É mesmo uma emergência?

Às vezes precisamos de ajuda urgentemente, mas às vezes podemos esperar.
 

Algo está errado. Você está doente, e precisa de cuidados médicos. Mas será que é tão urgente assim? Talvez aquele pequeno corte no dedo logo pare de sangrar. Ou a crise de asma melhore. Ou ainda a coriza e a dor de garganta sejam só os sintomas de um resfriado. Todos nós precisamos lidar com dilemas assim de vez em quando. E a maioria prefere ficar em casa a ir para o hospital, mesmo quando está muito doente.

Não é segredo para ninguém que as emergências dos hospitais brasileiros estão sempre cheias, fazendo com que muitos pacientes percam horas esperando por um médico ou acabem sendo transferidos para outro hospital. Uma conjunção de fatores – redução de lei­tos nos hospitais da rede pública ao longo da última década, precariedade no funcionamento de postos de saúde e envelhecimento da população – favorece a superlotação das principais emergências do país, prejudicando o atendimento. Quem afirma isso é o Dr. Luiz Alexandre Alegretti Borges, presidente da Associação Brasileira de Medicina de Emergência. “Hoje, mais de 60% dos casos que chegam às emergências poderiam ser resolvidos em consultas de rotina. A população recorre à emergência pois se sente segura de que ali, apesar da demora, será avaliada, fará exames e sairá com um diagnóstico no mesmo dia. É uma deturpação do sistema de saúde no Brasil”, analisa o médico.

Um levantamento de atendimentos desnecessários ocorridos na emergên­cia do Hospital Regional Dr. Homero de Miranda Gomes, que fica em São José e é um dos maiores de Santa Catarina, reflete a realidade de boa parte das emergências do país. Em 2007, 14.403 pessoas deram entrada na emergência daquele hospital com tosse, gripe e dor de garganta; 8.685 com dor de cabeça; 4.815 com pressão arterial alta; 3.358 com dor de ouvido; 2.180 com dor nas pernas; 1.645 com dor no joelho; e 1.085 com cisco nos olhos.

Considerando-se que os hospitais andam lotados, como decidir quando é preciso chamar uma ambulância ou simplesmente ficar de repouso? Um fator importante é a intuição. Você se conhece e conhece sua família melhor do que ninguém. “Na dúvida, o melhor é procurar atendimento em um pronto-socorro, onde a situação será avaliada por um médico. Se não for grave, a pessoa receberá medicação sintomática e será encaminhada ao atendimento ambulatorial público ou privado”, orienta o Dr. Hélio Penna Guimarães, diretor de Medicina de Urgência da Sociedade Brasileira de Clínica Médica.

Se você decidir ir a um hospital, vai perceber que há um sistema de triagem: alguém que torceu o tornozelo não será atendido antes de um paciente com quadro de infarto ou acidente vascular cerebral (AVC). Embora ainda não seja adotado em todo o país, grandes hospitais públicos e privados, principalmente nas capitais, já come­çaram a adotar o sistema de triagem de classificação de risco utilizando cores (em certos hospitais as cores escolhidas são vermelho, laranja, amarelo e verde; em outros, vermelho, amarelo, verde e azul), sugerido pela Política Nacional de Humanização, elaborada pelo Ministério da Saúde.

As novas normas para acolhimento do paciente dão prioridade aos casos graves, e deixam claro para quem está aguardando que ordem de chegada não é sinônimo de atendimento imediato. Quem chega à emergência desmaiado ou baleado será identificado com a cor vermelha e passará à frente de pacien­tes classificados com as demais cores. Quem busca o setor de emergência com uma simples dor de garganta ou dor de cabeça deve se munir de muita paciência: é bem possível que amargue uma longa espera.

Os 5 melhores motivos para ir à emergência

Se o paciente for idoso, todo o cuidado é pouco. Para pessoas da terceira idade, problemas simples como uma pequena infecção, resfriado ou queda podem evoluir rapidamente para complicações graves. “Os mais velhos apresentam sintomas discretos e demoram a se queixar. É comum idosos deixarem de se levantar pela manhã, ou simplesmente pararem de comer, e já apresentarem um quadro adiantado de pneumonia. É preciso redobrar a atenção com eles”, alerta o Dr. Alexandre Pieri, coordenador da Unidade de Primeiro Atendimento do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Os sinais de alerta incluem confusão mental, fraqueza e sensação de debilidade. Ao levar um idoso ao hospital, faça antes uma lista dos remédios que ele toma. Isso ajuda os médicos a evitar reações adversas causadas por interações medicamentosas, problema muito comum em pacientes da terceira idade.

Também é preciso ter cuidado com as crianças, pois elas não têm o mesmo nível de tolerância a doenças que os adultos. Preste atenção se uma criança estiver com febre de mais de 37,5oC, letargia ou com vômitos ou diarréia prolongados.

A febre pode ser indício de infecção bacteriana que pode levar a uma doença grave como meningite; e problemas no estômago, vômitos e diarréia podem causar desidratação. Em bebês com menos de 3 meses, até uma alteração na temperatura exige cuidados imediatos – é melhor prevenir do que remediar.

Existem cinco situações em que se deve ir para a emergência, não importa a idade do paciente:

1) Você sente uma dor muito forte de repente. Dores fortes e súbitas no peito, no abdome, na cabeça ou em outra parte do corpo podem ser sinal de um problema grave. Se a dor for no peito, você pode estar infartando. Especialistas em emergência acham melhor examinar qualquer pessoa que esteja sentindo dor no peito, principalmente se esta persistir por mais de cinco minutos. Algumas irradiam pelo queixo ou braço esquerdo. Dores no tórax também podem ser acompanhadas de falta de ar acentuada, suor frio, náusea ou vômitos, e perda de consciência com ausência de movimentos respiratórios. “Muita gente confunde desconforto no peito com indigestão. Negam que o mal-estar tenha algo a ver com o coração e ficam se sentindo mal duas, três ou quatro horas antes de correr para uma emergência”, alerta o Dr. Hélio Penna.

Embora idosos sejam mais vulneráveis a infartos, o Dr. Mário Bueno, diretor do Departamento de Gestão Hospitalar do Ministério da Saúde no Estado do Rio de Janeiro, afirma que até pessoas jovens, ao sentirem dor no peito, devem ser levadas o mais rápido possível a um hospital. “Embora jovem, sempre existirá risco de infarto”, adverte o Dr. Bueno. Além disso, dor no meio do peito também pode ser sintoma de outras doenças como pneumotórax, embolia pulmonar e situações simples de origem muscular, acrescenta ele.

Uma dor de cabeça aguda e inesperada – a pior que você já sentiu na vida – pode indicar um AVC hemorrágico. E dores abdominais fortes também podem ser sinal de crise de apendicite aguda, infecção na vesícula biliar, inflamação no pâncreas ou no abdome. Mulheres com dores agudas no abdome ou baixo ventre podem estar sofrendo aborto ou gravidez ectópica (o embrião não chega ao útero e se desenvolve na trompa). Elas podem nem saber que estão grávidas, mas os sintomas demandam cuidados urgentes.

2) Você sente dormência, fraqueza ou dificuldade de movimentar um lado do corpo? A fala parece engrolada, você está enxergando apenas com um olho, ou a cabeça parece que vai estourar de tanta dor? Fique atento, pois esses são os principais sintomas de um AVC.

Muitas pessoas ignoram esses sinais porque eles podem aparecer e sumir em episódios rápidos, que duram de 10 minutos a 1 hora. “O sintoma ocorre sempre que um pequeno coágulo entope a artéria, obstruindo o fluxo de sangue no cérebro. Às vezes ele se dissipa rapidamente, e a pessoa volta a ficar bem, não se dando conta do risco que está correndo. Ela não sabe mas acabou de sofrer um Ataque Isquêmico Transitório (AIT), alerta de que está prestes a ter um AVC. Este pode ocorrer horas depois, na mesma semana, mês ou ano”, adverte o Dr. Pieri. “A ida ao pronto-socorro tem de ser imediata. Se for um AVC conseguimos salvar o paciente se ele chegar no máximo três horas depois do episódio, administrando medicamentos que desobstruem a artéria. Já nos casos de AITs, é comum não aparecerem alterações neurológicas nos exames de imagem, o que dificulta o diagnóstico. Nesses casos é fundamental relatar ao médico o episódio em detalhes. Depois de um AIT, a probabilidade de ocorrência de um AVC é enorme ”, constata o Dr. Pieri.

3) Você está machucado. Se você sofreu ferimentos graves num acidente de carro é muito provável que chegue ao hospital numa ambulância. Mas se se machucou em outro lugar como, por exemplo, ao praticar um esporte, o Dr. Cloer Vescia Alves, coordenador geral de Urgência e Emergência do Ministério da Saúde, enumera situações em que a ida ao setor de emergência é inadiável: você bateu a cabeça, perdeu a consciência e não recobrou os sentidos; tem um corte extenso e profundo; sangramento abundante; caiu de uma altura superior a 1,80 m (adultos) ou 1,50 m (crianças); apresenta múltiplas fraturas; uma parte do corpo está inchando rapidamente; ou sofreu traumatismo ocular. “Lesões como essas precisam de avaliação médica urgente. Isso evita que evoluam, gerando conseqüências graves e possíveis seqüelas”, aconselha o Dr. Vescia.

4) Você tem uma doença crônica que piora de repente. O Dr. Vescia explica que pessoas com doenças crônicas – asma, hipertensão, diabete, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), epilepsia, problemas renais ou alergias graves – devem procurar saber durante as consultas de rotina (seja em postos de saúde ou em clínicas da rede privada) a diferença entre uma leve piora dos sintomas e uma crise que necessita de atenção urgente. Uma crise de asma, uma queda abrupta no nível de açúcar no sangue ou uma picada de abelha quan­do se é alérgico podem ser bons motivos para se procurar o atendimento rápido das emergências.

5) Você está com sintomas de uma doença grave, e há uma epidemia dela na região onde mora, é fundamental não entrar em pânico. O Dr Pieri orienta que, em períodos de epidemias como dengue ou febre amarela, é importante observar atentamente os sintomas do paciente. Se os sinais coincidirem com os descritos pelos órgãos públicos de saúde, não perca tempo: corra para a emergência mais próxima.

Os 5 piores motivos para ir à emergência

Se for madrugada e você estiver numa das situações a seguir, considere ir ao posto de saúde ou clínica médica particular tão logo amanheça. Em algumas capitais como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, Unidades de Pronto Atendimentos (UPAs) 24 horas – núcleos especialmente criados para desafogar as emergências das regiões metropolitanas – já estão funcionando.

As UPAs têm consultórios de clínica médica, pediatria, ortopedia, odontologia, leitos de observação, sala vermelha para infartados, farmácia, e uma ambulância de plantão do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) para casos de remoção de pacientes em situações agudas.

1) Você está resfriado, tem uma infecção leve ou um pequeno ferimento. Se estiver com o nariz entupido, a garganta arranhando e febre baixa, é pouco provável que precise ir ao hospital. “Nesses casos o mais importante é repousar. Remédios ajudam a aliviar os sintomas”, explica o Dr. Pieri. Mas lembre-se de que você deve levar um resfriado muito a sério se tiver uma doença crônica que afete seu sistema respiratório ou imunológico, ou se recentemente tiver passado por uma cirurgia ou sessões de quimioterapia.

Se você estiver com uma infecção leve na garganta, no ouvido ou no aparelho urinário, em geral poderá tratá-las no posto de saúde ou numa clínica da rede privada. Quanto a um pequeno corte feito por um objeto de metal, limpe o ferimento com água e sabão e veja se o sangramento pára. Procure tomar uma injeção antitetânica nas primeiras 24 horas após o ocorrido.

No entanto, acidentes com animais peçonhentos e mordidas que atravessam a pele precisam de tratamento urgente. A saliva de cães e gatos contém muitas bactérias e agentes patológicos que podem crescer dentro do ferimento e causar infecções graves. Picadas de insetos também podem causar reações graves, principalmente em pessoas alérgicas: um choque anafilático ocorre em questão de minutos. Nesses casos, é melhor seguir para o pronto-socorro. Se houver torção com inchaço subseqüente, procure pôr gelo na área lesionada e vá até o atendimento de trauma-ortopedia mais próximo.

2) Você está sentindo uma dor que lhe é familiar. Embora uma dor de cabeça, dor nas costas ou artrite possa deixá-lo desconfortável, os médicos do setor de emergência só vão poder lhe dar um analgésico. Na verdade, ficar na sala de espera pode até piorar seu desconforto. “O melhor é ter um acompanhamento regular no posto de saúde e sempre buscar orientação com seu médico sobre como lidar com a dor”, esclarece o Dr. Vescia.

3) Você está com problemas gástricos. É muito desagradável e, às vezes, até doloroso sofrer com episódios de diarréia, vômitos ou constipação, mas, em geral, não há necessidade de atendimento de emergência. A não ser que seu problema venha acompanhado de sangramento ou febre, ou ocorra muito subitamente e associado a inchaços e vômito, o melhor é tomar bastante líquido e descansar em casa.

4) Seu remédio acabou. Mas a função dos médicos da emergência não é renovar prescrições. “A emergência existe para situações de risco à vida, e não para tratamento contínuo. Mesmo frente a tamanhas dificuldades para ser atendido na rede básica, o paciente re­corre à emergência para não interromper o tratamento. Não o deixamos sem auxílio, mas o orientamos a fazer diferente no futuro”, revela o Dr. Alegretti, acrescentando que a busca por atestados médicos também é uma constante nas grandes emergências.

5) Você não tem um clínico-geral com quem se consulta regularmente. Mas é importante ter um relaciona­mento com um médico que conheça o seu histórico. “O profissional do setor de emergência não conhece o paciente que chega. Muitas vezes ele tem de pedir exames para diagnosticá-lo, mas, posteriormente, não irá acompanhar o caso. Esse é o papel do clínico ou do médico de família”, explica o Dr. Bueno.

Iniciativas bem-sucedidas como as UPAs podem reduzir o elevado número de atendimentos desnecessários nas principais emergências do país. Em apenas um ano de funcionamento, o UPA Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, fez 137 mil atendimentos, sendo 99,7% solucionados na própria unidade. “As emergências não existem para que as pessoas entrem caminhando: elas só deveriam dar entrada ali se chegassem de ambulância. É um setor que deve se ocupar de casos graves como infarto, AVCs, acidentes em via pública, e vítimas de violência, como baleados e esfaqueados”, considera o secretário estadual de Saúde, Dr. Sérgio Cortes, que já inaugurou outras seis UPAs no Estado do Rio. Os expressivos resultados dos núcleos de atendimento pré-hospitalar no Rio incentivaram o Governo Federal a incluir as UPAs no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) da Saúde: está prevista a criação de 132 unidades até 2010. Mas, para o melhor trata­mento contínuo, o ideal ainda é fazer visitas periódicas a um médico.

No fim das contas, você é quem decide se precisa ou não ir ao hospital. “Se o paciente está com problemas e recorre à emergência, será acolhido e orientado”, diz o Dr. Vescia. E, se você for educado, calmo e não quiser tirar vantagem do sistema, será tratado com dignidade e respeito.

Vote it up
112
Gostou deste artigo?Votá-lo até

Postar um comentário

Na Nossa Loja