Janeiro Branco: campanha de 2021 propõe um pacto pela saúde mental





Criada em 2014, a Campanha Janeiro Branco chega à sua 8ª edição. Considerando o desgaste mental e os desafios que a sociedade teve que enfrentar em 2020 por conta do coronavírus, a campanha chega este ano propondo um pacto pela saúde mental em que “Todo cuidado conta!”.

Desde o início da pandemia, os casos de depressão e ansiedade subiram consideravelmente. De acordo com uma pesquisa publicada pela Journal of Medical Internet Research e realizada entre abril e maio do ano passado, mais de 47% dos trabalhadores de serviços essenciais apresentaram depressão ou ansiedade devido à pandemia.

Outros problemas de saúde mental também surgiram nesse período, como a síndrome da cabana; que é o medo exagerado de sair de casa. Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), agorafobia e síndrome do pânico foram outras doenças muito comuns nesse período, inclusive em crianças.

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Cientes desse panorama, os organizadores da campanha se mobilizaram para conscientizar o maior número de pessoas sobre a importância do cuidado da saúde mental. Com uma programação ampla, eles pretendem divulgar informações sobre tratamentos e conteúdos de prevenção.

Sobre o Janeiro Branco

Imagem: ThitareeSarmkasat/iStock

O mês de janeiro carrega uma simbologia muito forte. É quando recomeça o ano, quando determinamos metas e quando avaliamos nossa jornada. É também o momento mais propício para buscar uma vida mentalmente mais saudável.

O nome Janeiro Branco traz essa proposta para a campanha, de um reinício, uma página em branco, com mais autocuidado. Por meio de palestras, workshops, oficinas, lives, participações na mídia etc. a campanha espalha suas ideias e tenta promover as questões da saúde mental, além de gerar uma ação pessoal concreta; o que realmente fará a diferença.

Segundo uma pesquisa realizada no final de 2020 pelo Ministério da Saúde, 86,5% das pessoas apresentaram ansiedade devido à pandemia, enquanto 45,5% foram diagnosticadas com transtorno de estresse pós-traumático.

Esses problemas de ordem emocional podem afetar o autodesenvolvimento, o bem-estar físico e a vida em sociedade. Por isso, a Campanha Janeiro Branco este ano, mais do que nunca, será fundamental.

A importância da Campanha no Brasil

Idealizada pelo psicólogo, palestrante e escritor Leonardo Abrahão, a Campanha Janeiro Branco vem ganhando cada vez mais notoriedade no país e no mundo; estando presente também no Japão, Estados Unidos, Portugal e África. 

Com o objetivo de construir uma cultura de saúde mental na humanidade, os desafios se renovam ano após ano. Em entrevista, Leonardo faz um balanço sobre a campanha e aponta a importância desse movimento na sociedade atual.

Imagem: Divulgação

Seleções – A pandemia foi um fator importante no agravamento de problemas psicológicos que vinham sendo tratados mas foram interrompidos. Qual a proposta que a Campanha Janeiro Branco apresenta para lidar com essa realidade?

Leonardo Abrahão – A Campanha Janeiro Branco entende que, em termos políticos, sociais e institucionais, as autoridades públicas e os nossos governantes  precisam entender a necessidade (e a urgência) de mais políticas públicas dedicadas às melhorias na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS/SUS) que existe no Brasil. 

A população necessita ter acesso gratuito e universal a serviços públicos de Saúde Mental — a RAPS/SUS existe para isso, ela precisa ser defendida, promovida e melhorada.

Em termos particulares e pessoais, os indivíduos devem conhecer e continuar seguindo as melhores orientações disponíveis sobre como proteger, promover e fortalecer sua saúde mental em quaisquer circunstâncias. 

Por exemplo, investindo em autoconhecimento, autonomia existencial e técnicas terapêuticas acessíveis a todo mundo; em vínculos sociais profundos e significativos, mesmo que online; e em atividades culturais criativas e genuínas. 

Além disso, dedicando-se ao desenvolvimento de espiritualidades saudáveis e harmônicas; respeitando as orientações científicas relativas à qualidade de vida; praticando exercícios físicos; reconhecendo-se enquanto um ser ecológico e desenvolvendo um relacionamento com a natureza; e cultivando sentidos existenciais, sociais e profissionais autênticos e próprios.

Imagem: metamorworks/iStock

Seleções – Qual a estratégia de divulgação e de impacto que a Campanha Janeiro Branco tem feito para alcançar todo mundo neste momento tão complicado de pandemia?

Leonardo – Diariamente, durante a Campanha, profissionais da Saúde Mental e voluntários do Janeiro Branco concedem milhares de horas de entrevistas sobre Saúde Mental para os veículos jornalísticos de todo o país. 

Por causa da Campanha, a saúde mental virou pauta no Brasil. Além disso, esses mesmos profissionais e voluntários, a convite de instituições públicas e privadas brasileiras, também realizam diversas palestras, lives e rodas de conversa online sobre o assunto . 

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Por fim, em locais abertos e de acordo com medidas sanitárias de segurança, os voluntários distribuem panfletos e oferecem orientações sobre saúde mental para pessoas em espaços públicos e privados. Um verdadeiro exercício de amor à causa em prol da construção de uma cultura verdadeira.

Seleções – Nesses 8 anos de campanha, qual o balanço que você faz sobre os resultados alcançados?

Leonardo – O Janeiro Branco fez com que os temas relacionados à saúde mental virassem pauta em nossa sociedade. Isso, por sua vez, ajuda, sobremaneira, na consecução do nosso principal objetivo: uma cultura da saúde mental no mundo. 

Agora, em 2021, propusemos um Pacto Pela Saúde Mental — um pacto em que fique claro e evidente que ”todo cuidado conta”, quando o objetivo é o desenvolvimento de vidas mais emocionalmente saudáveis. 

Gradativamente, a Campanha Janeiro Branco está psicoeducando e conscientizando inúmeras pessoas e instituições sociais a respeito das várias e importantes questões desse universo da saúde mental. Os saudáveis e positivos desdobramentos em consequência disso já podem ser percebidos e repercutirão por séculos à nossa frente.

Imagem: Divulgação

Seleções – Sabendo da importância de políticas públicas em todos os âmbitos da saúde mental, como você analisa as ações do atual governo nessa área e quais as possíveis consequências a longo prazo?

Leonardo – Desde 2017, os governos brasileiros têm se colocado na contramão de tudo o que diz respeito à ideologia sistêmica, ao processo humanizatório e ao perfil democrático, social e progressista com que a Política Nacional de Saúde Mental brasileira veio sendo construída desde o início do período de redemocratização do nosso país e da eclosão das lutas antimanicomiais que a consubstanciaram. 

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A arbitrária substituição de uma visão holística, publicista, integrativa, humanista, multiprofissional e interdisciplinar de serviços psicossociais em saúde mental por uma visão medicalizante, privatista, individualista, psiquiatralizante e hospitalocêntrica agredirá, e muito, a valorosos princípios epistemológicos, metodológicos e estruturantes do SUS (Sistema Único de Saúde)

Desse modo, acabará resultando em sérios retrocessos a modelos excludentes e questionáveis de atendimento em saúde mental que a reforma psiquiátrica brasileira há muito superou.

Seleções – Você acredita que o recurso de consultas online, adotado no período de quarentena e lock down, auxiliou na conscientização e adesão de mais pessoas no cuidado da saúde mental?

Leonardo – Auxiliou e continuará auxiliando no processo de democratização do acesso das pessoas a serviços de Saúde Mental. As novas tecnologias podem oferecer respostas, soluções e estratégias para necessidades que ainda possuímos; como a necessidade de levarmos informações, de qualidade, a todos os espaços em que as pessoas se fazem presentes. 

Usando-as de maneira consciente, humanizada, humanizante, harmônica e sensata, sem nos deixarmos sequestrar por fetiches e alienações técnicas e ideológicas, as novas tecnologias sempre contribuirão para avanços civilizatórios por parte de toda a humanidade.

Saiba mais sobre a Campanha Janeiro Branco em: janeirobranco.com.br

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