Não que ela gostasse de cozinhar, mas se esforçava porque era assim desde que saiu de casa no interior de Minas e se casou com o homem que lhe deu o chão. Largou a faculdade e as aulas de piano porque os cursos eram muito desorganizados e ela não gostava de acordar cedo. Então, como passava a maioria dos dias e tardes em casa, ela cozinhava, quando não conseguia encontrar ajudantes. Ficava exausta, mas ao menos cumpria um dever. Dormia cedo em compensação, muito antes do marido.

Era uma exausta.

Ela se esforçava em variar os pratos porque ele era exigente.

Especialmente em matéria de carne, já que odiava legumes e só comia uma única folha de alface. Ela tentava caprichar na carne para que o frango não ficasse com gosto de frango, o peixe não ficasse com gosto de peixe e a carne vermelha a mesma coisa.

Só que ela não entendia de temperos. Chegou a comprar alguns livros para aprender; saiu do óbvio, mas talvez secretamente não quisesse agradar. Até porque as respostas às suas tentativas não eram lá muito incentivadoras.

Não houve um só dia em que o marido elogiasse qualquer comida à mesa. Os filhos comiam em silêncio, já esperando a resposta negativa. Como estavam sempre famintos, não viam diferença entre um prato que demorou 3 horas para ser feito e outro que ficou pronto em vinte minutos.

Devoravam e saíam da mesa porque ninguém tinha assunto.

O homem provava as carnes e deixava de lado, arrastando com o garfo: “Tá com gosto de frango. Meu prato parece um galinheiro.”

E assim se repetia todas as vezes para todas as carnes.

Até que, nas carnes vermelhas, como se a reação fosse mais forte diante do gosto de “boi”, o marido começou a cuspir. E durante um bom tempo a infância dos filhos à mesa ficou marcada pela boca do pai devolvendo a carne mastigada.

Não houve um só dia em que comeram todos felizes.

O tempo, como era de se esperar, passou.

Os filhos cresceram e sumiram, com a exceção dos Natais. O homem envelheceu bem antes e bem pior que a mulher. Precisou de cuidados. Os dentes não conseguiam mastigar carnes. Era um decrépito. Não tinha mais condição sequer de se levantar.

A mulher, que só tentava agradar ao marido porque na realidade ele lhe dera um chão, entendeu que estava livre da obrigação das carnes. Mas quem disse que ela faria a sopa? Tratou de encomendar na esquina uma sopa do botequim – e era isso.

Ninguém que sabia da história a condenou.

Se ele sempre cuspiu as carnes estando sóbrio, na demência, lhe cuspiria a sopa.

Ao menos ela tinha um chão.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.