Juntaram-se as quatro senhoras no carro da filha de uma delas, e a ideia era partirem para uma tarde no shopping. Duas irmãs e duas amigas, entrosadas e com pouca diferença de idade entre elas. O dia estava lindo, embora frio. Céu azul e nuvens geladas. A tarde prometia chocolate quente depois de algumas compras. Nada de muito caro, a farmácia incluída. O percurso até o shopping começou com a conversa afiada – quando estavam juntas era uma alegria. No meio do caminho, no entanto, uma delas se lembrou de que a gente morre. Então o assunto passou a ser este: a morte.

– Vamos falar de morte? – perguntou de repente.

A filha reclamou porque era muito jovem e ainda não sabia disso. Ou melhor, evitava pensar em morte porque o pensamento tem força.

As senhoras adoraram a ideia, e até chegarem ao shopping foram falando no futuro.

O futuro era a morte

Não queriam ser cremadas. Temiam que a alma guardasse a memória do fogo. Precisavam encontrar uma casa com quintal grande o bastante para que seus pedaços fossem ali depositados sem maiores transtornos para os que ficassem. A senhora que começou o assunto achou que deveriam definir como fariam. A filha de uma delas, que dirigia, resolveu não falar mais nada, pensou em outra coisa, tinha mercado para fazer, não podia se esquecer de ir ao banco. E o assunto seguiu.

Até que chegaram à conclusão de que escolheriam a casa maior da família, com um quintal grande, para transformá-lo em cemitério. A casa da Laura. Ficariam todas juntas. A que começou o assunto escolheu o nome do lugar:

– Vai ser um jardim de saudades!

A irmã dela, que via poesia em tudo e estava sempre rindo, mesmo sendo casada com um homem muito chato que não saía nunca da frente da TV, disse assim:

– Que lindo! Um jardim de saudades…

O trajeto chegou ao fim.

Elas todas felizes porque tinham resolvido uma questão muito importante. Saíram alegres, ansiosas com o chocolate quente.

Elas todas felizes porque tinham resolvido uma questão muito importante. Saíram alegres, ansiosas com o chocolate quente.

A filha que ficou no carro não conseguiu tirar a conversa da cabeça por um bom tempo e foi obrigada a incluir “jardim de saudades” em seu pensamento. Não sabia se tinha tristeza, pena ou raiva. Tudo junto. Foi obrigada, a partir daquele momento, a se lembrar de que a gente morre. Pensamento tem força.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.