A visita da hora era um amigo distante. E, como era visita e era distante, talvez tivesse fome. A casa era simples, levantada do chão graças ao trabalho do pai, que era padeiro, e da mãe, lavadeira. Tinham mãos gigantes. O esforço valia a pena para alimentar os dois filhos, que cresciam com fome de leões. O amigo distante seria um peso na mesa, mas ele jamais saberia disso, claro, do segredo da contabilidade dos pães.

O pai trabalhou dobrado na semana da visita. Queria comprar um pão especial para brilhar no lanche: o pão doce mais cobiçado da padaria. Era macio, parecia um grande sonho recheado. Mas estavam todos avisados por antecipação: comam só um pedaço pequeno, não sejam esfomeados, hoje tem visita, tem que fazer render o lanche.

Quando o amigo chegou, a família estava reunida na porta, os filhos curiosos correram para a soleira, visitas eram coisa rara por ali. Quem seria aquela pessoa distante, quantos dentes trazia, qual era o tamanho da barriga…  Os garotos estavam afoitos porque o cheiro do pão doce tomou conta de toda a casa, invadiu os banheiros, os quartos, o por debaixo dos travesseiros, perturbou os sentidos dos meninos, que nunca na vida tinham experimentado o doce famoso da cidade.

A mesa reluzia. Tinha até suco de caju e café.

No centro, o pão dos sonhos.

Era de praxe que se sentasse na sala primeiro, a conversa de sempre, um copo d’água, aceito sim, bem gelada por favor.

Enquanto isso, os meninos rondavam a mesa onde o doce reluzia e o cheiro perturbador aumentava. Davam voltas e voltas ao redor da mesa, no fingimento de não estarem enlouquecidos de vontade de comerem sozinhos aquele doce, antes da hora do lanche. Até que chegou o momento em que não resistiram.

E o pior aconteceu.

Antes de eliminarem a perturbação da mesa, fecharam discretamente a porta da cozinha – a mãe e o pai nem viram, estavam atentos à conversa do homem que chegou com muito assunto na mala.

As quatro mãos em desarmonia voraz pegaram o sonho reluzente e destruíram sua maciez em poucos minutos. Comeram inteiro o pão que daria para todos, um pedaço para cada um, deixando a maior parte para a visita distante, claro. Era de praxe que as melhores coisas ficassem para quem vinha de fora, precisavam aprender isso.

Lamberam os farelos, que também eram doces e reluzentes.

Quando os pais saíram da sala e foram para a mesa do lanche, viram a cena do horror. Só tinha o suco e o café, a bandeja do pão vazia.

Nunca tinham visto o pai com tanto ódio nos olhos e a mãe com uma tristeza azulada que corria nas veias do pescoço. Naquele exato instante, perceberam o erro. Nada foi dito. Silêncio profundo. A visita não tinha o que comer. Só o suco e o café quente. A mãe tentou improvisar um caldo, mas estava azeda por dentro.

Não se sabe se o amigo percebeu o desespero da família.

No dia seguinte, a visita partiu de volta para o longe. Estava mesmo só de passagem, ainda tinha muito chão pela frente. E talvez continuasse sua viagem com fome.  Assim que o amigo bateu a porta, o pai chamou os filhos e lhes estendeu um dinheiro que estava guardado dentro de um pote na cozinha.

– Vocês dois vão na padaria comprar duas dúzias de pão.

Não entenderam, mas não estavam em condições de perguntar nada.

Quando chegaram, cada um com um pacote grande de pães, o pai falou:

– Agora, vocês vão comer todos os pães de uma vez só até incharem a barriga como um balão de gás. Comam sem parar e sem tomar nada. O pão vai descer no seco.

Não perguntaram o motivo da multiplicação inesperada de pães porque sabiam e porque estavam com vergonha e medo, tudo junto.  

Os leões famintos só obedeceram.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.