Vertigem controlada

A tontura tira você do eixo? O diagnóstico e o tratamento corretos podem ajudar.
 

Text Box:  “EU ESTAVA NO CHUVEIRO e, de repente, o mundo começou a girar”, diz Lyn Roberts, 54 anos. “Só consegui me arrastar até a cama e esperar que passasse. E passou.”

A analista de negócios de Victoria, no Canadá, ficou surpresa e aliviada. Mesmo assim, se preocupou.

Lyn tinha razão de se preocupar. Seis anos antes, ela passara maus pedaços com vertigem e fora parar duas vezes no hospital com a náusea e os vômitos que acompanhavam o problema. Nem quando os episódios finalmente acabaram ela obteve um diagnóstico definitivo da causa da vertigem. Assim, quando o problema voltou dois anos atrás, ela temeu o que poderia acontecer. Nos meses seguintes, os ataques ficaram cada vez mais frequentes. Em 2015, o clínico geral a encaminhou a um otorrinolaringologista.

Na primeira consulta, o especialista disse a Lyn que achava que ela sofria de vertigem posicional paroxística benigna (VPPB). Para ter certeza, ele a encaminhou a uma clínica local de neurofisiologia, onde foram feitos exames específicos para provocar a vertigem.

“Quando voltei ao otorrino depois dos exames, ele me disse que eu tinha mesmo VPPB. Fiquei muito aliviada de não ser nada mais grave”, diz ela. “A vertigem vinha me perseguindo. Eu temia que ela me impedisse de ter uma vida plena, de velejar com meu marido, de brincar com minha neta.”

De acordo com uma revisão sistemática de 20 estudos anteriores feita pela University College London em 2015, até um décimo da população adulta global terá vertigem em algum momento da vida; de 17% a 30% terão tontura significativa. Em termos médicos, a vertigem significa que a percepção do movimento do corpo não se alinha com a realidade; o mundo gira, não a pessoa. Por outro lado, a tontura tem mais a ver com desorientação espacial, sem a falsa ou distorcida sensação de movimento. Pode envolver desequilíbrio ou a pessoa sentir que vai desmaiar. Há dezenas de causas possíveis para tontura ou vertigem, como glicemia baixa, efeitos colaterais de medicamentos, desidratação ou AVCs. No entanto, com frequência o problema nasce no sistema vestibular do ouvido interno, essencial para o equilíbrio e a orientação. Seus componentes percebem os movimentos da cabeça e como eles se relacionam com a força da gravidade. O sistema envia essa informação ao cérebro para nos ajudar a estabilizar o olhar e a andar sem cair.

O sistema vestibular pode decair com a idade. De acordo com uma estimativa de 2009 publicada na revista Archives of Internal Medicine, baseada numa amostra de mais de 5 mil americanos, cerca de 35% dos adultos com mais de 40 anos apresentam disfunção desse sistema.

A culpada comum: a VPPB

Um dos problemas vestibulares diagnosticados com mais frequência é a vertigem posicional paroxística benigna, como a de Lyn. No ouvido interno, há pedacinhos de cálcio, os chamados otolitos, que rolam e acionam células com cílios sensoriais. A VPPB começa quando um desses pedacinhos se solta. O cálcio deslocado sai flutuando e estimula os receptores que monitoram o movimento do fluido do ouvido interno, enviando mensagens confusas ao cérebro. O resultado são ataques de vertigem que, em geral, duram alguns minutos ou menos.

A VPPB tende a sumir em poucas semanas ou meses, possivelmente porque o cristal de cálcio se dissolve no fluido do ouvido interno. Caso o problema não se resolva, geralmente é possível curá-lo com tratamentos rápidos e indolores que envolvem o reposicionamento da partícula. A abordagem mais estudada é a manobra de Epley, que, em 70% a 80% dos casos, resulta em alívio imediato. Nessa técnica, o médico move a cabeça do paciente para determinada posição – 45 graus no sentido do lado afetado, por exemplo – durante cerca de 30 segundos cada. A meta é fazer os detritos saírem do fluido do ouvido e irem para outra área onde não causem problemas. O otorrino de Lyn lhe mostrou como fazer a manobra de Epley.

“A manobra me ajuda muito. É ótimo haver algo que posso fazer para impedir os episódios ou não deixar que durem”, diz ela.

Por motivos ainda não totalmente claros, há uma boa chance de que a VPPB retorne; as estimativas da taxa de recorrência chegam a 50% em três anos. O bom é que repetir a manobra de Epley provavelmente resolverá o problema outra vez.

Embora seja bastante simples fazer o reposicionamento por conta própria em casa, o neurologista Dr. Alexandre Bisdorff, de Luxemburgo, avisa que primeiro é bom confirmar o diagnóstico, para não deixar de lado algum problema mais grave. Nos casos em que esse tratamento não invasivo das partículas não funciona depois de várias tentativas, a cirurgia pode resolver.

Transtornos complexos e sintomas crônicos

Nem todo problema vestibular pode ser resolvido tão prontamente quanto a VPPB. Quando Melanie Simms sentiu tontura e dor de ouvido em agosto de 2007, era apenas o começo de uma odisseia médica. Disseram à estudante de Aldbrough, em Yorkshire, na Inglaterra, então com 20 anos, que ela estava com uma infecção no ouvido interno. Os sintomas deveriam ter desaparecido quando o sistema imunológico de Melanie matou o vírus, mas as lesões eram duradouras.

“Passei cerca de um ano dizendo aos médicos que não estava melhorando”, recorda Melanie.

Ambientes estimulantes como um supermercado a deixavam quase debilitada; às vezes, precisava da ajuda de alguém para andar. Finalmente, em 2009, um otorrinolaringologista lhe perguntou durante uma consulta: “Quando o carro para, parece que ainda está andando?” Melanie ficou muito aliviada por encontrar alguém que parecia entender seu problema.

Ela recebeu o diagnóstico de neurite vestibular não compensada, um dos vários transtornos que provocam tontura ou vertigem constante. (Outro é a doença de Ménière, que resulta de uma quantidade anormal de fluido no ouvido e também pode provocar tinido e perda auditiva.) Embora nem sempre haja cura para as vestibulopatias crônicas, o tratamento pode minimizar os sintomas. Dependendo do diagnóstico, usam-se medicamentos, cirurgias e terapia de reabilitação vestibular.

A reabilitação pode se ajustar a sintomas específicos, segundo Lena Kollén, fisioterapeuta vestibular de Gotemburgo, na Suécia. Ela e seus colegas elaboram planos que envolvem todo o sistema de equilíbrio do paciente “e podem incluir muita coisa, de movimentos da cabeça a
se equilibrar num só lugar de olhos fechados”, explica Lena.

Para Melanie, os exercícios começaram com movimentos do queixo para cima e para baixo com os olhos focalizados primeiro num padrão
estático, depois na televisão. A esperança é que aos poucos o cérebro aprenda a compensar as imperfeições dos sinais que recebe confiando nos outros sentidos para se orientar.

No início deste ano, Melanie terminou as sessões de fisioterapia. Agora ela consegue trabalhar como recepcionista de um hospital e também ajuda a administrar o Grupo de Apoio de Equilíbrio de Yorkshire. Uma das metas dessa entidade é aumentar a consciência do público a respeito das vestibulopatias.

“Muita gente se sente sozinha e com medo por não saber o que está acontecendo”, diz Melanie. “Mas essas doenças são mais comuns do que se pensa.”

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