Veio sozinha. Deixou para trás uma família inteira, a única sobrevivente do horror. Os campos de concentração levaram todos. Ela também foi com eles – o que sobrou em pé foi a carcaça. Ninguém vive inteira com a memória do desespero. Seguiu porque não conseguiu desfazer-se do que restou de si.

Desde que chegou ao Brasil, começou a trabalhar. Aprendeu o português por conta própria e não se sabe como conseguiu emprego se comunicando com tanta dificuldade. Era formada em enfermagem e logo encontrou vaga em um hospital, onde conheceu o marido, com quem, coincidentemente, compartilhava a herança maldita. Ambos eram carcaça. Ele não era enfermeiro, vendia relógios que ele mesmo montava a partir de peças-restos.  Casaram-se no primeiro ano.

Sozinhos no mundo

Foram morar em um apartamento abaixo do nível da rua. Havia tantos prédios bons para escolher, mas, por um motivo incompreendido, optaram por morar alguns degraus abaixo, mergulhados no asfalto. A janela dava de cara para os pés das pessoas – não tinham a visão do céu. Eram uns esmagados.

Depois de algum tempo, a senhora decidiu dar aulas particulares de alemão. Ele montou uma pequena oficina de consertos de relógio nos fundos da casa – ficava em um “lá-trás”, escondido de todos, às vezes até a mulher se esquecia de que ele existia. Ambos se esqueciam, cada qual em seu quarto de trabalho. Os alunos chegavam e saíam, não prestavam a atenção se tinha gente em casa.

Interesse perdido

Um dia apareceu uma aluna jornalista que ficou intrigada com a história daquela mulher-carcaça. Aos poucos, o interesse pelo idioma foi se perdendo à medida que aumentava a vontade de saber a verdade por dentro – a história contada por quem foi massacrado por ela.

A moça só conseguiu aprender duas frases em alemão, mas isso não tinha a menor importância. Ela ficou amiga da professora. Ficavam horas tomando chá e conversando.

Um dia, a senhora levou a aluna até os fundos da casa para conhecer o marido relojoeiro. O silêncio de sempre, a penumbra nos aposentos dos fundos. Quando viram a mesinha do marido, depararam com o horror: a cabeça do homem caída sobre os relógios, as peças miúdas espalhadas pelo assoalho.

Horror maior

A moça soltou um grito, que ficou pendurado no teto – o lugar parecia uma caixa forte. Para surpresa da jornalista, a senhora não falou nada. Nem seu rosto, que ficou mudo. Ela simplesmente providenciou a retirada do corpo. A praticidade da reação não foi entendida, e a moça pensou como era a fria aquela senhora. Que pouca importância dera para o pobre marido esquecido.

Só muito tempo depois a compreensão do fato, que jamais lhe saiu da memória, foi capturada: para quem conheceu o Grande Horror, todo mal que se segue é parte de uma história menor. Eles já estavam mortos, eram carcaça.

Por Claudia Nina – claudia.nina@selecoes.com.br
Jornalista e escritora – autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.