Aos quase 15 anos ela era jovem demais para um amor tão grande. Era tão pesado que, na falta de jeito e de mãos habilidosas para carregá-lo, preferia tentar fazer (fingir) que o sentimento não existia ou que atendia por outro nome. Imagine se crescesse ainda mais?, era o que a torturava. Não poderia permitir que o amor (tão grande) se alastrasse e tomasse conta da sua vida da forma como estava acontecendo, como uma casa em que bichos invisíveis devoram as gavetas.

Não conseguia entender como aquilo tudo começara. Era um amorzinho leve, pequeno e despretensioso, um toque de mãos, uma dança, um beijo. Mas a alma do sentimento em breve tempo deu mostras de que não era de brincadeira. Coisa de profissional. Como lidar? Esquecer? Fugir?

E eram tão diferentes olhando de fora…

Só de fora. Quem pudesse sondar o que havia de secreto entre eles diria que pertenciam à mesma legião.

Ela não conseguia crescer na proporção daquele amor. Não tinha alcance para entender que, do outro lado do sentimento, ele também tinha por ela uma imensidão – casa tomada. Precisava descobrir como destruir aquilo que não poderia nomear como “amor” para que não se expandisse ao infinito.

Trocou por amizade e se tornou “amiga”, a palavra insistente.

A vida tratou de ajudar antes que ela não conseguisse dar conta do que continuava crescendo como amor. O destino criou um roteiro novo, e ela de repente foi obrigada a se mudar de cidade. O emprego dos pais a levaria para bem longe – dos olhos?

Então ficaram muito distantes um do outro.

Ufa, que alívio.

Mas havia as cartas. Elas chegavam trazendo notícias do amor de longe.

O que fazer? Insistir em trocar o nome do que cresceria mesmo à distância por amizade até que o outro lado, o remetente, desistisse e entendesse que seriam amigos por toda a vida? Como se isto fosse pouco, como se bastasse para esconder o que sentiam.

Aí o tempo, em fino trato com o destino, que já tinha encomendado a distância, tratou de fazer com que a menina, aos 16 anos, encontrasse alguém para fingir que gostava. Resolveu namorar. Um passo decisivo para esquecer o amor.

Envolveu aquele rapaz namorado em papel celofane e espalhou a notícia de que não sentia mais nada pelo que havia se tornado um “remetente”.

O inesperado foi que, de tanto trancar por dentro a gaveta da qual nasciam os bichos devoradores, acabou se trancando por dentro igualmente. Ela passaria a amar como se amam as coisas simples da vida e não as pessoas. Nenhum amor como aquele.

Não suportaria amar daquele jeito impossível de novo.

O tempo seguiu seu intento, e o remetente finalmente desapareceu no espaço.

A menina cresceu e viveu satisfeita com as escolhas. Teve namorados e até se casou, teve filhos. Nunca mais tentou abrir a gaveta onde nasciam os bichos devoradores.

Melhor assim. Mesmo depois de adulta, não saberia lidar, esquecer, fugir.

Alguns amores são impossíveis.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.