Tireoide TIRANA T1 T2 T3 T4

IRRITABILIDADE? APETITE INSACIÁVEL? DE PESO INCOMUNS? TALVEZ ESTEJA PULSAÇÃO LENTA? PERDA OU GANHO NA HORA DE EXAMINAR SUA TIREOIDE.
 

Eu não via minha amiga Jo fazia seis meses. Sabia que ela não estava bem de saúde, mas, quando nos encontramos no Festival de Blues de Byron Bay, na Austrália, fiquei chocada com a mudança de sua aparência.

Jo sempre fora magra, mas agora, aos 31 anos, estava esquálida. Antes, seus olhos brilhavam e ela vivia animada, agora se mostrava tensa e ansiosa. A base do pescoço estava visivelmente grossa e inchada, e o olho esquerdo, grande e saliente.

Quando dei uma olhada disfarçada em seu perfil, minha amiga ainda era bonita. Mas, de frente, mal reconheci aquela mulher espantada, com cara de maluca. “Notei que meu olho aumentava dia a dia”, disse ela, explicando o que a levara a procurar ajuda. Suspeitando de problemas na tireoide, o médico pediu exames de sangue e depois a encaminhou a um especialista. Os sintomas, que incluíam tremores incontroláveis, palpitações, perda excessiva de peso, ondas de calor e apetite insaciável, indicavam hipertireoidismo. Essa é uma doença autoimune, chamada doença de Graves.

“Eu também ia muito ao banheiro”, diz Jo. “Os sintomas foram ficando mais frequentes, mas, para mim, eram só estranhos.” Felizmente para Jo, um ano e meio após o diagnóstico o “olho saliente” voltou ao normal, e a glândula tireoide se reduziu.

Mas, numa estranha reviravolta do destino, pouco tempo depois de me encontrar com Jo no festival comecei a sentir tremores persistentes e incontroláveis, apesar de sutis. Eram perceptíveis a ponto de preocupar meu fisioterapeuta, numa consulta regular. Uma série de exames e uma ultrassonografia revelaram que a minha tireoide também estava hiperativa.

Só depois é que percebi que muitos problemas incômodos de saúde que desprezava como insignificantes eram sintomas da doença: intolerância ao calor (afinal, estávamos no verão); queda de cabelo (ora, todo mundo perde uns cem fios por dia); aumento do apetite; incapacidade de relaxar; menstruação mais leve que o normal; e idas frequentes ao banheiro. Na mesma hora, o médico me mandou tomar propiltiouracil, ou PTU, um medicamento antitireoidiano.

Acredita-se que a prevalência de hipertireoidismo no Brasil atinja cerca de 0,2% a 0,5% da população. Ela é mais prevalente em pacientes entre os 30 e os 50 anos e parece ser mais comum em certas famílias. Atinge mais as mulheres, numa proporção de dez mulheres para cada homem.

A tireoide é uma glândula pequena, em forma de borboleta, que fica na base do pescoço e produz hormônios que controlam o metabolismo do corpo, a altura e o desenvolvimento do cérebro nos fetos. Na doença de Graves, os anticorpos atacam a tireoide, que passa a produzir hormônio demais. Isso faz com que o metabolismo corporal fique exacerbado, e a tireoide aumenta de tamanho, provocando um sintoma conhecido como bócio. Em cerca de 40% dos casos, os anticorpos também atacam a musculatura ocular, causando os típicos olhos salientes.

Para a maioria dos pacientes, os problemas oculares se reduzem em três meses, mas, em alguns, podem durar até três anos. “Também pode haver inchaço, vermelhidão e edema ao redor do olho, lacrimejamento, coceira e sensação de areia nos olhos”, explica o Dr. Sérgio Blumenberg, endocrinologista do Hospital Israelita Albert Sabin, no Rio de Janeiro. “Em alguns casos, também, a lesão no músculo ocular pode provocar visão dupla”, complementa o médico. E o dano pode ser permanente.

Qual é a causa exata da doença autoimune da glândula tireoide? Os especialistas não têm tanta certeza, mas acreditam no papel da formação genética do paciente. “As disfunções tireoidianas e a doença autoimune (com presença de anticorpos antitireoidianos no sangue) são desencadeadas por fatores ambientais como estresse, infecções, etc. Mas há também o fator hereditário”, adverte o Dr. Lois Tadeu, chefe do setor de Endocrinologia do Hospital Memorial Fuad Chidid, no Rio de Janeiro.

O tratamento é um processo em duas etapas. Na maioria dos casos, com uma série de remédios os médicos conseguem desacelerar a produção de hormônio em um ano a um ano e meio. Se não funcionar, as opções incluem a remoção cirúrgica de boa parte da glândula e a ablação (ou destruição) da tireoide usando uma ou mais doses de iodo radioativo.

Por três vezes Jo interrompeu a medicação e depois voltou a tomá-la antes de os médicos finalmente dizerem que a doença estava em remissão. Desde que eu soube que estava doente, minha mãe, minha irmã e duas amigas também receberam o diagnóstico de problemas da tireoide. Minha mãe e minha irmã têm tireoide hipoativa, ou seja, têm problema oposto ao meu.

Quanto a mim, pela primeira vez em sete anos, parei de tomar os remédios; meus dois últimos exames de sangue mostraram que o nível de hormônio está na faixa normal. Cerca de 25% das pessoas que sofrem de doença de Graves entram em remissão. Vivo na esperança de que, algum dia, isso também aconteça comigo, como ocorreu com minha amiga Jo.

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