Salvador dos mares

O plástico polui oceanos, destrói a vida marinha e prejudica o planeta. Boyan Slat talvez tenha solução.  
 
"Eu lia que não era possível resolver o problema. Mas isso me instigou."

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O europeu do ano, eleito agora pelas edições europeias de Seleções, é tão jovem que ainda mora com a mãe. Boyan Slat tem 22 anos. Quem o vê andando pelas ruas de Delft, na Holanda – um rapaz magro com barba de alguns dias, um tufo de cabelo comprido e escuro, vestindo jeans e camisa larga –, pode pensar que ele é um aluno da Universidade Técnica local. E era mesmo, há quatro anos, pouco antes de sua vida mudar.

 

Mais uma vez, quem o vê num vídeo recente do Huffington Post, no timão de um iate oceânico, o vento soprando seus cabelos, pode imaginar que seja um cantor famoso.

 

Na verdade, ele é o fundador de um grupo sem fins lucrativos cujo nome descreve seu objetivo: Ocean Cleanup, a “faxina do oceano”. Sua promessa é tão simples de entender quanto difícil de cumprir: “Podemos deixar o oceano limpo outra vez”, diz ele.

 

A meta da Ocean Cleanup é usar inovações tecnológicas para limpar o plástico que atualmente flutua na Grande Ilha de Lixo do Pacífico e em outros pontos do mundo, onde as correntes lentas e rotativas, chamadas de giros oceânicos, retêm imensa quantidade de resíduos plásticos.

 

Esse rapaz de 22 anos é um ambientalista que vê a tecnologia como aliada, não como inimiga. “Acredito que a tecnologia seja o agente de mudança mais poderoso que temos. Ela cria bases inteiramente novas e permite uma quantidade imensa de possibilidades.

 

O otimismo de Slat fica logo óbvio. “Nas décadas de 1950, 1960 e 1970 houve uma onda de projetos imensos e malucos, como o programa espacial Apollo. Para sobreviver no próximo século, precisamos desse mesmo espírito maluco.”

 

O desafio é imenso. Estima-se que 5 a 14 milhões de toneladas de plástico cheguem por ano aos oceanos vindas de terra. A instituição Ocean Conservancy já alertou: na próxima década, os oceanos do mundo podem conter um quilo de plástico para cada três quilos de peixe. O plástico atua como esponja e absorve as toxinas da água. Quando ingerido pelos animais marinhos e selvagens, pode adoecê-los e matá-los; ou, quebrado em pedacinhos minúsculos, pode ir parar na barriga dos peixes, alguns dos quais serão consumidos por seres humanos.

 

Sabe-se que 267 espécies, como aves marinhas, tartarugas, focas e baleias, já sofreram por ingerir ou se emaranhar em detritos marinhos.

 

O PLANO DA OCEAN CLEANUP é criar cadeias de barreiras flutuantes em V, com até 100 quilômetros de comprimento, ancoradas no fundo do mar, em profundidades de até 4 mil metros. Essas barreiras capturarão os resíduos plásticos conforme as correntes oceânicas passarem e os afunilarão no centro do V para serem armazenados em torres flutuantes; depois, os resíduos serão recolhidos por navios e levados para reciclagem em terra.

 

Slat mostra um saco do granulado de plástico azul que pretende vender aos fabricantes como matéria-prima de novos produtos.

 

“O plástico não é o problema”, diz ele. “Ele é um excelente material, e nunca deixaremos de usá-lo. Mas não deveria ser utilizado para fins de descarte.”

 

O esquema de Slat foi considerado uma das 25 melhores invenções de 2015 pela revista Time. O governo holandês anunciou a concessão de uma verba de 500 mil euros para ajudar a financiar o projeto-piloto da Ocean Cleanup no Mar do Norte. Sharon Dijksma, ministra do Meio Ambiente, disse: “Gostaríamos de incentivar esse tipo de inovação maravilhosa para termos mais consciência de como tratamos nossos recursos naturais escassos e nos estimular a reciclar mais.”

 

A sede da Ocean Cleanup, no 18-º andar de um prédio de escritórios em Delft, tem uma aura radiante. É um espaço aberto cheio de luz, onde tudo é branco: as paredes, as cadeiras e o bar em zigue-zague no qual os funcionários almoçam juntos, sentados em bancos de couro branco.

 

Cerca de quarenta dos sessenta funcionários trabalham aqui. O idioma de trabalho é o inglês, embora haja muitos sotaques. A maioria dos funcionários é holandesa, e outros vêm da França, da Dinamarca, da Alemanha, da Itália, do Brasil e de outros países. As idades variam de 18 a 55 anos.

 

Há uma energia vibrante no lugar e um ambiente informal e democrático que reflete a atitude do líder. Slat não tem escritório próprio e, quando precisa de um computador, usa qualquer estação de trabalho livre; boa parte de seu tempo é gasto em viagens.

 

Nas paredes, há esboços anotados em papel com títulos como “A pipa”, “O rígido submerso” e “Único simples”.

 

Slat, clicando uma esferográfica, explica ansioso a missão da empresa. Ele não fica muito tempo parado; às vezes, levanta-se e anda pela sala

 

“Nunca conseguiremos limpar todos os quilos de lixo do oceano, mas queremos tirar a maior parte no menor tempo possível”, diz ele. “Nosso objetivo é 50% em dez anos, mas queremos chegar a bem mais do que isso. Por fim, alcançaremos 90%. São centenas de milhares de toneladas.”

 

A Cleanup pretende operar os projetos em grande escala até o fim de 2018. Para custear isso, vários milhões de euros já foram arrecadados junto a filantropos, grandes empresas e órgãos governamentais, com uma meta de 15 milhões de euros. E como Slat chegou a chefe dessa organização tão ambiciosa?

 

Ele nasceu em Delft em julho de 1994. Seus pais não estão mais juntos. O pai croata é artista plástico e hoje mora em Porec, às margens do Adriático. “Eu costumava me encontrar com ele, mas agora não tenho mais tempo”, diz Slat. “Mas ele descobriu o Skype, e isso ajuda.”

 

A mãe, que é meio inglesa, meio holandesa, é consultora e auxilia multinacionais a trazerem suas equipes para a Holanda. “Ela ajudou a recrutar pessoas para a Ocean Cleanup”, conta o filho com orgulho.

 

Slat não tem diploma universitário, mas não por falta de inteligência. Ele diz que, enquanto seus colegas de escola assistiam a vídeos da Disney, “eu estava interessado em cálculo básico. Eu adorava criar coisas. Com 2 anos, fiz minha própria cadeira. Depois, foram as casas nas árvores e tirolesas. Sempre tive meus projetos, e, para mim, não existe sensação melhor do que ter uma ideia e vê-la virar realidade”.

 

Com 16 anos, ele teve uma experiência que mudou sua vida. A família foi passar férias na Grécia, e Slat fez um curso de mergulho.

 

“Eu esperava ver coisas bonitas na água, mas o que vi foi um depósito de lixo no fundo do mar. Pensei: ‘Por que não limpamos isso?’ Eu tinha de fazer um projeto de ciências para a escola com um amigo, e estudei o problema. Não parava de ler que não era possível. Esse dogma era quase uma profecia, porque ninguém mais tentava abordar o problema. Mas isso me instigou. Acho que minha natureza é bem obsessiva”, acrescenta ele.

 

Slat se recusou a abandonar a ideia de limpar o oceano, mesmo quando foi estudar engenharia aeroespacial na Universidade Técnica.

 

“Não conseguia parar de pensar naquilo. Eu ficava na aula ouvindo toda aquela história de fadiga do metal nas peças do avião e pensava: ‘Como aplicar isso à ideia de limpar o oceano?’”

 

Ironicamente, uma das pessoas que disseram que o conceito era impossível de ser posto em prática é que deu a Slat a ideia de seu esquema.

 

“Eu estava assistindo ao vídeo de um oceanógrafo explicando a dinâmica do oceano. Ele mostrou uma animação com todo o plástico se deslocando e disse que aquela era outra razão pela qual não conseguíamos limpar. Pensei: será verdade? Será que não dá para transformar isso em vantagem? Por que passar pelo oceano, se o oceano passa pela gente? Essa foi a ideia básica.”

 

Leia o artigo completo na edição de fevereiro de 2017 de Seleções.

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