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Arte para todos


O ator Paulo Betti faz um convite irresistível: leia o livro, veja o filme e aprenda a fazer cinema

Com uma invejável carreira de 42 anos, 60 seriados e novelas e 32 filmes, Paulo Betti já sentiu diversas vezes a emoção da estreia. Mas, com seu novo filme, A fera na selva, essa sensação tem um sabor especial, multiplicado, coletivo. Em tempos difíceis para a cultura no Brasil, o ator de 65 anos, que já deu vida a personagens marcantes no cinema como o capitão Lamarca e o detetive Ed Mort, sentiu a necessidade de criar uma estratégia inovadora para viabilizar seu projeto: transformar o público em um participante ativo do processo cinematográfico. Seleções conversou com o artista sobre essa empreitada que une arte e educação e sobre a principal temática abordada no filme: a dificuldade que muitos de nós têm de viver o momento presente de maneira integral, sem ansiedade.

Quando surgiu a vontade de filmar A fera na selva?

Encenamos uma adaptação dessa novela do escritor americano Henry James nos anos 1990. Desde então, eu e Eliane Giardini (ex-mulher do ator e apaixonada pelo texto) acalentávamos o desejo de transpor a obra literária para o cinema. Há cerca de dois anos, depois de um longo processo de captação de recursos e de diversos tratamentos do roteiro, finalmente conseguimos.

Como é o seu personagem?

João é um homem assombrado pela expectativa de que algo extraordinário vai acontecer na sua vida. Ele não consegue viver o momento presente, está sempre à espera de alguma coisa. E acaba não percebendo as sutilezas dos momentos, pequenas alegrias, um grande amor… Esse
parece ser um desafio da atualidade. De todos nós.

O filme tem um projeto de lançamento diferenciado. Como surgiu a ideia?

Filmamos em Sorocaba, cidade onde eu nasci, e, quando vi reunida a equipe de excelentes profissionais – diretores, fotógrafos, maquiadores, cenografistas –, me senti no dever de compartilhar a experiência com a comunidade. Espalhei a notícia de que quem quisesse poderia participar do filme, fosse como figurante ou simplesmente se aproximando dos profissionais para aprender a fazer cinema. Mas com uma condição: todos deveriam ler o livro.

E como foi o resultado?

As pessoas se envolveram de uma maneira muito positiva. Disponibilizei o roteiro adaptado para que lessem também e convoquei todos para um cineclube, onde seriam exibidos dez filmes que eram referência para o nosso. Certa vez, depois da exibição de Limite, do Mário Peixoto, que é um filme difícil, em preto e branco, um menino de 12 anos nos contou que tinha lido o livro A fera na selva, tinha lido o nosso roteiro e ainda sugeriu uma mudança no final. Que eu acatei!   

Os atores Paulo Betti e Eliane Giardini apaixonaram-se pelo texto de “A fera na selva” nos anos 1990.

Essa experiência continua?

Sim. Percebi que seria enriquecedor fazer um tipo de lançamento educativo do filme, convidando as pessoas a experimentarem esse processo transmídia, que vai da linguagem literária, passa pela literatura para o audiovisual, que é o roteiro, e termina no audiovisual pronto, o filme. Além disso, queremos promover cursos a distância com os profissionais do filme. Temos cenas extras que não entraram na versão final, gravações da peça encenada há 30 anos, o texto teatral digitalizado… Bastante material para ilustrar todo o processo.

Quantas pessoas já se inscreveram?

Aproveito as apresentações da minha peça Autobiografia autorizada, em turnê pelo país, para conversar com o público sobre o filme e fazer uma lista de e-mails das pessoas interessadas. Temos cerca de 5 mil e-mails, já. Outro dia fui a Belém exclusivamente para falar sobre o filme com um grupo. E não é só no Brasil que há pessoas entusiasmadas pelo projeto – tem gente lendo o livro em Portugal, em Israel…

A estreia do filme foi no Festival de Cinema de Gramado, em agosto deste ano. Como foi a repercussão?

Fiquei bem satisfeito com o que ouvi do público. Esse é um filme “fora da curva”. Sua linguagem tem um tom teatral, expressionista. Eliane e eu recebemos o Troféu Especial do Júri pela contribuição à arte dramática no teatro, na TV e no cinema.

E como será o lançamento do filme?

Faremos lançamentos em sessões fechadas, em cineclubes, primeiro para os inscritos no projeto, praça por praça. Este não é um filme para circuito comercial. Tenho consciência da dificuldade de se alcançar bilheteria. Ainda mais com a atual situação do país.

Foi por isso que você criou o lançamento educativo?

Esse projeto está na origem do filme. De ser um processo permeado pela opinião crítica de quem participa dele. Por que não estimular a leitura de um livro clássico e formar uma rede de espectadores com uma compreensão mais aprofundada do filme? É também uma questão de necessidade e sobrevivência. Gostaria que meu filme cumprisse a sua missão, que é ser visto pelo maior número de pessoas. E o projeto educativo ajuda nesse sentido. Como disse Guimarães Rosa, “o sapo não pula por boniteza, mas porém por precisão”.

Para participar do projeto de lançamento educativo do filme A fera na selva, acesse: migre.me/ws3K7 e o site www.aferanaselva.com.br

Por Liane Mufarrej

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