O Misterioso Sr. Malkovich
Por trás do rosto famoso do astro do cinema internacional e ator aficionado de teatro, quem é o verdadeiro John Malkovich?

Seu poder de atração é perturbador e enigmático, reforçado por um olhar magnético. Ele fala baixo, como se cochichasse... John Malkovich é um homem que cabe em muitas fantasias. Entre o cinema de arte e as produções comerciais (Império do Sol, A troca), o mais europeu dos atores americanos (ele tem ancestrais croatas, escoceses, franceses) sempre representou personagens à beira do grotesco. Esta conversa com Seleções aconteceu em Paris, no período em que atuava como diretor da versão para o palco de Ligações perigosas,* drama que foi seu passaporte para o estrelato internacional quando, em 1988, trabalhou no filme de mesmo nome dirigido por Stephen Frears.
P: Como você se descreveria como diretor?
R: Eu me comparo a um treinador de futebol que se restringe a delinear a jogada da equipe. Os atores é que têm de representar, não eu. Portanto, não me preocupo em lhes dizer como criar seus papéis. Deixo‑os livres para seguirem os próprios instintos. E eles o fazem com muita inteligência.
P: Você já disse várias vezes que é autodidata. Acha que esse é um ponto forte?
R: Acho que nasci assim! Ir à escola e aprender as lições sempre esteve além da minha capacidade. Como se aquilo fosse uma linguagem completamente diferente. Desde os 5 ou 6 anos eu soube que teria de entender tudo sozinho.
P: Por quê?
R: Meu pai decidiu criar os cinco filhos assim. Sabíamos a hora de ir para a cama, de levantar, de comer... sem ninguém mandar. Talvez uma liberdade tão imensa seja pressão demais para uma criança, mas tudo bem, sobrevivi! Além do mais, o destino dos seres humanos é não ter ninguém que possa resolver seus problemas. Sei que a maioria discorda e acha que cabe ao Estado cuidar de tudo. Eu, não.
P: A raiz europeia foi um fator importante na sua formação?
R: Meus avós não sabiam falar inglês, mas não queriam que aprendêssemos servo‑croata. Naquela época, todos queriam se tornar americanos a qualquer preço. Mas sempre fui fascinado pela cultura europeia. Por isso, passei 25 anos, quase metade da minha vida, na Europa.
P: Que valores seus pais lhe passaram e você acha úteis até hoje?
R: Que cabe a mim – e só a mim – avaliar o que faço na vida. Que sempre devemos nos esforçar para melhorar. É melhor ser assim, porque, de qualquer forma, todos vamos mesmo morrer um dia! (Ele dá uma risadinha.)
P: Essa possibilidade o assusta?
R: Não, sei que um dia me reunirei com meu irmão e minha irmã que recentemente deixaram este mundo. Mas levo uma vida belíssima e espantosa, conheci pessoas incríveis. Chegará a época de deixar que outros tenham a oportunidade.
P: Desde que apareceu como Deus ao lado de George Clooney naquele comercial de uma marca de café famosa, você quase alcançou mais prestígio pelo comercial do que pelos papéis em filmes. O que acha disso?
R: Nada. Nunca me achei interessante como assunto. E isso antes mesmo de me tornar uma pessoa dita famosa.
P: Entre os cerca de 70 filmes que fez, qual significa mais para você?
R: Ligações perigosas, O céu que nos protege... mas meus primeiros papéis como ator também me causaram grande impressão. Porque foi com eles que entendi que minha vida seria diferente. Seja como for, parte de mim sempre preferiu o exílio.
P: O que o motiva agora?
R: A curiosidade. Alcançar outras pessoas, diversificar os interesses... Se sinto vontade de fazer alguma coisa, faço. (Ele chegou a lançar uma coleção de roupas.) Por isso não tenho nenhum desejo secreto ou não realizado!
* Baseada no romance de Choderlos de Laclos. Adaptação para o palco de Christopher Hampton.
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