Andava com os pés socados no agreste e a cabeça nas nuvens. Esquecia-se do estômago quando se colocava em posição de sonho, os olhos cravados na lua. Que céu lindo tinha aquele pedaço de Nordeste, era mesmo para fotografar se tivesse aparelhagem… Tantas estrelas, um céu tão limpo, não havia poluição. Benedita era toda feita de esperança.

Quando na escola aprendeu a assinar, passou a rabiscar as paredes e qualquer superfície que aceitasse uma inscrição. Queria deixar sua marca.

Cravada no meio da família de onze filhos

Que lugar nervoso o do meio. Não se está no começo, inaugurando a prole, nem ao fim, terminando os trabalhos. Não se é pequeno nem grande, enfiada entre os outros, não sabia onde ficava. Ser a filha do meio era uma tortura a mais em uma família miserável. Uma das maiores dúvidas de Benedita era decidir se deixava a comida para os menores ou se avançava antes deles. Quais eram os seus direitos?

Estava sempre faminta e ao redor dos irmãos como uma ilha. Às vezes tinha vontade de matar todos, esmigalhar as cabeças na parede, como se fossem piolhos imensos. Uma gana que lhe subia e depois passava. Raiva de fome, dizia a mãe, que começava a chorar quando via a família brigando. Achava que era possível ter paz com a mesa vazia.

Sonho com cor

Benedita sonhava com o dia em que iria sumir do mundo sem cor e pegar a estrada. Era disso que se alimentava: do sonho de estar em um lugar para onde, acreditava, tinha nascido para viver.  O “onde” ela não sabia direito o que era, mas deveria existir. Não teria o nome de Benedita se não existisse para ela um lugar marcado que a aguardava. O “onde” não era um lugar fora dali, geograficamente falando. O “onde” era um lugar sem fome.

Benedita, um esqueletinho verde, tinha fome de esperança.

Por Claudia Nina – claudia.nina@selecoes.com.br
Jornalista e escritora – autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.