Depois de seis filhos, o sétimo seria um estorvo ainda maior – pensou o homem. Ela, por sua vez, não gostava do sexo nem do casamento, mas gostava de ter filhos, apesar das dificuldades financeiras que a obrigavam a trabalhar na costura diária além das tarefas da casa, já que o imprestável servia para ir à padaria e só. Ficava socado o resto da tarde até a noite na cama, com cara de coitado. Quando engravidou do sétimo filho, o quinto menino, ele resolveu anunciar a sentença: “Este vai ser abortado.”

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A mulher ouviu a frase como um insulto. Com que autoridade aquele homem decretava aquela sentença? Ela, que já estava com quatro meses de gravidez quando descobriu a novidade, não aceitaria a morte programada do filho. Ela o queria, podia sentir a sua existência pulsante, pequeno ser no mundo dela, mais importante do que qualquer marido que era apenas uma ferramenta – se ele não prestasse para lhe dar filhos, já o teria jogado na vala.

Se o traste não queria mais gente em casa que se mantivesse afastado dela, que não a procurasse, que fosse buscar mulher na rua, que sumisse. Ela não mataria o filho por um desejo do homem e apenas isso.

A gravidez seguiu, e a surpresa foi que eram gêmeos.

O homem espumou. E ainda assim insistia para que os matasse, disse isso em um momento de fúria e depois se desculpou. De nada valeriam suas desculpas, contudo. O ódio dela por aquele homem vagabundo aumentava a ponto de ela se sentir capaz de jogá-lo de cima de uma ponte. A pequena cidade tinha várias pontes, seria fácil embebedá-lo e depois lançar o infeliz às piranhas.

Mesmo que não tenham morrido os filhos, morreu dentro dela a possibilidade de viver com aquele homem. Olhar para o ser encurvado, com mãos gigantes e pés idem, perna fina, cabelo ralo, dentes falsos. Tinha um desprezo incurável.

Em vez de lhe dar veneno ou jogá-lo de precipícios, porém, deixou que ele encontrasse os próprios meios de acabar com a vida. Não queria essa conta na sua história – ela, que gostava de trazer filhos ao mundo. Abriu a porta e tirou o homem de casa a pontapés na frente dos filhos que já sabiam de tudo. Fez questão de dizer: “Este homem não queria filho. Por desejo dele, parava no segundo.”

Ele saiu com a roupa do corpo, que era um pijama. Não faria falta. Nem dinheiro ele trazia, o sexo horrível não daria saudade. Já tinha filhos o bastante e mãos fortes para a costura. Que fosse embora – abortado.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
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Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.