Para Amelie

Quando a lista com a seleção dos alunos que fariam a peça de teatro da escola foi finalmente lançada, a menina precisou ler seu nome mil vezes para ter a certeza de que ela era ela mesma. E, depois de se convencer disso, tratou de celebrar o momento, gastando todas as economias da mesada em uma rodada de sorvete com os amigos.

No momento em que o último centavo foi gasto, ela se lembrou de que os papéis ainda não tinham sido escolhidos, e havia uma possibilidade gigante de sobrar para ela uma participação coadjuvante. Mas preferiu esconder dela mesma o fato. E começou a se preparar para a vitória de ser ela uma das principais da peça. Imaginou-se espalhando os convites e chamando todos os vizinhos para vê-la brilhar no palco.

Até que o dia da distribuição dos papéis chegou.

Estava um nervo só, estendido como um varal seco. Se alguma coisa desse errado, a menina não saberia lidar com a dor e se transformaria na pessoa mais triste do mundo, porque, afinal, ela era uma das mais talentosas da turma – não que alguém tivesse dito isso, mas ela conhecia seus trunfos.

Só que os papéis principais saíram logo e não foram para ela. Nem os secundários. Nem os coadjuvantes. Nem o da planta falante e carnívora no canto da sala.

Ela não estaria na peça?

Como assim?

Parecia um pesadelo ou uma piada de humor negro.

Não era. Estava tudo certo. Pessoas e lugares onde deveriam estar.

E ela, onde ficaria?

Quando a menina estava quase saindo da sala, disposta a morrer um pouco antes de criar uma lagoa com o choro que nasceria no banheiro, o professor a chamou. Ela levantou os ouvidos em obediência e alívio.

Ah, o papel dela era algo especialíssimo, por isso ficou para o final.

Mas o quase sorriso ficou no meio do caminho.

– Você irá segurar um cartaz durante todo o espetáculo. Este cartaz é muito importante para o entendimento da história.

Um cartaz?

Tanta expectativa para acabar em um cartaz. E como ela ficaria no final da peça? O braço doído de tanto segurar uma placa… Quanta insignificância.

Não conseguiu dizer nada e saiu. Disfarçar a decepção era uma missão impossível.

Foi para casa buscar na mãe o consolo, não sem antes esbravejar.

A mãe ouviu, guardou para ela a pena que sentia da filha chorando tanto, e disse por fim:

– Segure este cartaz com firmeza, como se ele fosse a parte mais importante da peça. Um dia você vai entender o motivo. Segure com talento.

Foi difícil, mas a menina aceitou. E no dia do espetáculo, lá estava ela, do alto de seus 9 anos, segurando com as mãos ainda gordinhas de criança, o tal cartaz.

A mãe, na plateia, chorou. Não de decepção, mas de orgulho.

Aquela menina seguradora de cartazes ia longe…

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A menina da história é minha filha mais velha, que sempre gostou de teatro, música, cinema e afins. Durante um período da vida ela queria muito atuar. E conseguiu algumas vezes na escola, além desta, em que segurou o cartaz. O que seria da alegria sem a frustração?

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

Leia outros contos de Claudia Nina na coluna Histórias que a vida conta. Conheça também a página oficial da autora.

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.

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