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Publicado em: 16 de fevereiro de 2021

As aventuras e o sucesso do romance de época

Um gênero que possui regras próprias, sendo a principal delas a garantia de um final feliz para o casal protagonista.

Imagem: lionBeat/iStock

Não faz muito tempo, vi a notícia de que a série Bridgerton, um romance de época, foi a mais assistida da história da Netflix. A série de TV, baseada em uma série literária de sucesso de mesmo nome, nos apresenta uma família inglesa de alta sociedade durante o período da Regência Britânica: oito irmãos às voltas com suas aventuras majoritariamente românticas.

Nessa primeira temporada, somos apresentados à Daphne, quarta filha da família Bridgerton. A partir daí, acompanhamos o desenrolar do seu relacionamento com o conde Hastings e suas tentativas de forjar um relacionamento para benefício das duas partes. Tudo isso narrado através das fofocas de Lady Whistledown, uma figura anônima que publica folhetins sobre a situação amorosa das figuras abastadas da sociedade inglesa.

São vários os motivos do sucesso de Bridgerton

Vamos lá: a série é bem produzida, possui um elenco talentoso e um enredo que nos cativa em pouco tempo. Além de Daphne, também acompanhamos, com menos detalhes, as vidas dos outros irmãos, bem como de vizinhos e outros membros da sociedade, compondo um cenário vívido e repleto de surpresas ao longo da série.

Mas há também um outro aspecto a se considerar – e o motivo principal pelo qual trago essa série para ser discutida aqui. Bridgerton se baseia em uma série de livros de romance de época escritos por Julia Quinn, uma das autoras mais prolíficas e famosas dentro desse gênero. Durante muito tempo, o romance de época foi visto como um subgênero literário sem muita importância, principalmente porque era (e, em muitas medidas, ainda é) encarado como literatura feita apenas para mulheres.

São livros que possuem regras dentro do gênero, sendo a principal delas a garantia de um final feliz para o casal protagonista. Mas eles também geram discussões importantíssimas, como o papel da mulher na sociedade, seus direitos e a forma como devem buscar a própria felicidade dentro de um contexto que não é lá muito favorável à sua independência sexual e amorosa.

Confesso que demorei muito para começar a ler romances de época.

Talvez porque eu tivesse enraizado na minha mente a ideia de que não eram livros bons. Simplesmente porque eram vendidos em bancas de jornais, impressos em papel jornal barato e com capas que, à primeira vista, não me chamavam a atenção. Ou talvez porque o marketing me influenciava a ponto de eu não querer ler alguma história que era produzida tendo mulheres como público alvo.

Um preconceito bobo, é claro, mas que ainda está presente em muitos lugares. Não sei bem como explicar, mas o fato é que eu torcia o nariz para os livros com mulheres de vestidos cheios de pano e homens de torso nu tendo um castelo como pano de fundo.

E então o mercado literário mudou e trouxe esses livros para as livrarias, com um papel de qualidade, traduções e edições bem-feitas e uma comunidade ávida e apaixonada por essas histórias. Então resolvi me aventurar. E que maravilha foi descobrir que esse gênero, assim como qualquer outro, tem seus livros ruins, mas também tem narrativas divertidas e interessantes!

A questão do romance de época é a mesma que nos faz discutir, quase que ciclicamente, a ideia de que existe uma dicotomia entre alta literatura e literatura de entretenimento. É uma discussão longa, que não tem resposta certa ou errada, mas que traz um aspecto extremamente negativo quando olhamos sob o viés da leitura. Para muitos, ler livros de entretenimento não chega a ser consumir literatura, porque livros de entretenimento, “não estão no mesmo patamar de livros… literários”. Logo, para quem lê essas histórias – e se diverte com elas! – sobra um gosto de menosprezo. Como se os Fiscais da Literatura estivessem olhando por sobre nossos ombros sempre que abrimos um livro com o único intuito de nos divertir.

Eu tenho para mim que todo tipo de leitura é válido.

Ler é um ato que, em sua mecânica, pode até ser solitário. Mas os grupos de leitura, os clubes do livro e até mesmo os chats de discussão me fazem ter certeza de que podem sim ser uma atividade coletiva. (Mas vale a pena dar uma chance a alguns títulos e nadar contra a maré da preferência popular.)

E o sucesso de séries como Bridgerton, e as discussões que elas geram, também me fazem ter certeza de que o papel da literatura está sendo feito. Este papel é o de fazer (re)pensar certos posicionamentos através da arte, impactando um grande número de pessoas. No caso dos romances em questão, através de mocinhas em busca de seu final feliz ao lado dos homens que amam.

Só resta a nós, leitores, esquecer dos Fiscais de Literatura e pegar o livro que queremos ler. Sem nos preocupar muito se a capa vai ou não fazer alguém nos olhar com uma expressão esquisita. É claro que você pode não gostar da história,. Mas com certeza também pode se surpreender ao se pegar torcendo para aquele casal que aparentemente não tem nenhuma chance de ficar junto no final.

Porque você sabe que, de alguma maneira, eles vão terminar juntos. Agora, só precisa descobrir como.

Lucas Rocha
Lucas Rocha
Formado em Biblioteconomia e Documentação pela UFF e com mestrado em Ciência da Informação, Lucas lançou seu primeiro romance, Você tem a vida inteira (Galera Record), em 2018. O livro ganhou projeção internacional e foi publicado nos Estados Unidos com o título Where We Go From Here (Record) em 2020. O Reino Unido prepara o lançamento para o próximo ano.

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