Julho de 2012. Daqui a alguns dias, o mundo todo vai estar de olho na capi­tal do Reino Unido para acompanhar a cerimônia de abertura das Olim­píadas de Londres, quando cerca de 10.500 competidores de mais de 200 países vão disputa 302 medalhas de ouro oferecidas em 26 esportes olímpicos.
 
As Olimpíadas são o maior e mais popular espetáculo da Terra. Mesmo assim, acredito que seria ainda melhor para os bilhões de telespectadores, se muitos esportes fossem retirados da competição oficial e se mudássemos radicalmente as regras de outros.
 
Pode parecer desnecessário re­formular um evento global tão bem-sucedido, mas isso faz parte das tradições da história olímpica. As cinco disciplinas espor­tivas essenciais – atletismo, natação, ginástica, esgrima e ciclismo – esti­veram presentes em todas as edições das Olimpíadas desde 1896. Outros esportes, porém, vêm e vão. Croqué e esportes aquáticos moto­rizados, por exemplo, só estiveram presentes uma vez. O softball e o bei­sebol surgiram nas Olimpíadas nos anos 1990 e desapareceram em 2008. O golfe foi esporte olímpico em 1904 e 1908, e voltará a sê-lo em 2016. O rúgbi também vai voltar em 2016, depois de ter estado fora desde 1924.
 
Existem, portanto, precedentes claros, além de muitos motivos, para dar uma boa chacoalhada na lista de esportes olímpicos.
Entre os motivos práticos para uma mudança está o crescente domínio das Olimpíadas como um evento televisivo. O dinheiro das emissoras e dos patrocinadores é fundamental para o sucesso do evento – e as exigências dos canais por in­tervalos comerciais maiores e mais fre­quentes requerem esportes mais rápi­dos, vigorosos e de curta duração.E ainda há as exigências de uma au­diência televisiva mundial que pode não conhecer os jogadores ou não entender as regras de muitas modali­dades que chegam aos seus lares pela telinha. Acima de tudo, as pessoas querem se divertir.
 
O lema olímpico em latim é “Citius, Altius, Fortius” (mais rápido, mais alto, mais forte). Ele descreve o esforço, a luta para alcançar o que há de melhor. E é exatamente isso que as ideias a seguir – algumas radicais, excêntricas ou mesmo malucas – pretendem.
 
Vamos nos livrar de…
 
ADESTRAMENTO
É fácil entender uma corrida ou apre­ciar a complexidade dos exercícios da ginástica olímpica. Mas as confusas sutilezas do adestramento de cavalos pretendem revelar a habilidade do ca­valeiro e o bom treinamento do animal. Em outras palavras: é como uma exi­bição de cães de raça, só que usando cavalos. E, apesar de a imagem de um cavaleiro imaculadamente vestido sobre um cavalo magnífico ser muito agradável, é tão irrelevante para um evento esportivo moderno quanto o dono de um cão passeando com o seu cachorro na coleira durante uma competição.
 
PENTATLO MODERNO
O pentatlo moderno envolve cinco disciplinas: esgrima, tiro com pistola, natação, hipismo com obstáculos e corrida. Foi criado por um historiador e pedagogo francês, o barão Pierre de Coubertin, idealizador das Olimpíadas modernas, em 1896. A ideia era testar a capacidade de um soldado da cava­laria do século 19. Mas não estamos mais nesse século e não existem mais soldados da cavalaria! Deveria sair.
 
LUTA GRECO-ROMANA
A dica está no nome: “greco-romana”. Assim como o lançamento de disco e de lança, a luta greco-romana está entre os esportes que datam do início das Olim­píadas clássicas, cerca de 2.700 anos atrás. Mais de 50 nações competem nesta modalidade de luta olímpica. No entanto, se criássemos as Olimpíadas hoje e procurássemos a melhor maneira de apresentar uma luta, certamente dei­xaríamos a luta greco-romana para os antigos gregos e romanos.
 
NADO SINCRONIZADO
Ah, por favor, isso não é esporte! Pas­sar maquiagem, escolher um maiô com brilho e sorrir deviam ser irrelevantes numa competição olímpica. Se temos nado sincronizado, também devería­mos ter pole dance. E, sim, dançarinas de pole dance já reivindicaram a pre­sença do “esporte” nas Olimpíadas.
 
FUTEBOL
Este é o esporte mais popular do mundo, porém sua versão olímpica não consegue satisfazer as expecta­tivas de sua audiência televisiva.
 
Atletas olímpicos deveriam ser o que há de absolutamente melhor em seu campo de ação; no entanto, as seleções mas­culinas de futebol são compostas de jogadores com menos de 23 anos de idade, e mais uns três participantes que já passaram dessa idade. Então, muitos, se não a maioria das grandes estrelas do esporte, não estarão par­ticipando da competição.
E, apesar de uma medalha olímpica ser a maior conquista esportiva de to­das, uma medalha de ouro olímpica fica, na melhor das hipóteses, em quarto lugar para um jogador de fu­tebol, depois da Copa do Mundo, da Liga dos Campeões e dos principais campeonatos regionais.
 
Se o futebol realmente permanecer, ele deve seguir o exemplo do rúgbi, que voltará às Olimpíadas em 2016 em seu formato Rugby Sevens. Sete jogadores, em vez de 15, competem em partidas de 14 minutos de duração, em vez de 80 minutos. O resultado é uma competição mais veloz e emo­cionante, na qual um torneio inteiro pode ocorrer em um único estádio em apenas dois ou três dias.
 
O mesmo pode acontecer com o fu­tebol. Jogos com cinco de cada lado, de no máximo 20 minutos de duração, em uma arena fechada. Seria uma ex­periência intensa para os jogadores, emocionante para os torcedores e exclusivamente olímpica.
 
Ou poderíamos seguir o que diz o presidente da FIFA, Sepp Blatter, que, em setembro do ano passado, solicitou que o futebol de praia fosse introdu­zido nas Olimpíadas de 2016. É claro que ele estava simplesmente pedindo que essa modalidade fosse incluída na lista de esportes olímpicos, assim como o futebol convencional. Mas, que tal irmos à praia, por enquanto, e esquecermos o jogo na grama?
 
Vamos reformular estes esportes...
 
CICLISMO EM PISTA
O ciclismo tem tudo o que se pode que­rer de um esporte olímpico: velocidade, emoção e habilidade atlética. Mas eu não consigo ver a investida individual, porque os ciclistas teimam em ficar um atrás do outro, aproveitando a menor resistência do ar à sua frente, antes da arrancada final até a linha de chegada. Uma corrida que deveria ter como ponto alto a velocidade é inacreditavel­mente lenta ao longo da maior parte de sua extensão, para só no fim dois com­petidores pedalarem lado a lado.
 
É um absurdo! Usain Bolt não gasta os primeiros 85 dos seus 100 metros caminhando lentamente. Michael Phelps não fica parado na piscina por alguns minutos antes de começar a nadar. Eles atingem a velocidade máxima do início ao fim. Os ciclistas deveriam fazer o mesmo.
 
Deveria haver também um tempo mínimo obrigatório, ou algo que os fizesse competir da mesma maneira que os corredores, nadadores e rema­dores: lado a lado em uma linha reta. Dessa forma, no verdadeiro estilo olímpico, iríamos descobrir quem é o ciclista mais rápido.
 
BOXE
Um dos poucos esportes olímpicos que ainda mantêm a velha tradição amadora é o boxe. Os lutadores são limitados a apenas quatro rounds de dois minutos cada, deixando o torneio mais rápido de ser completado. Além disso, os lutado­res usam protetores acolchoados para a cabeça, a fim de evitar lesões cerebrais de longo prazo causadas pelos golpes repetidos que levam. E é aqui que as Olimpíadas podem ser pioneiras. Se os boxeadores dese­jam lutar com mais segurança, eles deveriam fazer diferente: lutar sem luvas. Esse tipo de luta é proibido na maior parte da Europa, mas sabemos há muito tempo que o motivo de os boxeadores se machucarem está exa­tamente no fato de usarem luvas.
 
As luvas possibilitam golpes muito mais fortes, o que faz com que o cé­rebro de quem é atingido se choque repetidamente contra a parte interna do crânio, configurando o aspecto mais perigoso do esporte. Sem as luvas, a capacidade de golpear fica radicalmente limi­tada, pois um soco forte no crânio do adversário quebra os ossinhos da mão do lutador que deu o soco! O boxe sem luvas pode ter uma repu­tação selvagem, não civilizada, e até parecer uma opção esquisita para um esporte olímpico. Porém, a menos que o boxe convencional seja banido, o boxe sem luvas é uma opção bem melhor para os castigados cérebros dos lutadores.
 
TIRO
Deve existir algo mais chato de se ver do que um homem de meia-idade usando óculos, coberto de pedaços de cartolina, atirando em um alvo parado, preto e branco – mas eu não consigo imaginar o que seja. O tiro precisa de um bom estímulo. Então por que não atualizar as coisas?
 
Poderíamos ter competições de equipes de paintball que testam a capacidade de tiro, rastreamento e camuflagem. Uma competição séria, de amplo alcance, de atiradores de elite (contra bone­cos, em vez de alvos humanos, claro), iria prender a atenção de muita gente.
 
Por fim, por que não transformar videogames de tiro, especialmente autorizados pelos criadores de Call of Duty e Grand Theft Auto, em dis­ciplinas olímpicas? O ex-piloto de Fórmula 1 David Coulthard já pilotou uma Mercedes verdadeira contra jo­gadores de PlayStation que “dirigiam” o mesmo carro pelo mesmo circuito. Por que as Olimpíadas não podem explorar um princípio semelhante? O ponto de vista do competidor na tela seria uma atração e tanto na TV, e diversos viciados em videogame ao re­dor do mundo também iriam assistir.
 
TÊNIS
O tênis, como o futebol, precisa de alguma coisa para se des­tacar nas Olimpíadas – neste caso, dos quatro torneios de Grand Slam. Então que tal aplicar também o princípio de diminuição? Se as par­tidas completas de três e cinco sets fossem substituídas por competições de três tie-breaks, os espectadores poderiam ver competições super-rápidas e intensas em uma única sessão.
E por que parar por aí? O espírito do barão de Coubertin ficaria encantado se seus sucessores banissem os que gemem e gritam durante o saque. Essa prática não esportiva distrai os oponentes, e os espectadores detestam.
Vamos reformular o serviço também: limitar os jogadores a um saque apenas, sem a possibilidade da primeira falta, ou mover a linha de serviço um me­tro para trás da linha de base. Haveria menos pontos, mas rallies mais longos: um benefício duplo para os torcedores.
 
E finalmente…
Que tal dar a todos o mesmo equipamento? É um princípio que iria revolucionar o ciclismo, o tiro, o remo e a vela, para citar apenas quatro es­portes olímpicos.
 
Em Pequim 2008, os nadadores que usaram a roupa Speedo LZR, que di­minui a resistência na água, levaram enorme vantagem sobre aqueles que não a usaram. A roupa foi então banida de competições internacionais, entre elas a de Londres 2012. Poderíamos pensar numa alternativa: tornar materiais e equipamentos de ponta disponíveis para todos.
 
O princípio é simples: as Olimpía­das devem ser um teste para atletas, e não designers e técnicos. Nelas deve­ria haver esportes nos quais o pobre tem chance de competir nas mesmas condições do rico. Então vamos ver quem ganha quando todos disparam com armas iguais, pilotam bicicletas iguais, remam ou velejam em barcos iguais e, no caso do tênis, usam ra­quetes iguais.
 
O SEU DESAFIO OLÍMPICO
Você acha que poderia modificar algum esporte olímpico para fazê-lo mais agradável de se ver ou para testar melhor a habilidade de um atleta? Existe algum esporte que você gostaria de incluir nas Olimpíadas? Comente aqui de que maneira você melhoraria os Jogos Olímpicos.
 

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