O poder das palavras para os bebês

Para romper o ciclo da pobreza, as crianças precisam de algo tão gratuito e abundante quanto o ar. É o que um programa extraordinário lhes oferece.  
 

Os bebês precisam de certos itens básicos para começar a vida: leite materno ou equivalente; amor, atenção e tempo para brincar; roupas limpas; e um lugar seguro para dormir.

No mundo inteiro, com renda alta ou baixa, nos desertos ou nas florestas, em arranha-céus ou no campo, pais amorosos dão aos filhos esses recursos essenciais. Mas os pesquisadores da educação descobriram outra coisa de que os bebês precisam e não obtêm da mesma forma em todos os níveis de renda. O elemento que falta não é uma mesa de trocar fraldas de cerejeira que vá ficar para os netos, uma cadeirinha de couro com porta-copo para o carro nem um carrinho ergonômico escandinavo (e, de qualquer modo, nada disso está ligado ao sucesso na vida). Ele não custa nada e é tão abundante quanto o ar, mas sua falta devastadora prejudica o desenvolvimento do cérebro.

Muitas crianças americanas de baixa renda sofrem de escassez de palavras – músicas, versinhos, livros de histórias, conversa fiada, papos cotidianos. Como assim? Todos os pais dão instruções: “Está na hora do banho”, “Vamos vestir o pijama”. Nas famílias de baixa renda, em que, muitas vezes, os pais têm menos instrução e acesso limitado a orientação educacional, a coisa costuma ficar nisso; já nas famílias mais ricas, as instruções são apenas uma pequena parte de uma conversa permanente. “Vamos vestir o pijama. Que pijaminha macio! Qual a cor do pijama? Amarelo! E olhe só os bichinhos do pijama. Que bichinhos são esses? Patinhos! E como o patinho faz? Quá, quá, quá...” Todo esse blablablá não é bobagem; ele constrói a inteligência. Mas as palavras que vêm do rádio, da televisão ou dos pais e cuidadores conversando no celular não servem – e esse achado merece a atenção de todos os pais.

Em muitas famílias de baixa renda, pais amorosos e carinhosos podem se esforçar ao máximo para atender a todas as outras necessidades básicas sem saber que seu relativo silêncio – e a falta de histórias na hora de dormir, livros ilustrados e canções de ninar – prejudica os bebês.

A partir da década de 1990, os pesquisadores das universidades Rice e Columbia publicaram achados esclarecedores sobre quantas palavras as crianças ricas e de classe média ouvem por dia. Com técnicas de entrevista e aparelhos de rastreio como “medidores de palavras”, eles verificaram que, nos três primeiros anos de vida, as crianças mais ricas ouvem 30 milhões de palavras a mais.

O déficit das crianças desfavorecidas tem consequências tristes e espantosas. Mais que todos os outros fatores da vida das crianças pobres, a diferença de 30 milhões de palavras foi relacionada ao mau desempenho escolar, à dificuldade de aprender a ler, ao abandono do ensino médio e à incapacidade de se preparar para uma carreira e ter sucesso profissional.            

Tammy Edwards, de 31 anos, cresceu no litoral sul de Long Island, na reserva de Poospatuck, uma aldeia indígena pobre com cerca de cem famílias da nação unkechaug, que lembra uma cidadezinha de praia: ruas asfaltadas e quintais cheios de mato se misturam às dunas de areia e trechos de mata litorânea fechada. Imensos bordos e pinheiros farfalham com a brisa do mar. No verão, a cidade fica cheia de crianças descalças segurando picolés e gente descansando na varanda. Mas também é uma cidade pobre, com muito desemprego; mais de um quarto das famílias está abaixo da linha de pobreza. As tabacarias dominam o varejo, a maioria delas instalada em trailers, e alguns homens, em desespero, trabalham como autônomos, abordando carros para vender maços de cigarros. Quatro ou cinco famílias estacionam suas motorhomes no mesmo terreno, onde também criam os filhos.

Tammy Edwards é uma moça séria e educada que tem dois empregos e cuida do pai idoso e da filha pequena em seu trailer. Quando fica exausta, ela para um pouco e dá uma olhada pela janela talvez calculando rapidamente quantas tarefas a aguardam antes de anoitecer. Quando lhe resta um pouco de senso de humor, por exemplo, ao ver a filha Ayanah de 5 anos dançar, o rosto de Tammy se ilumina com um sorriso enorme, incrédulo e feliz.

Ela está acostumada a ficar sozinha. “Minha mãe morreu quando eu tinha 11 anos, e meu pai não sabia cuidar de mim direito”, diz ela, que cresceu se mudando de casa em casa na reserva, onde todos se chamam de “primo”; na verdade, seu avô era chefe. “A nação unkechaug é a minha família”, diz ela.

Mas, embora tenha se sentido amada na infância, Tammy, como milhões de crianças americanas, ouvia poucas palavras.

“Não tínhamos muitos livros”, conta ela. “Havia um programa de Natal para as crianças da reserva e uma vez ganhei uma enciclopédia. Fiquei tão feliz! Foi como ganhar um monte de dinheiro. Depois vinha gente me pedir os livros emprestados para fazer alguma pesquisa. Eu gostava de emprestar. Terminei o ensino médio e fiz um curso de contabilidade médica e outro de enfermagem doméstica. Cheguei a começar a faculdade, mas minhas notas não eram boas. Eu tinha pensado em ser professora.”

Tammy tem grandes sonhos para Ayanah, uma menina cheia de vida cujo nome americano nativo é Estrela Brilhante. E ela tem sorte, porque foi ajudada.

“Aos 18 meses, toda criança ainda tem potencial para inventar o Facebook”, afirma Sarah E. Walzer, diretora-executiva de uma entidade sem fins lucrativos extraordinária chamada Parent-Child Home Program (PCHP, Programa Lar de Pais e Filhos). Ex-assessora jurídica do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, Sarah dedicou a carreira a reduzir as desvantagens das crianças pobres.

Ela explica que, no programa, especialistas em alfabetização fazem visitas domésticas para ajudar pais e filhos pequenos a reduzir o déficit de palavras, porque, na época em que a criança entra na escola, pode ser tarde demais.

“Vejamos um menininho em seu primeiro dia no jardim de infância”, diz Sarah. “A professora diz à turma: ‘Peguem um livro na estante e levem para a carteira.’ Mas esse menino nunca pegou um livro. Não sabe como usá-lo, como virar as páginas. Não sabe como obter prazer com aquilo. Já está prejudicado em seu primeiro dia na escola.”

E a partir daí, a situação só piora.

“Os dados mostram que a criança que se atrasa no jardim de infância se atrasará no 3º ano, no 6º ano e corre um grande risco de não completar o ensino médio”, afirma ela.

Para combater esse atraso, alguns estados americanos tornaram obrigatória a escola maternal para crianças de 4 anos. Mas as crianças de 4 anos de baixa renda também estavam mal preparadas para o maternal. Programas com financiamento federal, como Head Start (“Bom começo”), ajudam crianças a partir dos 3 anos, mas, para alarme dos especialistas, até essas crianças estavam abaixo do padrão nacional.

Hoje, é amplamente aceito que a melhor época para começar a interação verbal – com versinhos, músicas e livros ilustrados – é o nascimento. A Academia Americana de Pediatria afirmou recentemente que a recomendação de leitura precoce deveria fazer parte de todos os exames periódicos de saúde do bebê.

“Nosso trabalho é chegar antes que a defasagem vocabular se amplie”, diz Sarah. Para deixar os pais à vontade, os especialistas em alfabetização precoce costumam ser da mesma comunidade; 25% deles são pais formados pelo programa. Eles fazem até duas visitas por semana às famílias durante dois anos, com a ideia de se divertirem juntos, usando, além dos livros, brinquedos e quebra-cabeças oferecidos pelo programa, tudo o que estiver disponível. O visitante pode mostrar como separar a roupa suja pode se tornar uma experiência de aprendizado e como a ida ao supermercado não termina sem dar nome a frutas e legumes, formas e cores.

É uma estratégia simples que dá certo: “As crianças que passam por nosso programa terminam o ensino médio numa proporção 20% maior do que o grupo nacional correspondente”, diz Sarah. Hoje, o programa atende a 7 mil famílias em 12 estados. Nova York, onde mora Tammy Edwards, é um deles.

Leia o artigo completo na edição de janeiro da revista Seleções.

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