Inibidores de apetite

Os perigosos efeitos colaterais dos inibidores de apetite
 

A morte da mãe há quatro anos deixou Emília Damico, na época com 23 anos, deprimida. Ela teve medo de compensar o luto devorando biscoitos, salgadinhos e tudo o mais que visse pela frente, como fazia em situações de angústia. Uma amiga lhe chamou a atenção, contando a história de outra colega, que engordara 10 quilos depois de uma perda semelhante. A revelação deixou Emília mais apreensiva: além de enfrentar a tristeza, ela temia engordar além da conta. A coordenadora de suporte de Tecnologia da Informação, natural do município de Santo André (SP), então com 75 quilos para seu 1,75 m de altura – o que significava seis quilos acima do peso ideal –, decidiu procurar um endocrinologista, indicado por uma conhecida que fazia dieta à base de remédios para emagrecer.

“Foi uma conversa objetiva. Eu disse que não estava contente com meu peso. Fiz um exame de bioimpedância, que mede o Índice de Massa Corporal (IMC) na própria clínica, e saí de lá com duas receitas: uma fórmula com Anfepramona, para ser tomada duas vezes ao dia, e outra com substâncias como laxantes, calmantes e diuréticos, entre outras”, conta Emília.

Efeitos colaterais dos inibidores de apetite

Logo na primeira semana, surgiram efeitos colaterais como tontura, escurecimento da vista, taquicardia, falta de ar e, no caso de Emília, uma curiosa ojeriza a doces. “Não conseguia chupar uma bala. Também não tinha vontade de comer. Passava 14 horas sem ingerir nada. Era um sacrifício engolir uma colher de arroz e uma de feijão na hora do almoço”, recorda a tecnóloga que, mesmo com os sintomas incômodos, emagreceu nove quilos em 15 dias.

No 20º dia do tratamento, apesar de contente com a silhueta, o desconforto das reações, somado a fortes dores no estômago, levou Emília a reduzir, por conta própria, a dosagem da medicação pela metade. “Tomava as cápsulas em dias alternados. Nos dias sem remédio, sofria com medo de sentir fome, à medida que se aproximava a hora das refeições”, lembra ela.

A estratégia durou 10 dias, até que Emília abandonou as pílulas para emagrecer. Mas a privação durou pouco – nos dois meses seguintes ela voltou a engordar e recuperou nove, dos 15 quilos perdidos. Temerosa de retomar os 75 quilos iniciais, Emília não teve dúvidas: retornou ao médico e obteve nova prescrição de Anfepramona.

O Brasil está acima do peso ideal

Assim como Emília, 43,3% da população brasileira adulta está acima do peso ideal, e 13% deste total sofre de obesidade, segundo levantamento do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde. Na ânsia de perder peso, muitas pessoas recorrem a consultórios médicos em busca de dietas, e nem sempre saem deles orientados a tentar mudar o estilo de vida por meio da reeducação alimentar e da prática de atividade física regular.

Pelo quarto ano consecutivo, o Brasil desponta na lista de países que mais consomem estimulantes, principalmente anorexígenos – moderadores ou inibidores de apetite compostos, em sua maioria, pelos derivados de anfetamina Dietilpropiona (ou Anfepramona), Femproporex e Mazindol. De acordo com o relatório de 2008 da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife), órgão ligado à ONU, Argentina, Brasil e Estados Unidos ocupam, respectivamente, as três primeiras posições da lista, e juntos abocanham 78% do consumo mundial de estimulantes.

“Anorexígenos como a Anfepramo­na e o Femproporex são drogas psicotrópicas de venda legal e controlada. O problema não é a falta de prescrição, e sim a indicação para fins estéticos. O consumo é maior entre pessoas que não têm perfil para usá-las do que por aqueles que sofrem de obesidade”, resume a psicofarmacóloga Solange Nappo, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Inibidores de apetite derivados de anfetamina atuam no sistema nervoso central reduzindo a sensação de fome, mas provocam uma série de efeitos colaterais, além de causarem dependência. Há ainda outros anorexígenos, como a Sibutramina e o Orlistate, com composição e mecanismos diferentes, sem potencial de dependência. Nos últimos cinco anos, o faturamento da indústria farmacêutica no Brasil quase dobrou com a venda de anorexígenos: saltou de R$ 198,9 milhões (5,8 milhões de unidades vendidas) em 2004 para R$ 348 milhões (9,6 milhões de unidades) no ano passado, segundo dados do IMS Health (empresa de consultoria internacional especializada na área farmacêutica).

“É um negócio muito lucrativo. Mas excesso de peso não significa obesidade. A população é induzida por uma cultura da magreza, mas a mulher brasileira não é anglo-saxã: nosso patrimônio genético é opulento por causa da herança portuguesa, africana e indígena. E como é mais difícil mudar a imagem corporal apenas com dieta, apela-se para as drogas. Medicamento não foi feito para uso estético”, adverte o Dr. Elisaldo Carlini, diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), cujo Levantamento Domiciliar Nacional revela que duplicou a procura feminina por anorexígenos entre 2001 e 2005.

Apesar de indicados para o tratamento de pessoas realmente obesas – IMC acima de 30 ou 40 – ou para quem tem complicações relacionadas (diabete, hipertensão arterial, colesterol alto, problemas articulares) ou quem já tentou sem sucesso emagrecer pela reeducação alimentar, os anorexígenos vêm sendo prescritos para quem está com apenas cinco ou oito quilos a mais. Uma pesquisa do Cebrid atesta que 92% dos consumidores de anfetaminas são mulheres, e que 60% das que fazem uso apresentam IMC abaixo de 30.

“O uso abusivo de anorexígenos ocorre por uma série de fatores. Por um lado, há pacientes que não querem ter trabalho para emagrecer e acham que a solução está em um remédio milagroso; por outro, existem médicos que não querem perder tempo e saem prescrevendo inibidores. A consulta para quem quer emagrecer é demorada: ouvimos a história do paciente para descobrir como é sua rotina. É necessária uma mudança comportamental. O remédio apenas não resolve”, explica o endocrinologista Henrique Lacerda Suplicy, professor da Universidade Federal do Paraná.

É longa a lista de efeitos colaterais provocados pelo uso indevido de anorexígenos: insônia, irritabilidade, agitação, dores de cabeça, taquicardia, aumento da pressão arterial, prisão de ventre, tremores, perda da libido, depressão, alucinações e surtos psicóticos, entre outros. Isso sem falar no inevitável efeito rebote – o corpo readquire os quilos perdidos e mais alguns extras – e no risco de ocorrer dependência física e psicológica.

Inibidores de apetite podem engordar

“Fazer uso de inibidores sem necessidade é receita certa para engordar. O metabolismo fica bagunçado porque a pessoa não sente fome e quase não se alimenta. O corpo entra em sistema de alarme e fica econômico no gasto energético. Quando o remédio é suspenso, come-se exageradamente, pois o organismo tende a compensar a escassez”, explica a doutora Fernanda Scagliusi, professora do Curso de Nutrição da Universidade Federal de São Paulo, campus Baixada Santista.

Uma descoberta assustadora obrigou Emília a suspender a medicação: durante um exame de rotina na empresa, no fim de 2005, foi identificado um caroço na tireoide. “Fiquei apavorada com a possibilidade de ser maligno. Parei imediatamente com os remédios, que tinham, entre as substâncias, um hormônio tireoidiano. Fiz uma ultrassonografia e, por sorte, era um tumor benigno”, diz, aliviada.

Alguns cuidados poderiam evitar sustos como o de Emília. Para a psicanalista Silvia Brasiliano, o fato de a fórmula ser individualizada faz o paciente achar que o remédio foi feito sob medida para ele. “O paciente também acredita que, por ser uma fórmula, trata-se de um medicamento natural. E o médico não adverte para o fato de o remédio poder causar dependência, além de não mencionar o efeito rebote. É comum a pessoa perder 10 quilos em três meses e ganhar 12 quilos nos dois meses seguintes”, explica a coordenadora do Programa de Atenção à Mulher Dependente Química (Promud), do Instituto de Psiquiatria da USP.

Embora a Anvisa proíba, desde 1998, a prescrição de fórmulas de anorexígenos com associações medicamentosas – ansiolíticos, diuréticos, hormônios ou extratos hormonais e laxantes, entre outros –, as receitas com tais combinações continuam circulando. “A Anvisa se compromete criando as leis, mas não há controle. O que ocorre é que são prescritas receitas separadas: uma destina-se às cápsulas com o anorexígeno, e a outra às demais substâncias. Eu já vi de tudo – desde receitas enviadas pelos correios até prescrições com nomes de pessoas diferentes”, diz o professor Suplicy.

A partir de janeiro de 2008 entraram em vigor medidas mais rígidas estabelecidas pela Anvisa para diminuir a prescrição e o consumo de anorexígenos no país: novo receituário (B2, de cor azul); a validade máxima da prescrição passou a ser de 30 dias a partir da emissão; e as doses diárias recomendadas foram fixadas para substâncias como Femproporex (50 mg/dia), Fentermina (60 mg/dia), Anfepramona (120 mg/dia) e Mazindol (3 mg/dia).

Além disso, começou a funcionar o Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) nas farmácias. Em todo o país, existem cerca de 70 mil farmácias e drogarias particulares – um terço delas está fora do controle on-line graças a uma decisão judicial – e há também 7.800 estabelecimentos de manipulação, cuja participação no SNGPC é voluntária. Apesar de ainda não ter sido concluído o balanço do primei­ro ano de implementação do SNGPC, a Anvisa assegura que já existem vários indícios de redução no consumo dos anorexígenos..

Como perder peso com saúde

O endocrinologista Márcio Mancini, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), dá algumas orientações pa­ra quem deseja perder peso com a ajuda de um profissional de saúde.

“Durante a consul­ta, o médico precisa conversar seriamente sobre a mudança de comportamento, a prática de atividade física regular e a reeducação alimentar. Isso é a base do tratamento, mas os remédios podem ser úteis desde que usados com responsabilidade e critério”, diz Mancini.

Outra alternativa segura para quem está acima do peso é procurar, antes de tudo, a orientação de um nutricionista. “Este profissional identifica as causas da alimentação inadequada como, por exemplo, problemas emocionais. O risco de se começar a fazer dietas com inibidores e perder a autoestima é grande: a pessoa não se sente mais capaz de tomar conta do próprio corpo e fazer as mudanças no estilo de vida. É como parar de fumar”, previne a professora Scagliusi.

As experiências de Emília com inibidores não a impediram de se iludir novamente com o sonho de emagrecer sem esforço: em 2006, ela conseguiu uma prescrição de Femproporex e, como seu corpo não reagiu, Emília apelou para as cápsulas de Sibutramina. “Nada fazia efeito. Foi o golpe de misericórdia. Parei de vez com as dietas à base de remédios”, desabafa Emília, que se casou em 2007.

Mas a felicidade do matrimônio se refletiu na balança: em novembro de 2008, ela chegou aos 77 quilos. Emagrecer virou de novo uma preocupação. Desta vez Emília decidiu investir no plano de reeducação alimentar proposto por uma nutricionista.

“Consegui criar novos hábitos. Passei a comer em horários certos, a levar frutas para o trabalho, beber bastante água e praticar exercícios. Quan­do sinto vontade de comer uma coxinha, por exemplo, não me privo. A diferença é que não como várias, nem todo dia”, explica Emília, que chegou a ter 10 quilos a menos em março deste ano.

O bom exemplo que vem de Goiás

Além de acatar as determinações da Anvisa, o governo de Goiás vem inovando no controle da prescrição de anorexígenos no Estado. Uma resolução da Secretaria Estadual de Saúde limitou a 600 o total de receitas B2 que cada médico pode prescrever por ano. O número foi estabelecido após discussões do Conselho Regional de Medicina e do Ministério Público Estadual.

“Havia muitas irregularidades. Chegamos a identificar um médico, sem especialização em endocrinologia, que emitiu 12 mil receitas entre 2007 e 2008. Não havia qualquer tipo de limitação. Criamos um parâmetro, e os profissionais que quiserem uma quantidade superior devem encaminhar uma justificativa à Vigilância Sanitária e esta, após análise, encaminha ao Conselho Regional de Medicina. De todos os pedidos feitos até hoje, nenhum foi deferido integralmente pelo CRM”, esclarece a farmacêutica Mirtes Bezerra, diretora da Vigilância Sanitária de Goiânia, onde foi criado um novo turno de trabalho na parte da noite só para conferir estes receituários (nomes, doses, prescrições etc.).

Apenas em Goiânia houve uma redução de 20% na prescrição de receitas magistrais (fórmulas de manipulação). No entanto, houve aumento equivalente na venda de anorexígenos em farmácias e drogarias.

“Percebemos que o consumo migrou para os medicamentos industrializados, ou seja, apesar da implementação SNGPC, não houve redução no consumo desse tipo de medicamento. Além disso, o sistema ainda precisa ser aprimorado para cruzar as informações. Hoje, para driblar uma dosagem máxima recomendada, o médico passa duas prescrições. O paciente vai à farmácia em dias diferentes para aviar as receitas, e o SNGPC não acusa a irregularidade”, revela a diretora. A prescrição de anorexígenos por qualquer médico é permitida por lei, mesmo que ele não seja especialista em Endocrinologia.

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