A rua estava mansa em um quase entardecer, no céu havia um riscado como se uma estrela cadente tivesse acabado de passar – ela pensou em um desejo, como sempre fazia, quando via os tais riscos parecidos com giz de cera. Fez um pedido imaterial, porque se sentia de uma leveza tão profunda que não queria as aquisições fáceis do mundo das formas naquele momento. Andava a um palmo do chão claro. Confiante de que era alguém especial só porque era uma agradecida e já havia aprendido a pedir menos.

O calçadão cheio de lojas, artistas fingindo-se de estátuas, ela teve pena do homem pintado, aquela tinta poderia dar alergia, ali em pé o dia inteiro sem piscar, pobre criatura que precisa ficar imóvel para ganhar a vida. Havia ainda os palhaços, os que se fantasiavam de índios e brincavam de assustar os pedestres, tudo aquilo não era encenação apenas, mas sim trabalho, e a esmola que davam uns e outros era o que levavam para a casa – ela pensou, enquanto agradecia pela vida larga no momento de ócio e elevação.

A tarde seguiria assim, com o sentimento de que bastaria agradecer e sorrir para se sentir a mais abençoada das criaturas.

O mundo era calmo para ela, que sabia retribuir em prece a mansidão dos dias claros. 

Até que uma imagem cortou em duas metades o que parecia inteiro. A imagem era talvez a mais impactante de toda a sua história até aquele instante. Antes da imagem, porém, o que lhe chamou a atenção foi uma voz desafinada que acompanhava um violão, igualmente desafinado. Só não poderia adivinhar o que viria depois, o choque. A voz era de uma mulher que tinha um olho cego e o outro… não tinha. E não era um buraco negro no meio da face, era o nada. Uma parte do rosto parecia uma máscara de massinha bege, como se uma criança tivesse feito ali uma brincadeira de esconder olhos. Havia um volume por baixo da pele que deveria ser o olho submerso.

Ela pensou que talvez aquele fosse o maior sofrimento do mundo – na rua clara, ela não via nada. O olho morto era cinza como o de um peixe podre. Talvez por ali vazasse alguma luz minúscula. A mulher nascera com aquela forma; o que teriam sentido os pais ao ver a filha pela primeira vez e como teria sido a sua infância? Quando se é cego, mas existem dois olhos, mesmo que não haja expressão, existe um movimento, um clicar de cílios ao menos… No lado direito do rosto daquela mulher em desafino, o rosto era um pedaço de barriga… que assombro.

Passou o resto da noite no vai e vem de pensamentos.

Oscilava entre a bem-aventurança de antes e o choque do depois. Lembrou-se de que a maior pergunta filosófica da vida não era o “porquê”, e sim o “pra quê”. Teria que entender para que então ela havia cruzado o caminho com aquele rosto sem olho. O que nem uma existência de cem anos poderia responder.

Tentou refletir se talvez não haveria um motivo oculto para a mulher ter nascido sem a capacidade de ver a luz vivendo justamente em um país de tanta claridade. Ver-se por dentro? Depois desmanchou o pensamento quando imaginou que quem precisava mergulhar em suas escuridões internas era ela mesma, que se julgava tão agradecida. Mas não sabia o que fazer para partilhar os clarões em volta de seus passos. Por onde só ela, avarenta de suas bênçãos, caminhava.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br
Jornalista e escritora, autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.