Tudo sobre perda auditiva

Quase seis milhões de brasileiros têm algum problema de audição. Descubra o que você pode fazer para não ser um deles.
 

<img src="/files/bra-por/attachments/pictures{2E18D26E-FFF2-480E-A027-68A4D6BB3EFC}_CE061101A-2.jpg" border="0" alt="problemas auditivos" title="audição" hspace="5" vspace="10" width="250" height="321" align="right" /><br /><p> A paraense Jussara Leal, 33 anos, não dispensa uma balada. “Passei minha juventude escutando música no volume máximo e freqüentando boates e festas em Belém”, conta ela. Mas, desde o Carnaval de 1997, a jornalista tem redobrado a atenção ao sair para se divertir em São Paulo, onde mora atualmente. “Naquele Carnaval, pulei cinco horas seguidas ao lado de um trio elétrico. Cheguei em casa ouvindo tudo abafado, e o que as pessoas falavam parecia distorcido. No dia seguinte acordei com um zumbido insuportável no ouvido esquerdo. Fiquei apavorada e corri para o médico”, recorda ela. Um exame audiométrico revelou perda de quase 80% na audição do ouvido esquerdo.</p><p>Que o mundo lá fora anda mais barulhento, não resta dúvida, e o excesso de ruído pode ser ainda maior para as novas gerações, que não vivem sem aparelhos sonoros em casa, no carro ou direto no ouvido (tocadores de MP3 ou iPods). No Canadá, mais de um milhão de pessoas têm problema de audição, e a superexposição ao barulho é responsável por 33,7% dos casos. No Brasil, de acordo com o IBGE, 5,7 milhões de pessoas têm algum grau de insuficiência auditiva. “E o índice porcentual dos que têm perda auditiva induzida por ruído (PAIR) pode ser ainda maior, pois aqui há muito mais barulho e um histórico de falta de controle em ambientes de trabalho”, estima o Dr. Alberto Nudelmann, da Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia. </p><p>Além disso, um estudo sobre conservação auditiva realizado em 2000, com mil estudantes entre 17 e 23 anos de uma universidade em São Paulo, revelou alterações da audição em 20,5% dos exames audiométricos. “Em quase todas as atividades de lazer também há exposição a níveis de pressão sonora elevados, seja de forma intermitente ou contínua”, afirma a Dra. Ana Claudia Fiorini, da Divisão de Educação e Reabilitação dos Distúrbios da Comunicação da PUC, em São Paulo.</p><p> Quando ouvimos bem, o ouvido externo capta a onda sonora e a “afunila” para dentro do canal auditivo até o tímpano, no ouvido médio. O tímpano vibra; o som é amplificado e transmitido para a cóclea, ou ouvido interno. Neste tubo cheio de líquido, milhares de pequeninas células ciliadas flexionam-se e dobram-se em resposta às vibrações. Elas geram impulsos elétricos que se propagam pelo nervo auditivo até o cérebro, que então as transforma em informação sonora. Qualquer imprevisto ao longo do caminho pode causar problemas.</p><p>Se o som não consegue atravessar o ouvido médio, você tem a chamada perda auditiva condutiva. Ela pode ser causada por grande variedade de doenças e condições, como acúmulo de cera ou infecção bacteriana, e não costuma durar muito. Os tratamentos em geral são bem-sucedidos e só ocasionalmente uma cicatriz causa dano permanente.</p><p>No entanto, a lesão do ouvido interno, ou perda auditiva neurossensorial, tem mais probabilidade de ser irreversível. O Dr. Antônio Lobo, professor de Otorrinolaringologia da Universidade Federal de Minas Gerais, explica que as células ciliadas do ouvido interno formam a estrutura nobre do aparelho auditivo. Se forem lesionadas, haverá prejuízo na percepção das freqüências sonoras na região atingida do ouvido interno. No caso de trauma acústico, por exemplo, a lesão ocorre principalmente na região onde estão as células responsáveis pela percepção de sons agudos. Nesse caso, há perda na capacidade de se discriminarem palavras ou sílabas que apresentem maior concentração de agudos.</p><p>Segundo o Dr. Luiz Carlos Alves de Sousa, presidente da Sociedade Brasileira de Otologia e coordenador da Campanha Nacional de Audição, “de todas as causas que levam à surdez, a exposição ao barulho é uma das poucas que podemos evitar. O problema é que a lesão auditiva não acontece da noite para o dia: é cumulativa. Uma hora usando um iPod acima de 100 decibéis hoje, somada a outras, pode, com o tempo, dificultar a compreensão durante a conversa”. Enquanto muitos trabalhadores usam protetores auriculares, as pessoas em geral não se preocupam com o barulho durante o lazer. </p><p>Para preservar a audição, é preciso estar atento à altura do som que ouvimos e ao tempo que ele dura. Qualquer tipo de ruído – um rock, uma sinfonia ou o barulho de uma máquina – pode causar problemas. A gravidade do dano depende da combinação entre tempo de exposição, intensidade (altura) e a suscetibilidade de cada pessoa. “Às vezes, há vários aparelhos ligados em casa, como máquina de lavar, microondas e computador, e os ruídos vão se somando sem que percebamos. É importante ficar alguns minutos em silêncio para dar descanso às células ciliadas”, aconselha a Dra. Eliane Schochat, presidente da Academia Brasileira de Audiologia. </p><p>Máquinas de lavar roupa, por exemplo, produzem um barulho de aproximadamente 75 decibéis. Você pode ficar exposto a essa quantidade pelo tempo que quiser. Mas se chegar a 85 decibéis – o ruído de um barbeador elétrico – é preciso limitar a exposição: nunca passe de oito horas por dia e faça intervalos de silêncio de pelo menos 15 minutos, a cada duas horas de ruído constante.</p><p>Sons altos podem causar lesões de maneira surpreendentemente rápida, conforme descobriu o engenheiro André Fernandes, 43 anos. Acostumado a vida toda a fazer parte da “turma do gargarejo” em shows e a freqüentar festas e boates barulhentas, André foi a um ensaio da Mangueira, escola de samba do Rio de Janeiro, no verão de 2004. Durante seis horas se divertiu com os amigos, tocando cuíca e tamborim, bem próximo aos ritmistas. “No dia seguinte, sentia meu ouvido tampado e ouvia um zumbido do lado direito”, lembra ele, que tomou fortes medicamentos durante um mês. “Voltei a escutar normalmente e passei a usar protetor auricular em festas e shows”, conta. No verão seguinte, porém, André foi de novo ao ensaio da escola, mas esqueceu os protetores. Dessa vez, o dano, já acumulado, foi irreversível. “Perdi parte da audição do ouvido direito. Não entendo bem o que as pessoas dizem quando estou num restaurante, por exemplo”, lamenta ele.</p> <p>A maioria de nós não anda por aí com um medidor de decibéis, por isso a Dra. Tanit Ganz Sanchez, professora de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da USP, dá uma dica básica: se, por causa do som ambiente, você precisar aumentar a voz para falar e ser ouvido por alguém do seu lado, certamente o barulho está alto demais. Outra sugestão útil vem do audiologista Marshall Chasin, da Clínica de Músicos do Canadá. Ele explica que fazer “huumm”, com a boca fechada, prolonga o reflexo de proteção do músculo estapédio (que age involuntariamente no ouvido e cujo reflexo protetor dura entre 15 e 20 segundos). Algo para lembrar quando estivermos num avião decolando!</p><p>Nem sempre percebemos imediatamente os efeitos da lesão por exposição ao ruído. O Dr. Arnaldo Guilherme, professor do Departamento de Otorrinolaringologia e Distúrbios da Comunicação da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), diz: “O ouvido não é como a pele, cujas células se renovam todos os dias. Nascemos e morremos com a mesma quantidade de células auditivas. Uma vez destruídas, não há possibilidade de recuperação. Aos 18 anos não se percebem os danos causados pelo barulho, mas é certo que estamos criando uma geração de surdos em potencial.” A presbiacusia, envelhecimento natural do ouvido em decorrência da idade, “que antes se notava aos 65 anos, hoje já aparece em quem tem entre 45 e 50 anos”, acrescenta o médico.</p><p><br />Foi o que aconteceu com o marceneiro Estevão Luís de Almeida Batista, 49 anos, que começou na profissão ainda adolescente. Durante 30 anos Estevão ficou exposto a mais de 94 decibéis durante oito horas por dia. “Trabalhava sem qualquer tipo de proteção, não sabia do risco que corria”, conta ele. Há três anos, o marceneiro está afastado do trabalho por causa da perda auditiva nos dois ouvidos. Estevão faz uso de calmantes para driblar um zumbido incômodo e não entende direito o que as pessoas dizem. </p><p>“Se alguém conversar comigo sem me olhar diretamente ou em movimento, muitas palavras passam despercebidas. Ao assistir à TV, vou aumentando o volume, até alguém gritar que está alto demais”, conta ele.</p><p>Há casos em que as pessoas perdem a audição em um, ou, em casos mais raros, nos dois ouvidos. Essa perda auditiva súbita ainda não é bem compreendida. O Dr. Arthur Castilho, presidente da Sociedade Paulista de Otorrinolaringologia, explica: “A surdez súbita não tem causa específica, e sua origem ainda é desconhecida. Pode ser causada por um problema inflamatório, uma infecção viral por herpes, ou um derrame no ouvido interno.” O médico adverte que a rapidez no atendimento é indispensável para o sucesso do tratamento. “É um caso de emergência, que precisa de antivirais e corticosteróides administrados simultaneamente. Se o paciente procurar ajuda nas primeiras 72 horas, tem mais chance de recuperar a audição. Depois de 15 dias, já é tarde demais.”</p><p> Se você tem algum problema auditivo, há muitas opções para ajudá-lo a levar uma vida melhor. Várias pessoas com deficiência, no entanto, ainda resistem ao uso de um aparelho de amplificação sonora individual (AASI), ou por vergonha ou por experiências malsucedidas com os modelos analógicos antigos, que amplificavam o som como um todo. “Quem tem perda auditiva leva, em média, sete anos para procurar ajuda, e depois ainda demora quase três anos para começar a usar uma prótese. Hoje os aparelhos estão mais modernos, discretos e eficazes”, diz o Dr. Jair de Carvalho e Castro, chefe do Serviço de Otorrinolaringologia da Santa Casa da Misericórdia, no Rio de Janeiro.</p><p>Os modernos AASI digitais custam entre R$ 1.800 e R$ 12 mil (por ouvido) e têm chips internos com modulações específicas para cada som que se deseja amplificar. Para quem não pode arcar com o custo, a Política Nacional de Atenção à Saúde Auditiva, do Ministério da Saúde, garante o acesso gratuito a um AASI pelo Sistema Único de Saúde (SUS). </p><p>A psicopedagoga Cárita Kruse Soares, de 56 anos, que mora em Votorantim (SP), teve difteria com pouco mais de 1 ano de idade, e o excesso de antibióticos prejudicou sua audição. Mais tarde, por volta dos 4 anos, uma travessura destruiu o que restava: ela saiu escondida de casa e foi surpreendida por uma explosão de dinamite na pedreira onde o pai trabalhava. </p><p>Depois de ficar frustrada com três AASIs analógicos, comprados em 1985,  1996 e 1997, e logo engavetados, Cárita adquiriu um novo modelo digital em abril do ano passado. “Hoje durmo ouvindo grilos e me levanto escutando passarinhos. Além de valorizar o som que está mais próximo, meu aparelho tem quatro programas personalizados: um para conversas em locais tranqüilos, outro para os ensaios do coral, um para valorizar a fala em locais ruidosos, como salas de aula e shoppings, e um último que ainda está vazio”, explica a psicopedagoga que também é soprano do coral Ars Mvsica Sacra, do Mosteiro de São Bento de Sorocaba. A programação do aparelho é feita de acordo com as atividades e o ambiente freqüentado pelo usuário.</p><p>Em alguns casos de surdez profunda bilateral, em que as próteses auditivas não surtem efeito, a cirurgia de implante coclear, ou ouvido biônico, pode ser a única opção. O procedimento consiste na introdução de um dispositivo eletrônico computadorizado no ouvido interno, que vai assumir a função da cóclea (transformando a energia sonora em sinais elétricos, que, posteriormente, serão decodificados e enviados ao córtex cerebral). </p><p>Cerca de 40 dias depois, o paciente recebe as outras partes do equipamento: microfone, antena e processador minúsculos, acoplados atrás da orelha. Eles decodificam o som natural e o transmitem, por sistema de radiofreqüência, para o dispositivo interno.</p><p>“A cirurgia pode ser realizada em adultos e crianças a partir dos 6 meses de idade. É indicada nos casos de surdez profunda ocasionada por traumatismo craniano, meningite, tumores, doenças congênitas ou hereditárias. Quanto mais cedo for realizada, melhor a reabilitação”, orienta o Dr. Orozimbo Alves Costa Filho, chefe do Centro de Pesquisas Audiológicas do Hospital de Pesquisa e Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC), da USP de Bauru.   </p><p>Aos 17 anos, Marcos Antonio de Jesus Santos viu sua vida mudar por causa de uma meningite: ficou surdo dos dois ouvidos. “Em uma semana, o silêncio tomou conta da minha vida”, recorda o publicitário, de 32 anos. Quase dez anos depois, Marcos se submeteu a uma das primeiras cirurgias no país de implante coclear. “Para mim o implante foi um milagre. Cada vez que volto ao hospital para mapear o som, fico muito animado. Minha audição é quase perfeita”, comemora Marcos, que virou um “pé-de-valsa” há pouco mais de dois anos, logo depois que se submeteu a outro procedimento cirúrgico (o publicitário teve substituído o dispositivo antigo por um modelo mais moderno, com sistema de FM, ideal para amplificar o som em ambientes ruidosos). “Depois deste último implante, consegui realizar um sonho antigo de fazer dança de salão. Dançar sem ouvir a música é muito frustrante.”   </p><p>Hoje os sistemas de FM no Brasil são encontrados apenas em algumas escolas e salas de conferência. A tendência é que no futuro igrejas, escolas e salas de concertos disponham do sistema, que transmite o som a partir do microfone de lapela do emissor (palestrante, professor ou cantor) e o amplifica. O som puro é captado diretamente pelo AASI ou implante coclear do usuário (receptor).</p><p>Talvez haja soluções ainda mais inovadoras por perto. Donald Henderson, professor do Centro para Audição e Surdez da Universidade Estadual de Nova York, ajudou a desenvolver uma pílula para neutralizar os efeitos do barulho. </p><p>Em testes realizados pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, a pílula conseguiu reduzir a perda auditiva em condições de batalha. Outros pesquisadores estão buscando maneiras de regenerar as células ciliadas do ouvido interno. Mas até o momento “são apenas testes”, explica o Dr. Jamie Rappaport, chefe de Otologia e Neuro-otologia do Jewish General Hospital, em Montreal.</p><p>Quando se trata de barulho, evitar a exposição a ele ainda é a medida mais segura para garantir a boa audição. O Dr. Jair de Carvalho e Castro diz: “Sou um defensor da prevenção. A surdez gera problemas sociais, familiares, profissionais e psicológicos, e pode levar à depressão. É importante se proteger em ambientes muito barulhentos, por meio do uso de protetores auriculares, e incluir o exame audiológico no check-up geral. Há 25 anos, quando comecei a clinicar, a maioria dos meus pacientes era de idosos; agora atendo mais jovens e adultos. Sempre faço este alerta: hoje a vida está mais ruidosa. E destruir a audição é estragar sua qualidade de vida.”   </p><p><br /><strong>Os problemas na audição podem ser resultado de envelhecimento, infecções, lesão relacionada ao barulho ou hereditariedade.</strong></p><table border="0" class="texto_cinza"><tbody><tr><td><font face="arial,helvetica,sans-serif" size="1"> <img src="/files/bra-por/attachments/pictures{A1918087-E555-40DC-928C-172FA4DC89B9}_implante_coclear-2.jpg" border="0" alt="Implante coclear" title="Implante coclear" width="156" height="181" align="left" /></font></td><td>1. O implante coclear. Implantado cirurgicamente, transforma o som em sinais elétricos, depois  enviados ao  córtex cerebral.</td></tr><tr><td><font size="1"><font face="arial,helvetica,sans-serif"> </font>2. Exemplos de aparelhos de amplificação sonora individual (AASI). Usados por trás do ouvido ou no  canal auditivo, podem ajudar nas deficiências  moderada e grave.</font></td><td>  <p><strong><img src="/files/bra-por/attachments/pictures{1D2EE0A2-2A1C-486C-852A-BDA9B89455B2}_CE061101D-2.jpg" border="0" alt="aparelhos auditivos" title="aparelhos auditivos" width="156" height="124" align="right" /></strong></p></td></tr><tr><td> <img src="/files/bra-por/attachments/pictures{98D30920-6683-4968-B46E-B582FBDED078}_CE061101B-2.jpg" border="0" alt="Sistema FM" title="Sistema FM" width="156" height="124" align="left" /></td><td>3. Sistemas de FM permitem que uma pessoa, usando  um pequeno microfone, transmita o  som diretamente a deficientes auditivos por meio de ondas de rádio.</td></tr><tr><td> </td><td> </td></tr></tbody></table><br /><br /><br /><br /><strong><p></p></strong><p></p>   <p></p><p></p>

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