De todas as filhas, foi a única que não aceitou casamento forçado. A irmã mais nova, avó da menina, casou-se aos 15 anos com um magrelo cujo pai era dono de metade da cidade. Ela diz que foi forçada, mas na verdade para ninguém assumiu o fogo em começar cedo a vida de mulher. O arrependimento veio logo em seguida, com uma gravidez depois da outra e o desmanche de qualquer sonho romântico – o homem era um tosco.

Voltando àquela que não aceitou casamento forçado – era a “tia Glória”, a eterna solteira, que preferiu se mudar de cidade para evitar o falatório.

Quando a tia Glória chegava à cidade e a chegada coincidia com as férias da menina, era uma festa. Todos os primos, reunidos na casa da avó, colocavam-se em posição de “recebimento de visita”. Faziam fila, sentavam-se com educação, só para ver a tia que nunca se casara. Ela era um ser especial, uma aparição ou um animal exótico, que estava ali para observação.

Os primos, claro, observavam. Especialmente a menina, para quem a tia, que era um estardalhaço de existir, funcionava como inspiração: independente, movida de alegria, dava gargalhadas com a boca aberta e a risada custava a sumir do rosto. Tinha a voz rouca, falava palavrão, trabalhava fora. Era toda um luxo. Como uma pessoa assim tão livre poderia ter nascido na mesma casa da avó, refém de uma vida que detestava, ao lado de um homem que, após 30 anos de casamento, mal suportava ver.

O tempo de observação era apreciado em minúcias.

Nada escapava ao olhar da menina, que ficava horas analisando o movimento das mãos daquela mulher que falava desenhando o ar. Nunca teve filhos. Viajava todas as férias. Balançava a saia colorida quando gargalhava. Glória era uma glória.

Quando ia embora, restava a avó ao lado das tias falando mal de Glória: seus palavrões, sua “loucura”. Tia Glória era a “tia louca”.

A menina ficava silenciosa, mas condenava as críticas. Cedo aprendeu que a avó nunca teve coragem de dizer a verdade: a loucura da tia era a liberdade que ela jamais conheceu.

Ah, tia Glória e sua louca liberdade…

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
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Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.