Teria sido um abraço como qualquer outro não fosse aquele o maior abraço da sua vida. Já tinha vivido o suficiente para ter um catálogo de ótimos abraços diversificados. Mas, sem dúvida alguma, aquele foi o maior abraço da sua existência.

Poderia ter sido “apenas” o maior abraço da vida sem consequências. Só que não há como “o maior abraço da vida” ser um abraço sem consequências. Um abraço normal e quente contém em si um mundo de sentimentos e significados. Mentira, um abraço quente pode ser vazio de significados amplos. Ou pode ser unicamente símbolo de um afeto recíproco. Aquele, porém, era o maior abraço da vida e trazia junto alguma coisa que ela conseguiu perceber no exato instante em que o abraço eterno durava: era uma outra vida dentro da mesma vida. A sensação foi a de que, dentro do tempo pendurado no teto da livraria onde se reencontraram depois de 30 anos do último abraço, uma nova pessoa dentro dela acordava. Foi como se o abraço fosse um alarme.

Não soube o que fazer com a sensação.

Então, ficou dentro do abraço – não queria nem podia mais sair.

Nenhum dos dois conseguiu dizer nada até o momento em que, finalmente, depois de uma eternidade, ela soltou:

– Me desculpe.

Desculpa? Por quê? Nem ela sabia. A frase era só para ocupar uma imensidão que seria ainda mais eterna se ela não tivesse cravado uma frase sem sentido no meio.

Ele respondeu:

– Depois a gente conversa.

Sim, claro, ele foi mais sábio. Porque aquela não era hora de dizer nada. Estavam dentro de um abraço eterno.      

O que aconteceu depois foi de fato uma nova vida para ambos. Ela ainda se pergunta, filosoficamente, o que teria acontecido se ele não tivesse aparecido, ali, naquele momento, o último a chegar? Certamente haveria outro cenário. Ninguém escapa de abraços que cirandam…

Curiosa a vida. Há pessoas com quem seguimos abraçados. Mesmo quando estamos longe. Não disse que era um abraço eterno?

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Neste longo período de isolamento social, este texto é dedicado a todos os amores e amigos que estão longe de seus maiores afetos, mas que seguem amando – abraçados.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.