frases diárias no @carpinejar. Já montei uma enciclopédia informal de definições de amor, saudade, inveja, raiva, generosidade, amizade, com mais de sete mil máximas de 140 caracteres acumuladas em três anos.
Como um viciado, menti aqui que cometo cinco frases diárias. Não acredite: é como aquele fumante que se convenceu de que consome um maço por dia e já ultrapassou a marca de 40 cigarros. Aliás, a rede teve um papel fundamental para eu largar o cigarro. De sexta a sexta, registrava as semanas de abstinência. Hoje completei 16 meses longe do tabaco.
Também atualizo diferentes páginas do Facebook, como a do meu perfil, a de andanças pelo interior do Rio Grande do Sul e a do programa de rádio com minha mulher, Cínthya Verri. Não entende como tenho tanto tempo? Não conto tempo. Faço como posso, caprichando no rascunho. Meu lema: as pessoas ocupadas são as mais disponíveis enquanto as desocupadas são as mais inacessíveis – sempre arrumam uma desculpa para adiar a tarefa.
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