Embora não soubesse – era um saber inconsciente –, ela sabia que toda voz esconde uma história. As ondulações, a aspereza, a insegurança, o tremor, a rouquidão ou a lisura, os sotaques… Talvez por isso sempre foi tão perceptiva ou negativa com vozes. Algumas a afastavam sempre, outras a puxavam como um ímã. Foi o que aconteceu com a senhora Ruth. Quando ela atendeu o telefone, que chamava pelo pai, ficou muito curiosa para saber quem era a pessoa do outro lado da linha.

Era a professora de alemão, sim, disso ela sabia, mas precisava conhecê-la de perto. Ouvir a voz foi um chamado. Ela, que nunca foi simpática ao idioma, assim como a tudo o que ela não pretendia aprender na vida, resolveu começar a aulas. Tinha consciência do motivo: não era para falar alemão, mas para conhecer a história por trás da voz. Foi.

Chegou ao endereço, do outro lado da rua.

A senhora corcunda, cheia de dentes escuros e destruídos pelo cigarro, a recebeu com uma cachorra no colo – Babette.

A voz grave, rouca, era de uma bondade tão imensa, que ela, na chegada, confirmou o desejo: precisava conhecer a história daquela senhora. Ainda bem que havia seguido o chamado.

Foram longos quatro anos. A senhora Ruth perdera todos os parentes nos campos de concentração e não escondia o passado. Pelo contrário, falava com veemência, os olhos turvavam, a voz engasgava, mas ela seguia falando sobre morte como quem fala sobre qualquer outro assunto. Não temia tocar na matéria inerte porque ela pulsava. Precisava contar, talvez para fazer ecoar o que nunca mais deve se repetir. O impressionante era que o corpo, assim como a voz, trazia as marcas do tempo. A voz era também o corpo da história, viva, verdadeira, assustadora e corajosa.

Ela, claro, não conseguiu aprender alemão, além de umas quatro ou cinco palavras que nunca precisou usar. A senhora Ruth talvez soubesse.

Às vezes, a voz é uma linha invisível. Puxá-la pode significar ir ao encontro de um destino.  Für heute geschlossen…

(Era assim, ou mais ou menos assim, que a senhora Ruth finalizava as aulas).

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.