Quando a comida se torna fatal

O aumento no número de casos de alergias está surpreendendo até os especialistas
 
From Reader's Digest

Marina ferraz toma muito cuidado com qualquer coisa que come. Em sua casa, nada de frutos do mar. E quando viaja, especialmente para a praia, a preocupação fica maior ainda. Ela sempre interroga os garçons sobre os ingredientes usados nos pratos para ter certeza de que nada leva camarão. Exagero? Não quando se tem uma alergia grave que pode pôr sua vida em risco. “Tenho de estar sempre alerta”, diz a estudante de 17 anos, que mora em Jacutinga (MG).

Marina teve sua alergia diagnosticada aos 13 anos. Ela sabe que é extremamente sensível a certos alimentos, como o camarão, e que não pode baixar a guarda. Mas, há dois anos, um “cochilo” lhe trouxe sérias conseqüências. Ela estava na praia, em Riviera de São Lourenço (SP), num apartamento alugado por amigos. Um dia, quando voltou do banho de mar, o almoço era macarrão com molho de tomate. Que bom, sem frutos do mar, ela pensou.

Pouco depois da refeição, no entanto, Marina passou a sentir um incômodo muito forte. “Meu rosto começou a inchar… E a garganta parecia que ia se fechar. A respiração foi ficando cada vez mais difícil...”, conta ela. Enquanto era levada ao único pronto-socorro da cidade, Marina foi perdendo o ar e se desesperando. Mas o médico que a atendeu reconheceu de imediato os sintomas de um choque anafilático e lhe aplicou uma injeção de adrenalina – que, provavelmente, salvou sua vida.

Mais tarde, Marina descobriu que uma pequena quantidade de camarão havia sido adicionada para enriquecer o sabor do molho. E ela não percebeu, pois era tão pouco que não se viam pedaços. “Não faria diferença para ninguém”, conta ela que, até então, não sabia que, em casos de alergia grave, até mesmo o contato com uma pessoa que tenha manuseado o alérgeno pode disparar o gatilho das reações.

Lições básicas
As alergias alimentares podem atingir cerca de 5% da população brasileira, segundo a Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia (Asbai). As crianças são as mais atingidas porque ainda têm o sistema imunológico imaturo. Estima-se que até 8% das que não completaram 3 anos são afetadas. As reações mais comuns são diarréia e espasmos, distensão e dor abdominais, vômitos e erupções na pele, mas os casos mais graves podem levar a dificuldades respiratórias e circulatórias, até mesmo à desnutrição. Ao contrário do que se imagina, os choques anafiláticos (ver quadro na página 119) provocados por alimentos são mais comuns do que os provocados por medicamentos – e podem levar à morte. Nos Estados Unidos são registrados cerca de 150 casos desse tipo por ano.

A variedade de alimentos que pode causar reações alérgicas é quase infinita. Mas existem alguns com uma carga maior do que os especialistas chamam de “potencial alérgeno”. Na idade adulta os crustáceos são os campeões, seguidos por peixes, trigo, soja, amendoins e castanhas. Mas os piores vilões são a clara de ovo e, principalmente, o leite de vaca, com todos os seus derivados. “Esses dois são alimentos difíceis de substituir. O caso do leite é grave por se tratar de um alimento essencial para as crianças. E é preciso um rigor que deve ser estendido ao colégio e às festinhas”, diz o alergista João Bosco de Magalhães Rios, diretor da Clínica de Alergia da Policlínica Geral do Rio de Janeiro.

E como substituir os ovos num bolo de aniversário, por exemplo? “É difícil. A gema é usada como emulsificante e corante. A clara torna as preparações altas e fofas”, explica a nutricionista Andréa Barcellos Mendes, da Vittafix, empresa especializada em alimentos para pessoas com necessidades especiais. “Pode-se tentar substituir a gema por manteiga e a clara por fermento. Não é a mesma coisa, mas o sabor não fica ruim.”

Ataque dos anticorpos
Quando você sofre de algum tipo de alergia alimentar, seu corpo reage à ingestão ou até mesmo à inalação e ao toque de uma proteína específica existente em um alimento como se ele fosse um invasor – um vírus, por exemplo. Essa proteína (antígeno) – inofensiva para a maior parte da população – leva todo o organismo do alérgico a entrar em um estado de guerra, produzindo anticorpos chamados imunoglobulina E (ou IgE). Lançados na corrente sanguínea, são esses anticorpos que vão desencadear a alergia.

O que acontece em seguida? A reação mais comum e imediata é o surgimento de coceira e vermelhidão pelo corpo. Ao mesmo tempo, o aparelho digestivo começa a sofrer com o ataque dos anticorpos, e a resposta vem na forma de vômitos e diarréia. Como os tecidos respiratórios podem ser afetados, espirros ou irritação na garganta também ocorrem.

Em geral, as reações ficam nesses três estágios e podem se suceder rapidamente ou em algumas horas. Mas também podem vir acompanhadas de uma séria queda na pressão arterial, que leva à exaustão e à perda de consciência e que, se não for revertida logo, pode levar à morte. “A reação alérgica às vezes é imprevisível e nem sempre se sabe até onde ela vai”, diz Ana Paula Moschione Castro, especialista em imunologia e médica do Instituto da Criança, do Hospital das Clínicas.

Não são só os vilões mais famosos, como os camarões, que podem desencadear uma reação alérgica. Alguns alimentos levam fama de maus sem merecer tanto, como o cacau, a base do chocolate. E outros, inofensivos para a maioria, causam sérios estragos para um alérgico, como abacaxi, cereja, kiwi e banana (estes dois últimos costumam provocar reações em quem é alérgico ao látex – um alérgeno renomado).

A revisora de texto Hermínia Totti, 47 anos, em dezembro do ano passado finalizou uma refeição com três cerejinhas. Poucos minutos depois, sentiu uma coceira forte nas mãos e nos pés. Passada uma hora, a língua e os olhos começaram a inchar. “Meu pescoço dobrou de tamanho de tão inchado. Minha garganta começou a se fechar. Eu não conseguia mais falar. Fiquei sem queixo, parecendo um monstro”, conta. Já tendo vivido um episódio semelhante anos antes, Hermínia ligou rapidamente para seu médico e, seguindo a orientação dele, tomou uma injeção de anti-histamínico, que evitou que a crise se agravasse. Dois dias depois, seu queixo ainda não havia voltado ao normal.

A carioca Hermínia é vítima de alimentos que parecem inofensivos: nectarina, cereja, ameixa e... pêssego! “Já senti irritação nas mãos só de passar diante de uma barraca de pêssegos na feira”, conta ela. “Depois desse último susto, redobrei a atenção com essas frutas que parecem tão inocentes.”

Estamos limpos demais?
“Nos últimos vinte anos, as alergias alimentares estão em franca expansão. Temos um número maior de pessoas atingidas e de diagnósticos feitos”, diz Ana Paula Moschione Castro. Não há estatísticas oficiais no Brasil, mas esse aumento é um consenso, e não apenas aqui. Estudos americanos e ingleses indicam uma duplicação dos casos de alergia a amendoim em crianças nos últimos dez anos.
A hipótese mais popular entre os especialistas para explicar o crescimento explosivo dos casos de alergia alimentar é a higienista. O nosso sistema imunológico é preparado para evitar e combater infecções. Porém, a melhoria das condições de higiene à medida que as sociedades vão evoluindo traz uma certa ociosidade a esse sistema, que acaba se voltando para o próprio organismo, provocando as reações alérgicas. A hipótese tem tanta aceitação que alguns especialistas defendem que os pais deixem os filhos se sujar mais nas brincadeiras.

Outra explicação é a mudança dos hábitos alimentares. As crianças, cujo sistema imunológico é menos desenvolvido, estão deixando o leite materno cada vez mais cedo e se expondo a alimentos com alto potencial alergênico, como o leite de vaca e a soja. “O leite materno até os 6 meses de idade é a melhor forma de prevenir ou retardar o aparecimento de doenças alérgicas, principalmente as alimentares”, diz o imunologista Nelson Augusto Rosário Filho, diretor da Asbai e pesquisador da Universidade Federal do Paraná. E há ainda os perigos da cantina: salgadinhos e batatas fritas industrializados, aos quais são adicionados elementos como o sulfito (conservante) e o glutamato (realçador de sabor), capazes de despertar alergias ocultas.

Está em nossos genes?
O que se sabe é que as alergias tendem a ser mais comuns em determinadas famílias – mas nem sempre. “Qualquer pessoa pode desenvolver uma alergia. Mas, se há histórico familiar, as chances são bem maiores – em torno de 75%. E não necessariamente ao mesmo alérgeno que os pais”, afirma Nelson Augusto Rosário Filho, chamando a atenção para o fato de que os portadores de algum tipo de alergia alimentar – principalmente as crianças – são mais propensos a desenvolver doenças respiratórias.

Diagnóstico difícil
Os especialistas consideram alarmante o número de casos de alergia alimentar sem diagnóstico. “Há pessoas morrendo por conta disso”, afirma Margarida Maria Santana da Silva, nutricionista da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Bruno Pavan, hoje com 13 anos, passou bem perto disso. Desde o primeiro mês de vida, o garoto sofria com debilitantes cólicas abdominais. Durante dois anos, sua mãe, Teresa Pavan, levou o filho a mais de 20 médicos, que consideravam as ocorrências “normais para a idade dele”.

Com o tempo, as internações se tornaram uma rotina mensal. Aos problemas intestinais, juntaram-se os respiratórios, como a asma e os edemas de glote. Antes que uma médica, enfim, desconfiasse de um problema imunológico e encaminhasse Bruno a um imunologista gastropediatra, o garoto teve afetados seu desenvolvimento motor e a fala. O vilão? Uma grande variedade de alimentos, mas principalmente a proteína do leite de vaca, com o qual Bruno teve contato já no berçário.

“A falta de informação sobre alergia é muito grave. Meu filho chegou a ser alimentado com leite em um dos hospitais onde esteve internado. Tive de estudar para me informar”, conta Teresa, hoje nutricionista com especialização em alergia. Agora Bruno se alimenta exclusivamente com um leite medicamentoso importado que o Estado é obrigado a fornecer. “Mas a entrega é feita com atraso. Existe uma incompreensão da seriedade da doença.” Desde que recebeu o diagnóstico correto e alterou radicalmente sua alimentação, o garoto vem melhorando e existe a perspectiva de que seu organismo passe a tolerar alguns alimentos.

O diagnóstico das alergias nem sempre é fácil. Além de falsos-positivos, os testes disponíveis, cutâneos e sanguíneos, não são totalmente eficazes para detectar certos tipos de alergia, dependendo da proteína envolvida na reação. Mas assim mesmo esses testes são auxiliares importantes no diagnóstico. “Em outros casos, precisamos contar mais com nossa sabedoria clínica”, explica Ana Paula Moschione Castro.

A técnica da exclusão e da exposição ao alérgeno – quando o alimento suspeito de provocar as reações é retirado da dieta por alguns dias e depois reinserido para se observar as mudanças no organismo – às vezes é usada, mas exige acompanhamento muito cuidadoso, especialmente para as pessoas que sofrem complicações mais severas. Quando os resultados são positivos, exames complementares e biópsia podem ser utilizados para um diagnóstico mais seguro.

Esperança para o futuro
No momento, o único tratamento disponível contra as alergias alimentares é “detectar, evitar e substituir”, repetem os especialistas. É preciso ler os rótulos dos alimentos – nem sempre bem elaborados – e tomar cuidado com os sinônimos (albumina e caseína, por exemplo, que indicam a presença de proteínas do ovo e do leite, respectivamente) e com expressões como “pode conter traços”, pois a quantidade mínima de uma substância pode desencadear uma reação alérgica. E, claro, para os casos mais graves, é obrigatório portar adrenalina injetável.

Para Marina, Hermínia e Bruno, que já sentiram na pele o perigo das alergias, pesquisas como a do anti-IgE e a da imunoterapia (cuja idéia é “ensinar” ao sistema imunológico que os alimentos não são inimigos) são a esperança de dias mais tranqüilos. “Quando alguém se queixa de alergia, as pessoas acham que é só uma coceirinha”, diz Hermínia. “Mas a gente pode morrer disso.” Teresa, mãe de Bruno, que participa da organização do simpósio Imuno Rio 2008, completa: “Está na hora de levarem a sério as dificuldades de quem sofre com alergia.”

Alergia ou intolerância?
O crescimento dos casos detectados de alergia revelou outros perigos: o autodiagnóstico e a automedicação. Se você se sente desconfortável depois de comer, se apresenta coceira e placas vermelhas no corpo, alguém do lado já decreta: é alergia. Mas o caso pode ser de intolerância alimentar, que se refere a qualquer dificuldade que o organismo apresente para digerir um alimento. Um dos tipos mais comuns é a intolerância à lactose, açúcar presente no leite de vaca.

Mas o tipo de intolerância alimentar que vem chamando a atenção no momento é ao glúten, proteína presente em grãos como trigo e cevada e que é inofensiva para a maioria das pessoas. Estimativas da Universidade de Brasília indicam que pelo menos 300 mil brasileiros sofrem com essa intolerância – a chamada doença celíaca. E muitos portadores não se dão conta. “Não se faz o exame na rede pública. Essa é uma doença sistêmica, que cria problemas de memória, provoca epilepsia, desnutrição... Uma em cada dez pessoas de baixa estatura deve o problema à doença celíaca”, diz Margarida Maria Santana da Silva, nutricionista da UFV, ela também uma portadora que já sofreu conseqüências como abortos de repetição e escreveu o livro Convivendo com a doença celíaca. Diagnosticada por meio de biópsia, a doença celíaca só tem um tratamento: a abstenção de glúten.

Apesar de as intolerâncias alimentares serem desconfortáveis, as pessoas que sofrem com elas podem levar uma vida normal. Mas os perigos do autodiagnóstico são reais. “Se a pessoa começa a retirar alimentos da dieta por conta própria pode ficar desnutrida ou com carências nutricionais específicas, como a anemia (deficiência de ferro)”, informa Nelson Augusto Rosário Filho, da Asbai. Mas atenção: a falta de diagnóstico pode ser fatal!

O que fazer numa emergência
O choque anafilático (anafilaxia), a mais grave reação alérgica, atinge a pele e os sistemas respiratório e gastrointestinal, e pode levar à morte. A queda vertiginosa na pressão arterial, no entanto, é o efeito mais perigoso. O único tratamento seguro é evitar o alimento que provoca a alergia. Mas, em caso de exposição acidental, esteja preparado:
• Tenha sempre em mãos duas doses de adrenalina (epinefrina) injetável. “Não dá para sair de casa sem isso. E, se sentir qualquer sintoma, use rápido”, alerta a imunologista Ana Paula Moschione Castro, do Instituto da Criança.
• Tenha sempre também um anti-histamínico indicado pelo médico. Ele é uma medicação complementar à adrenalina.
• Se você for um alérgico com tendência a reações mais graves, deve portar um bracelete ou cartão que o identifique como tal, para que os procedimentos médicos adequados sejam prontamente tomados.
• Mesmo que os sintomas desapareçam, procure um pronto-socorro (mas não dirija). Uma onda de reações tardia, até 20 horas depois da primeira, não é incomum.

Como proteger sua família?
• Se você desconfia que alguém da família sofre de alergia alimentar, procure um alergista imediatamente.
• Ao descobrir quais os alimentos a serem evitados, se possível mantenha-os fora de casa.
• Aprenda a ler os rótulos. O site da Vigilância Sanitária (anvisa.gov.br/alimentos/rotulos/index.htm) traz informações e um bem elaborado Guia de bolso do consumidor.
• Mantenha um plano de emergência para lidar com uma crise. Mostre-o à família, aos amigos e a colegas de trabalho.
• Se você tem uma alergia alimentar identificada, nunca compartilhe comida, bebida, copos ou talheres. A outra pessoa pode ter tocado em alimentos que vão lhe provocar reações alérgicas.
• Quando estiver longe de casa, de preferência, carregue a própria comida. Nunca consuma nada a não ser que você saiba todos os ingredientes utilizados e como o
alimento foi preparado.
• Saiba que o beijo também pode transmitir os alérgenos.
• Consulte também os sites da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia (asbai.org.br) e da Associação dos Celíacos do Brasil (acelbra.org.br), e o blog da Clínica de Alergia da Policlínica Geral do Rio: blogdalergia.blogspot.com

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