Molnupiravir: o que se sabe sobre o antiviral que pode acabar com a Covid-19





Apesar de todo o avanço em relação às vacinas da Covid-19, os pesquisadores ao redor do mundo continuam trabalhando para encontrar medicamentos que tratem o vírus. A maioria dos tratamentos com Covid-19 ainda está nas fases iniciais dos testes clínicos, mas, recentemente, os cientistas compartilharam resultados positivos para uma pílula chamada molnupiravir, que pode tratar casos leves de Covid-19. Muitos estão comparando a terapia com o Tamiflu para a gripe.

“Acredito que pode ser muito significativo se esse medicamento apresentar resultados clínicos realmente importantes, [como] uma redução no risco de doenças mais graves ou as pessoas ficarem sintomáticas por um período mais curto de tempo”, disse David Herschwerker, médico assistente em doenças infecciosas na Northwell Health em Manhasset, Nova York. “O Tamiflu geralmente reduz a duração dos sintomas e isso pode ser muito importante, especialmente para as populações mais vulneráveis.”

No momento, não há evidências dos benefícios do molnupiravir, mas especialistas esperam que os resultados da pesquisa estejam disponíveis até o final do ano.

O que é o molnupiravir?

O molnupiravir é um medicamento antiviral desenvolvido pela MSD and Ridgeback Therapeutics. Como outros antivirais, o molnupiravir interfere na capacidade de replicação do vírus, nesse caso em específico o Sars-Cov-2, vírus que causa a Covid-19. Se o vírus não se replica, não causa sintomas e não pode se espalhar.

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No Brasil, o antiviral está sendo testado no Hospital das Clínicas de Curitiba, onde está indo para a fase 3 agora, na qual 50 pessoas tomarão o medicamento. A previsão é que os resultados por todo o mundo sejam divulgados ainda em dezembro de 2021.

Em março, os co-desenvolvedores do remédio anunciaram os resultados de um ensaio de fase 2 mostrando que o molnupiravir era seguro entre 202 pessoas e reduziu a quantidade de tempo que os participantes tinham níveis detectáveis ​​do vírus em suas narinas.

Após cinco dias, nenhum dos 47 participantes que tomaram molnupiravir testou positivo para Covid-19, em comparação com 24% de seus colegas (6 em 25) que tomaram placebo. O estudo envolveu 202 pacientes de Covid-19 que não foram hospitalizados. As descobertas do estudo são um bom sinal, mas são apenas um primeiro passo.

O objetivo dos estudos de fase 2 é confirmar a segurança de um medicamento em um pequeno grupo de pessoas. Os ensaios de fase 3, que são maiores e examinam mais de perto a eficácia e a segurança de seus objetos, são os próximos para o molnupiravir.

O que ainda não se sabe

O estudo recentemente concluído foi pequeno e os resultados não foram revisados ​​por pares, passo importante para eliminar estudos inválidos ou de baixa qualidade. É importante ressaltar que a pesquisa não avaliou qual efeito o molnupiravir teve no curso da doença real. Ou seja, os pesquisadores não sabem se ele reduz hospitalizações ou mortes ou se simplesmente mata o vírus.

“Até que tenhamos essa informação, serei um pouco cético”, diz Adarsh ​​Bhimraj, presidente das diretrizes de tratamento da Sociedade de Doenças Infecciosas da América Covid-19. “Vimos muitas coisas que matam o vírus, mas não se traduzem em resultados significativos para os pacientes.”

O estudo de fase 3 fornecerá mais informações de que precisamos, como, por exemplo, se há algum benefício em termos de alívio de sintomas ou da gravidade da doença.

Com vacinas, por que ainda precisaríamos de tratamentos com Covid-19?

Mesmo com a CoronaVac, desenvolvida pela Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, e a vacina de Oxford/AstraZeneca, que está sendo produzida no Brasil pela Fiocruz, ainda vamos conviver com o vírus por um bom tempo. Isso porque, embora as vacinas sejam excelentes, elas podem ser superadas por novas variantes e o ritmo de vacinação no nosso país está bastante lento, com apenas 3% da população vacinada desde janeiro. É importante lembrar que o fim da pandemia, a Covid-19 não deixará de existir.

Uma vacina em pílula?

O que é melhor do que uma vacina? Potencialmente, uma vacina em pílula. A empresa Oravax planeja iniciar um ensaio clínico com esse candidato no segundo trimestre de 2021.

A pílula da empresa mostrou bons resultados após apenas uma dose em animais e pode cobrir mutações. Desnecessário dizer que uma pílula de vacina seria mais fácil de tomar e administrar do que uma injeção, mas ainda há uma distância entre os estudos pré-clínicos em animais e os estudos em humanos que comprovam a eficácia e a segurança.

Tratamentos atuais contra a Covid-19

Quase 3 milhões de pessoas morreram em virtude da Covid-19 ao redor do mundo. (Imagem: CDC/Pexels)

A maioria das terapias disponíveis para tratar casos de Covid-19 até o momento são para pacientes gravemente enfermos, geralmente hospitalizados. No Brasil, a Anvisa aprovou apenas um medicamento antiviral, chamado remdesivir.

“O benefício não é grandioso”, diz o Dr. Herschwerker. “Isso reduz o número de dias de doença, mas não há impacto na mortalidade.”

Anticorpos coletados de pacientes que sobreviveram ao vírus – conhecido como terapia de plasma convalescente – se mostraram promissores, mas devem ser administrados por via intravenosa, seja em um hospital ou clínica especial.

“O esteróide dexametasona salva vidas, mas também costuma ser administrado apenas em hospitais.” Conclusão: “Na maioria das vezes, tivemos alguns benefícios modestos para pacientes gravemente enfermos”, diz o Dr. Bhimraj.

O impacto potencial de uma pílula contra Covid-19

Não apenas continuaremos precisando de novos tratamentos, mas especialmente de ajuda para pessoas com casos leves da doença, muitos dos quais são mais jovens. Uma pílula que não seja cara e que possa ser administrada precocemente a pacientes com casos leves da doença seria excelente.

“Embora a maioria neste grupo de pacientes melhorasse por conta própria, se um deles transmitir Covid-19 a um idoso com problemas cardíacos, ele pode morrer”, disse o Dr. Bhimraj, que também é chefe da seção de doenças infecciosas neurológicas do Cleveland Clinic.

Outros medicamentos contra Covid-19 em desenvolvimento

Como o molnupiravir, outros medicamentos estão em vários estágios de desenvolvimento. Nenhum tem resultados robustos de fase 3. Alguns remédios para prestar atenção ao redor do mundo e também no Brasil:

  • PF-07321332: da Pfizer, também forneceria tratamento nas fases iniciais da doença. É um tipo de medicamento antiviral conhecido como inibidor de protease, que seria administrado na forma de pílula duas vezes ao dia durante cinco dias. Os resultados de segurança são esperados dentro de semanas e os ensaios para avaliar a eficácia devem começar depois.
  • Upamostat: o antiviral está sendo estudado em pessoas com Covid-19 ainda no início da doença.
  • Opaginibe (Yeliva): Este medicamento antiviral e anti-inflamatório está em desenvolvimento como um possível tratamento para Covid-19. Ele pode reduzir a necessidade de oxigênio em certos pacientes quando adicionado ao remdesivir ou à dexametasona.
  • Favipiravir: outro antiviral oral, aprovado no Japão para a gripe. Enquanto isso, o mesmo medicamento, sob a marca Avifavir, é aprovado na Rússia para o Covid-19. Muito parecido com o estudo do molnupiravir, um estudo russo descobriu que mais pessoas que tomaram Avifavir tiveram resultados negativos para SARS-CoV-2 do que aquelas que tomaram placebo. Os pesquisadores também estão investigando se o favipiravir pode prevenir o Covid-19.

No Brasil, além do monulpiravir no Hospital das Clínicas de Curitiba, há testes para o soro do Butantan e o coquetel anticovid da Roche.

Há alguma preocupação de que os medicamentos atualmente em desenvolvimento possam não ser úteis contra as variantes do Covid-19. “Haverá uma necessidade de fazer testes da terapêutica contra as variantes”, diz o Dr. Herschwerker.

Continue se prevenindo contra a Covid-19

Lavar as mãos é fundamental para a prevenção da Covid-19. (Imagem: Burst/Pexels)

O Brasil continua a registrar uma média móvel de 4 mil mortes por dia por causa da Covid-19, totalizando mais de 350 mil óbitos desde março de 2020. Portanto, embora a notícia de uma pílula contra a Covid-19 seja promissora, não é um sinal de que a pandemia acabou. E, embora as vacinas possam ser a chave para o fim da pandemia, não é provável que eliminem a Covid-19 completamente.

Os tratamentos atuais “estão muito melhores do que há um ano, mas não são perfeitos”, diz o Dr. Schaffner. Enquanto isso, novos medicamentos estão no horizonte, mas ainda não chegaram. O mais importante agora é se vacinar e acompanhar os esforços de prevenção. Isso significa usar máscaras PFF2, manter o distanciamento social, não se reunir em grandes grupos e lavar as mãos com frequência com água e sabão.