De todas as expulsões, aquela sem dúvida foi a pior, não só por ter sido a primeira, mas porque foi expulsa da aula de arte, pela qual esperava a semana inteira.

Todas as expulsões, na concepção dela, eram cruéis porque o motivo lhe parecia banal. Na aula de artes, por exemplo, nem se lembrava direito o que havia feito de tão grave para merecer ficar sentada do lado de fora, com a sua arte sem o acabamento final, que era um verniz colorido. O professor tinha pedido para os alunos fazerem trabalhos com um fio de metal bem fininho, dar-lhe uma forma particular que depois ganharia um verniz mágico e brilhante. O efeito era incrível, e a menina não conseguia conter a animação. Então estava… animada! Tinha feito o símbolo do infinito, que o pai lhe ensinara. Estava radiante porque em breve teria um infinito brilhando nas mãos.

A menina agitou-se com a alegria que estava por vir.

Falava e falava, mesmo depois de o professor pedir silêncio. Não conseguia entender por que uma sala de arte tinha que ser silenciosa. Percebeu que, quanto mais alegre ficava, mais o professor a deixava de lado e ia colocando o verniz nos trabalhos dos colegas. Ela fingia não perceber e perguntava quando ia ser a vez dela. Sem resposta.

Até que, irritada, decidiu desobedecer com força a lei absurda e se negou ao silêncio, alarmando todas as suas sirenes de menina de 6 anos. Foi colocada para fora e jamais teve sua arte finalizada. Quando a mãe apareceu para buscá-la, não percebeu que sua arte era tosca e opaca. Menos pior. Ela jamais contaria a verdade.

Era uma oculta desde pequena.

Chegou em casa e, no banho, chorou tudo o que não pôde chorar na escola. Jamais deixaria o professor, a quem passou a odiar pela vida eterna, perceber o estrago que tinha feito no seu infinito particular.

Demorou muito para aprender a obedecer leis que não compreendia. Antes disso, algumas novas expulsões ainda vieram pelo caminho…

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.