O que podemos aprender com as escolas da Finlândia?

As conquistas do país na educação podem levar outras nações a fazer o dever de casa.
 
Era fim de semestre na Escola Abrangente Kirkkojärvi, na cidade de Espoo, perto de Helsinque, e Kari Louhivuori, professor veterano e diretor da escola, decidiu tentar algo extremado. Um dos alunos, um menino albanês do Kosovo, se atrasara muito na grade de aprendizagem. A equipe de educadores especiais da escola – que inclui assistente social, enfermeira e psicóloga – verificou que a culpa não era da preguiça. Então, Louhivuori fez o menino repetir o ano, medida tão rara na Finlândia que está praticamente obsoleta.
 
Na última década, a Finlândia melhorou imensamente em leitura, matemática e ciências, em boa parte por confiar nos professores para que façam o que for necessário a fim de transformar jovens vidas. Besart Kabashi, esse menino de 13 anos, recebeu algo semelhante à educação da realeza.
 
“Fiz de Besart o meu aluno particular”, contou-me Louhivuori. Besart ficava sentado ao lado da mesa de Louhivuori, abrindo livros, lendo o primeiro devagar, depois outro e depois devorando-os às dezenas. No fim do ano, o refugiado do Kosovo dominara a língua cheia de vogais do país adotivo e percebera que podia, sim, aprender.
 
Alguns anos depois, já com 20 anos, Besart, que abriu uma oficina mecânica, apareceu na festa de Natal da escola Kirkkojärvi com uma garrafa de conhaque de presente para Louhivuori e, com um grande sorriso, lhe disse: “O senhor me ajudou.”
 
“Ora, aquilo não foi nada”, me contou Louhivuori. “É apenas o que fazemos todos os dias: preparar as crianças para a vida.”
 
Nada de provas

 


Essa história de uma única criança resgatada deixa vislumbrar as razões para o recorde do sucesso educacional desse país nórdico. “O que for preciso” – esse é o moto que impulsiona não só os 30 professores da Kirkkojärvi como todos os 62 mil educadores da Finlândia – profissionais selecionados entre os 10% melhores formandos do país para fazer o mestrado em educação.
 
Muitas escolas são tão pequenas que os professores conhecem todos os alunos. Se um método falha, os professores consultam os colegas para experimentar outro caminho. Parecem adorar o desafio. Quase 30% das crianças da Finlândia recebem algum tipo de auxílio especial. Ano passado, a escola onde Louhivuori ensina atendeu a 240 alunos, do primeiro ao nono ano; mais da metade dos seus 150 alunos do curso elementar era de imigrantes.
 
“Filhos de famílias ricas com alto nível de instrução podem ser educados por professores estúpidos”, disse Louhivuori, sorrindo. “Tentamos pegar os alunos fracos. Isso está arraigado em nosso pensamento.”
 
A transformação do sistema educacional finlandês começou há cerca de 40 anos como principal combustível da recuperação econômica do país. Os educadores só souberam que o sucesso era tão grande em 2000, quando os primeiros resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA, na sigla em inglês), prova padronizada aplicada a alunos de 15 anos em mais de 40 lugares do mundo, revelaram que, em termos mundiais, os jovens finlandeses eram os melhores leitores. Três anos depois, eles lideraram em matemática. Em 2006, a Finlândia ficou em primeiro lugar nas ciências. Mas, como diz Timo Heikkinen, diretor da escola Kallahti, em Helsinque: “Quem só mede as estatísticas não vê o aspecto humano.”
 
Não há provas obrigatórias e padronizadas na Finlândia, a não ser o único exame no final do último ano do curso secundário. Não há classificação nem comparação entre alunos, escolas e regiões. As escolas da Finlândia são públicas. Os funcionários dos órgãos do governo que as administram são educadores, não empresários nem políticos de carreira.
Toda escola tem as mesmas metas nacionais e emprega educadores com o mesmo tipo de treinamento universitário. O resultado é que as crianças finlandesas têm boa probabilidade de obter educação da mesma qualidade, não importa onde morem. A diferença entre os melhores alunos e os piores é a menor do mundo. “Igualdade é a palavra mais importante na educação finlandesa. Nisso, todos os partidos políticos concordam”, disse Olli Luukkainen, presidente do sindicato dos professores da Finlândia.
 
Noventa e cinco por cento dos finlandeses terminam o curso secundário, teórico ou técnico, proporção que fica 19 pontos percentuais acima dos Estados Unidos, 21 acima da Suécia e 14 acima da Itália, segundo pesquisa da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) de 2011. (No Brasil, que não participou da pesquisa, segundo o Censo de 2010, apenas 31,79% concluem o ensino médio.) Mas a Finlândia gasta cerca de 30% menos por aluno do que os Estados Unidos. Uns 66% desses alunos vão para o curso superior, a proporção mais alta da União Europeia. “Preparamos as crianças para aprender a aprender, não para fazer provas”, disse Pasi Sahlberg, ex-‑professor que hoje está no Ministério de Educação e Cultura da Finlândia.
 

Ligações fortes

 


Num dia de abril, na escola Kirkkojärvi, Maija Rintola parou diante da barulhenta classe de 23 crianças de 7 e 8 anos. Ela sorriu e ergueu a mão inclinada – o sinal da “girafa calada”, de eficiência comprovada ao longo do tempo, e que dizia às crianças que ficassem quietas. Os alunos tinham acabado de voltar do intervalo de 15 minutos de brincadeiras ao ar livre entre as aulas. “Brincar é importante nessa idade”, diria Maija mais tarde. “Damos muito valor às brincadeiras.”
 
Os alunos tiraram das mesas saquinhos de botões, feijões e cartões plastificados numerados de 1 a 20. A ajudante da professora distribuiu tiras amarelas que representavam dezenas. No quadro branco interativo na frente da sala, Maija mostrou à classe os princípios da contagem de base dez. Depois, percorreu a sala, ajudando cada criança. As que terminaram antes montaram um quebra-cabeça avançado. Quarenta minutos depois, chegou a hora do almoço.
 
É raríssimo ouvir falar de crianças famintas ou sem teto. A Finlândia oferece três anos de licença-maternidade e subsidia a creche para os pais e a pré-escola para todas as crianças de 5 anos, em que se dá ênfase às brincadeiras e à socialização. As escolas fornecem alimentação, assistência médica, orientação psicológica e serviço de táxi, se necessário.
 
Ainda assim, Maija disse que, em agosto, início do ano letivo no hemisfério norte, o nível de leitura dos alunos era muito heterogêneo. Em abril, quase todos liam e a maioria já escrevia. Os meninos foram atraídos para a literatura com livros como Kapteeni Kalsari (Capitão Cueca). A professora de educação especial da escola se uniu a Maija para ensinar cinco crianças com problemas comportamentais e de aprendizagem. A meta nacional dos últimos cinco anos foi pôr todas as crianças na escola oficial.
 
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