Estavam uma de frente para a outra no ônibus lotado de crianças. A menina de seus 10 anos mais ou menos e a senhora, que poderia ser quase cega porque usava uma guia – seria inteiramente cega? A senhora muito magra deveria ter uns 85 anos. Estava ao lado da filha, voltavam do parque. Já era quase noite. Duas velhas.

A menina estava posicionada bem na frente delas, o que facilitava a inspeção.

Achava-se ótima em identificar tipos de pessoas e se apressou em despachar a senhora para o espaço dos imprestáveis. Coitada, não conseguia nem enxergar, foi fazer o que em um parque de crianças rápidas, espertas, alegres e cheias de vida? Uma de frente para a outra: uma encarquilhada em um passado eterno, a outra cheia de futuro. Ambas iam, de noite, para o mesmo destino: o hotel que fazia às vezes da casa.

O ônibus-destino?

Grupos de jovens se amassavam no desconforto do veículo, sacolejavam de um lado para o outro em pé, enquanto a senhora com a filha eram duas velhas sentadas só porque eram velhas. A menina sentou-se porque foi esperta e correu para o último lugar vago.

Uma de frente para a outra em desvantagem: a menina inspecionava a senhora que não podia lhe dar em troca o mesmo olhar cruel.

A menina já tinha a ficha completa da senhora. Como era boa nisso de identificar tipos de pessoas! A investigação seguia com aparente sucesso até que o motorista colocou música. A menina não sabia que música era. Mas a senhora, sim. Não só conhecia a melodia, como sabia a letra de cor. E não só sabia a letra de cor, como era boa cantora. E tinha uma voz poderosa, alta, forte, afinada, com exaltações e urros de festa. Os passageiros em silêncio ouviam a senhora cantar – ela, sentada, cega, velhada, cheia de passado, imprestável aos olhos da menina inclemente, soltou a voz como se tivesse 20 anos.

A menina não acreditou na surpresa.

Era como se a velha fosse uma caixa de papel de dentro da qual saltasse um boneco de mola.

A voz da velha ecoou pela estrada. Era longe o caminho do parque até o hotel. Foi o tempo que a menina precisou para rever sua prévia interpretação da pessoa que ela julgou tão imprestável, mas que parecia menos cansada e mais cheia de vida do que ela mesma que, aos 10 anos, não foi capaz de ficar em pé depois de um dia de brincadeiras.

A senhora foi aplaudida pelos passageiros. Pudera, foi um show e tanto.

A menina, amuada, não teve o que dizer a si mesma.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.