O que os homens precisam saber sobre a fibrilação atrial

Eis como combater um problema cardíaco grave e crescente
 

Na manhã de 23 de janeiro, Eliseu Preda, de São Paulo, 25 anos, estava em uma reunião de trabalho quando começou a sentir uma forte dor de cabeça. Pediu licença e foi para o banheiro tentar se acalmar. A dor, cada vez mais forte, persistiu, e Eliseu achou melhor procurar o hospital. “Fui atendido por um neurologista, que nada detectou de errado. Pensando se tratar de uma simples dor muscular, me deram uma injeção analgésica e me mandaram para casa”, conta ele.

Mas a dor não dava trégua. À noite, Eliseu decidiu voltar ao hospital. “Dessa vez, me deram uma injeção na nuca, e de novo voltei para casa.” No dia seguinte, lá estava Eliseu novamente no hospital, com a insistente e terrível dor de cabeça. “Somente então fizeram uma tomografia do cérebro e o resultado mostrou que eu tivera um acidente vascular cerebral.”

Eliseu foi transferido de hospital e permaneceu na UTI por três dias. “Os médicos me disseram que eu poderia entrar em coma a qualquer momento.”  Ele passou por uma bateria de exames, com resultados normais. “Não tenho hipertensão, nem colesterol alto, nem diabetes. Além disso, não fumo nem bebo.”

Apesar da pouca idade de Eliseu, os médicos atribuíram o acidente vascular cerebral (AVC) que ele sofreu à fibrilação atrial. “Vou ter de fazer tratamento para o resto da vida, continuar tomando a medicação (aspirina para afinar o sangue e sinvastatina para prevenção do colesterol alto) e fazer acompanhamento médico a cada quatro meses.” Apesar de a prática regular de exercícios físicos fazer bem à saúde, os médicos de Eliseu disseram que, se ele não fosse sedentário, o quadro poderia ter sido pior.

A fibrilação atrial é um descontrole elétrico do ritmo de bombeamento dos átrios, as câmaras superiores do coração. Em vez de bombear com firmeza e ritmicamente, os átrios se contraem aleatória e rapidamente, e o fluxo sanguíneo se reduz.

O fenômeno ainda não foi bem compreendido, nem mesmo pelos cientistas. Os exercícios, tão importantes no estilo de vida saudável, quando em excesso podem provocá-la ou, em alguns casos, piorá-la. “A fibrilação atrial pode ocorrer em qualquer idade, porém é mais frequente em pessoas com mais de 65 anos e em hipertensos, chegando a afetar 20% a 30% de pessoas acima de 75 anos. É um número muito alto”, diz a Dra. Olga Ferreira de Souza, presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro (Socerj). “As pessoas estão mais estressadas, obesas e hipertensas, por isso se espera uma epidemia da doença para os próximos anos”, acrescenta.

As estatísticas têm deixado os médicos perplexos. De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, a idade média dos homens com fibrilação atrial é de 66,8 anos; nas mulheres, a idade é de 74,6 anos. Embora os especialistas desconfiem de tudo – do tamanho e da força dos átrios à fibrose (enrijecimento ou cicatrizes surgidos com a idade) do tecido cardíaco como possíveis causas da fibrilação atrial –, nada disso explica a diferença de idade entre os sexos.

O que os médicos sabem é que há três tipos de fibrilação atrial: a paroxística, que ocorre em surtos; a persistente, que tem uma duração de mais de sete dias; e a permanente, que é a fibrilação atrial crônica, quando a reversão não é mais possível. “A fibrilação paroxística, ou isolada, pode acometer uma pessoa uma vez e não se repetir em muitos anos”, diz a Dra. Olga.

Qualquer que seja o tipo, a fibrilação atrial quintuplica o risco de AVC. “O AVC causado por fibrilação atrial é mais grave e mais incapacitante do que o AVC por aterosclerose. Por outro lado, o AVC causado por fibrilação atrial pode ser prevenido por medicações anticoagulantes”, acrescenta a presidente da Socerj.

Por quê? O sangue que seria normalmente bombeado para fora do átrio pode se acumular e formar coágulos capazes de se deslocar até o cérebro. “Cerca de 15% dos AVCs são causados por fibrilação atrial”, diz o Dr. Marc Gillinov, diretor cirúrgico do Centro de Fibrilação Atrial da Clínica Cleveland, nos Estados Unidos. A fibrilação atrial crônica, mesmo quando não há AVC, enfraquece o músculo cardíaco e transforma o portador em candidato a insuficiência cardíaca.

Como saber se corremos risco? Entre os sintomas, estão sensação de tremulação no peito ou palpitação, falta de ar, fadiga ou fraqueza, dores no peito ou confusão. Qualquer desses sintomas deve nos levar ao médico, que em geral diagnostica a fibrilação atrial com um eletrocardiograma comum ou com o uso de um monitor cardíaco portátil, caso o primeiro não seja conclusivo. Quem tem fibrilação atrial precisa tomar cuidado com os gatilhos, como o excesso de cafeína, álcool e estresse, que podem desencadear arritmia.

Quem recebe o diagnóstico de fibrilação atrial não precisa entrar em pânico; há diversas opções eficazes de tratamento.

Medicação: Em geral, os pacientes recebem dois medicamentos. O primeiro ajuda a desacelerar o coração e reduzir os sintomas, mesmo que a arritmia continue presente. “Para reversão da arritmia há os medicamentos antiarrítmicos. O tratamento anticoagulante também deve ser usado nos pacientes com fibrilação atrial de qualquer tipo e que apresentam fatores de risco para AVC ou fenômenos embólicos (liberação de coágulos pelo corpo)”, explica a Dra. Olga.

Ablação por cateter: Como em uma angiografia, o médico introduz um cateter até o coração por uma veia na virilha. A ablação cauteriza o tecido anormal capaz de provocar os sinais elétricos irregulares atingindo-o com uma corrente elétrica.

Cirurgia: Está indicada apenas em pacientes que serão submetidos a uma cirurgia cardíaca por outro motivo (troca ou plastia de válvula).

Portanto, caso sinta uma tremulação incomum no peito, procure um médico. O tratamento só será eficaz se você o fizer.

Leia o artigo na íntegra na edição de julho da revista Seleções.

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