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Publicado em: 8 de novembro de 2020

A difícil despedida da aula de violão

Um dia juntou todas as forças destrutivas de que dispunha e avisou que iria embora.

Imagem: Boris Jovanovic/iStock

Só entendeu o motivo de se socar naquela salinha de aula de violão quando percebeu que não tinha nada a fazer ali e precisava sumir. O mais rápido possível. Era assim: uma pessoa de decisões imediatas, urgentes.

Estava meio letárgica quando pediu um violão de presente. Aos 15 anos, já tinha idade suficiente para saber que não levava jeito para a coisa, nem fazia a menor questão de aprender. Foi levada por um sentimento de não sei o quê, misturado ao fato de que a cidade nova para a qual havia recentemente se mudado fedia à linguiça.

Queria encontrar uma forma de viver sem se lembrar disso, daí pensou no violão, que seria uma escapatória aos dias intermináveis. Sempre achou que nas cidades pequenas o tempo passa sob o comando de outros relógios. E que existe um maquinário diferente para marcar a passagem dos dias e noites que se arrastam em um demorado eterno. Um dia naquela cidade, por exemplo, durava 65 horas, ou algo assim.

O primeiro dia de aula de violão até que não foi tão ruim.

Chegou a pensar que suportaria os outros. Mas aí o que se seguiu foi um tédio tão profundo que ela tentou cavar no chão da sala um buraco de colher, como fazem os prisioneiros nas paredes das celas.

O professor passava o exercício e saía. Fechava a cortina e a deixava ali, naquela sala sem atrativos a não ser a janela. Não que ela pretendesse pular, mas às vezes escapava os olhos para a paisagens dos açougues e lojas de tecido.

Na terceira aula, já sabia que iria sumir em pouco tempo.

A mulher da recepção era uma simpatia que lhe contava a vida inteira sempre que a menina passava para ir embora. Ela sabia que teria que pagar o tributo: ouvir a ladainha. O que fazia a mulher pensar que ela estava disposta a ouvi-la? Apenas sorria e passava. Aliás, sorria o tempo todo. Ninguém ali desconfiava que por dentro ela trincava os dentes. Até que um dia juntou todas as forças destrutivas de que dispunha e avisou que iria embora. Foi um choque. A mulher da recepção, especialmente, não acreditou.

O pouco tempo que a menina ficou ali foi suficiente para criar laços.

Laços que ela queria cortar antes que ficassem ainda maiores.

Avisou formalmente:

– Não posso mais continuar, tenho que estudar. Estou sem tempo.

Sem maiores explicações.

A verdade era: quero ir embora e pronto.

Leia outros contos de Claudia Nina
na coluna Histórias que a vida conta.

A mulher insistiu e insistiu, o que fez crescer por dentro uma raiva que ela disfarçou com mais sorrisos.

Foi embora, desceu as escadas com uma liberdade imensa. Queria deixar o violão no caminho, mas se lembrou de que poderia doar para alguém. Carregou o fardo como se fosse uma pessoa morta, escadaria abaixo.

Pôde ver a mulher, no topo da escada, acenando e chorando.

A menina tinha criado laços.

Talvez porque sorriu demais.

POR CLAUDIA NINA [email protected]

Ouça o episódio mais novo do podcast da Claudia Nina: Delirium Tremens.

Conheça também a página oficial da autora.

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.

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