Tão logo colocou os pés na feira, foi direto para uma barraca de verduras – três por cinco, dizia o vendedor de sempre. Antes que ela tirasse as moedas da bolsa para pagar, uma senhora cheia, negra e miúda, que tinha na cabeça um turbante, chegou perto dela, dizendo, com o dedo em riste, altiva dentro da sua pequena sombra de mundo:

– Quero pedir um favor. Vê bem o que eu disse: um favor.

A mulher recém-chegada à feira, atrasada para o peixe com batata do almoço e ainda ali, na primeira barraca do dia, ficou sem reação diante da fala tão direta da senhora. Ela, que não costumava ouvir quem lhe parasse, que não dava ouvidos a estranhos, não conseguiu deixar a palavra da senhora cair no chão como uma bola de gude. Não conseguiu mexer um passo nem tirar o ouvido da escuta.

A senhora continuou:

– O favor é: me compra um repolho?

E fez o gesto de um, enfatizando que o pedido era para apenas um repolho. A mulher não disse nada, não teve palavra à altura da senhora inesperada.

Em silêncio, obedeceu.

– São três reais – disse o vendedor.

Antes que ela pegasse o repolho, outro vendedor gritou de cima da barraca:

– O repolho menor é dois reais.

A senhora ignorou o fato de o repolho menor ser mais barato e pegou um grandão. O maior que suas pequenas mãos inchadas conseguiam segurar. A mulher que patrocinava a compra hesitou por um segundo se fazia o favor completo – o repolho grande – ou um meio favor – o repolho pequeno. Depois percebeu que a maldade a faria economizar apenas um real. Novamente ficou em silêncio. Estendeu os três reais ao vendedor. A senhora pegou, agradeceu e desapareceu na multidão.

O vendedor olhou a senhora com uma ternura nova e, sem que ela pedisse, fez uma promoção nas folhas e incluiu um molho de cheiro verde na sacola.

A volta para casa não foi igual a todos os dias. O encontro com a senhora que pediu um repolho deixou a marca.

“Vê bem o que eu disse: um favor.”

Pensou na elegância da senhora tão simples, tão pequena, que pedia tão pouco. Ela poderia ter pedido qualquer outra coisa, mas lhe pediu um repolho. Talvez para uma sopa, um caldo suculento, porque os repolhos incham e fazem render para mutirão.

Depois pensou que talvez existisse um motivo secreto do universo de ter sido justamente ela a escolhida para fazer aquele favor. E se sentiu uma em um milhão.

Esta história realmente aconteceu comigo na segunda-feira passada. O que a senhora que me pediu um repolho não poderia imaginar é que eu tenho uma história que se chama A Repolheira, sobre uma vendedora de repolhos que vê o mundo se transformar quando chega à sua barraca uma visita inesperada. Eu não acredito no acaso. E acho que esta senhora foi um presente da vida à minha obra. Às vezes, a gente precisa de uma forcinha para acreditar que está no caminho certo…

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

Leia outros contos de Claudia Nina na coluna Histórias que a vida conta. Conheça também a página oficial da autora.

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.