O aniversário quase coincidia com o Dia das Mães, então a família sempre achava por bem que fizessem uma comemoração só. Naquele ano, a festa teria mais agregados porque alguns dos netos se casaram, e a rodinha teve que aumentar. Gostava de ver cada vez mais gente ao redor, de pensar que tudo começara tão pequeno, ela e as duas filhas – o marido sumira desde sempre. Estava fazendo 95 anos. A cabeça em riste, perfeita, atenta aos mínimos gestos e olhares, sentimentos – ela, que sempre farejou distâncias. O corpo, porém, cansara-se. Aceitou de bom grado uma cadeira de rodas, porque os joelhos estavam inchados e doloridos. Andava com um vagar que lhe irritava a agilidade da mente, por isso resolveu trocar em definitivo os pés pelas rodas.

Fez do pequeno jardim de inverno, no apartamento em que morava com duas moças que alternavam cuidados com ela, um acostamento para seu veículo, e de lá observava o movimento do mundo: os convidados chegando, trazendo presentes e beijos. Não entendia o sentido de ser presenteada com coisas materiais e não comestíveis – o que não pudesse consumir talvez nunca seria usado. Não imaginava chegar aos 100. Se morresse ali, naquele instante, com a casa cheia de alegria e orquídeas, estaria feliz e teria cumprido sua promessa de existir.

A mesa de doces estava naquele ano ainda mais bonita, o bolo de três andares, os docinhos. Ela mal podia esperar para o momento de soprar a vela – tinha um pedido secreto. Todos chegavam igualmente lindos e cheios de tempo. Ela pensava que estava na outra ponta da vida e sentia-se feliz em assistir à vitória de existir de suas filhas.

Olhou as orquídeas coloridas – roxas, amarelas, brancas, suas preferidas – e pensou que até amor verdadeiro ela teve.

A sala do amplo apartamento era quase um orquidário, todos sabiam o quanto ela gostava das flores. Estava rodeada com a presença viva das plantas. Será que as filhas se lembravam do motivo real de ela gostar tanto de orquídeas? Este pensamento nasceu sorridente. Que saudade daquele amor.

Depois que todos chegaram e comeram, veio a hora tão esperada do bolo. A vela incandescente, daquelas que ressuscitam. Mas ela queria que a chama morresse logo, pois só tinha um pedido. E assim fez.

O bolo estava precioso: recheio de doce de leite, cobertura de brigadeiro.

Todos se dispersaram para aproveitar a conversa – eram uma família que realmente gostava de conversar, de estar juntos. E isso era parte da vitória. Ela sabia que de alguma forma sua maneira de conduzir a vida e aproximar as pessoas tinha a ver com isso. Voltou para seu jardim-acostamento. Fazia um sol calmo.

Tinha nas mãos o segundo prato de bolo, que saborearia bem devagar.

Comeu observando as cenas felizes – o jardim tinha uma imensa janela de vidro, por onde observava a família. Foi ali, naquele instante, com o prato de bolo nas mãos, que se despediu daquela vida que teve, aos 95 anos. Morreu como se alguém lhe tivesse soprado a partida, sem dor nem lágrima. Tombou a cabeça e se foi.

O pedido secreto.

Por Claudia Nina – claudia.nina@selecoes.com.br
Jornalista e escritora, autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

 

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.

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